Por que deixamos de brincar com o passar dos anos? Entenda
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São Paulo - Quando foi a última vez que você brincou? Embora o brincar seja reconhecido como um direito fundamental da infância, especialistas defendem que ele não deveria desaparecer na vida adulta nem no envelhecimento.
"Hoje, em alguns estudos, já consideram o brincar tão essencial no desenvolvimento humano como o sono. Nessa perspectiva, a gente não deveria parar de brincar nunca", afirma a pedagoga e cientista social Ana Claudia Leite, gerente de educação do Alana.
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Segundo ela, esse ato não representa apenas uma diversão, mas uma ferramenta de desenvolvimento social, emocional e cognitivo ao longo de toda a vida. Ainda assim, conforme envelhecemos, o lúdico passa a ser associado a algo infantil ou pouco sério.
Na nossa sociedade, o adulto é muito associado com aquele que está voltado para o trabalho, para a produção, para a eficiência, e aí o brincar acaba sendo antagônico a isso."
E para muitos adultos, essa lógica começou cedo. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostram que, em 2015, 3,24% das crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos que viviam com mãe e figura paterna trabalhavam no Brasil. Em mais de 90% dos casos, pelo menos um dos pais também havia trabalhado na infância.
Os dados mais recentes do IBGE sobre trabalho infantil datam de 2024 e indicam mais de 1,6 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos estão em situação de trabalho infantil, o que representa 4,3% da população nessa faixa etária. O levantamento integra estudo publicado na revista Economia e Sociedade, derivado da pesquisa da doutoranda Isabela Almeida dos Santos, da Universidade Federal de Viçosa.
Brincar cultural
Para Ana Claudia, o excesso de compromissos e a lógica da produtividade afastam adultos e idosos do brincar cotidiano. "A pessoa vai tendo uma vida muito condicionada à sobrevivência, trabalhar para garantir as suas necessidades básicas, e se distancia desse aspecto", afirma.
Segundo a especialista, o brincar aparece com mais força em momentos específicos, como festas populares, jogos ou interações comunitárias. "Quando acontece, é muito localizado, em momentos de interação com os filhos, com os netos, em momento onde as pessoas vão para um campo de futebol e jogam uma bola, no Carnaval, no momento de manifestação de cultura popular."
Ela pondera que, por outro lado, diversas manifestações culturais brasileiras preservam esse aspecto lúdico e coletivo:
As manifestações culturais são brincadeiras intergeracionais, onde tem música, dança, fantasia, tem até um jogo de imaginação, de faz de conta com personagens."
Impacto das telas
A pedagoga aponta que as telas também impactam nessa mudança de perfil, já que passaram a ocupar parte importante do tempo de convivência e de lazer. "As telas levam as pessoas para um ambiente mais privado, individual, cada um com a sua."
Na avaliação dela, isso afeta crianças, adultos e idosos, reduzindo experiências compartilhadas e o brincar livre. "O brincar deveria acontecer mais cotidianamente, não esporadicamente em festas, não no Carnaval apenas. A pessoa não deveria demorar um ano inteiro para brincar", observa, e finaliza:
O adulto, e mesmo o idoso, deveria continuar brincando para que ele mantenha a sua vitalidade, a sua saúde mental, saúde física, capacidade motora, os seus vínculos e a própria cognição e memória."
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