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Terras raras: o que são e qual o desafio de Lula para o próximo mandato?

País detém um quarto das reservas globais de minerais vitais para alta tecnologia, mas não domina o refino; novo plano mira a neoindustrialização

Paula Bulka Durães

Por Paula Bulka Durães

27/10/2026 | 12h15

Divulgação/Agência Senado

O Brasil não responde por sequer 1% dos produtos industrializados derivados das terras raras - Divulgação/Agência Senado
O Brasil não responde por sequer 1% dos produtos industrializados derivados das terras raras
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Com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o governo brasileiro inicia uma reestruturação de sua agenda econômica, focando nas terras raras, elementos essenciais para a indústria de alta tecnologia e energia verde, embora o Brasil ainda não aproveite seu potencial nesse setor.

O país possui entre 24% e 25% das reservas mundiais de terras raras, mas não produz quase nada a partir delas, o que gera pressão geopolítica, especialmente dos Estados Unidos, que buscam garantir acesso a esses recursos estratégicos.

O plano de governo de Lula inclui a formulação de uma política pública para minerais críticos, mas especialistas alertam para a falta de detalhes e a necessidade de um planejamento industrial robusto, além de exigir contrapartidas tecnológicas em parcerias internacionais.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Com o novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) definido nas urnas no domingo, 25, o governo federal inicia a reestruturação da sua agenda econômica e internacional.

No centro das futuras negociações do País, um recurso estratégico assume protagonismo: as terras raras — conjunto de elementos químicos metálicos vitais para a indústria de alta tecnologia e energia verde.

Embora o Brasil detenha cerca de 25% das reservas mundiais de terras raras — a segunda maior do planeta, atrás apenas da China —, o País atualmente não responde por sequer 1% dos produtos industrializados derivados desses minerais.

Nos últimos meses, as terras raras brasileiras foram alvo de forte pressão geopolítica dos Estados Unidos, que chegaram a exigir de Brasília informações prévias sobre negociações do setor e tentaram impor bloqueios ao acesso da China às reservas nacionais.

No plano oficial de governo de Lula para o mandato 2027–2030, a questão dos recursos minerais estratégicos ganhou uma diretriz explícita. O documento prevê a elaboração de uma política pública específica para minerais críticos e terras raras.

Contudo, para o professor da FEA-USP, Paulo Feldmann, o plano é pouco detalhado, principalmente com relação ao orçamento. Também na disputa pelo pleito entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), houve pouco espaço para o debate sobre industrialização, destaca o economista.

O debate na disputa eleitoral

Apesar da urgência do tema, a pauta internacional e a estratégia minerária receberam atenção mínima e insatisfatória nos programas de governo e nos debates públicos. De acordo com o professor, Lula abordou as relações internacionais no plano de forma genérica e falou muito pouco sobre como viabilizar o beneficiamento nacional desses insumos. 

Quanto ao campo das relações internacionais, Flávio Bolsonaro (PL) não escondeu durante a campanha o alinhamento ideológico convergente de com os Estados Unidos de Donald Trump, em oposição ao multilateralismo defendido por Lula em parcerias comerciais com os Brics – aliança formada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Feldmann destaca que o viés político do senador causava preocupação quanto à soberania sobre esses recursos, o que poderia facilitar o acesso dos Estados Unidos às reservas brasileiras sem a exigência de contrapartidas industriais ou tecnológicas.

"O Lula falou pouco sobre a política internacional e não falou o que pretende fazer. E o Flávio não falou nada. O temor é que a ligação com os EUA facilitasse as coisas para o governo americano sem exigir compensações em troca."

O que são terras raras?

Trabalhador de capacete bate martelo geológico em solo rochoso avermelhado de mineração de terras raras.
Cada país estabelece sua própria lista de minerais críticos de acordo com suas necessidades industriais - Divulgação/Mineração Serra Verde

Os minerais críticos são elementos — como cobre, níquel, lítio e as próprias terras raras — cuja cadeia de suprimentos apresenta alto risco de desabastecimento para indústrias estratégicas, seja pela escassez geológica ou pela complexidade de seu processo de refino e beneficiamento químico.

Cada país estabelece sua própria lista de minerais críticos de acordo com suas necessidades industriais e diretrizes políticas. Já as terras raras formam um grupo específico de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas, ópticas e catalíticas excepcionais.

Elas são indispensáveis para a fabricação de ímãs de alta intensidade usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones, telas de computador e tecnologias de defesa.

Apesar do nome, o geofísico e professor do Instituto de Geociências da USP (IGc-USP), Marco Antonio Couto Junior, explica que esses minérios não são necessariamente escassos na crosta terrestre.

"É um nome um pouco infeliz. Não é porque eles são raros de serem encontrados na natureza, mas porque, quando encontramos, não necessariamente estão em uma concentração econômica justa que viabilize a prospecção do ponto de vista de negócio."

No território brasileiro, o potencial geológico para terras raras é vasto e diversificado, com ocorrências identificadas em regiões como Goiás, Poços de Caldas (MG) e no Vale do Ribeira (SP).

Segundo Couto Junior, por ser um país de dimensão continental, o Brasil tem uma grande diversidade de ambientes geológicos favoráveis a depósitos minerais valiosos.

Corrida tecnológica: China x EUA

A busca por terras raras está no epicentro da corrida tecnológica e da disputa direta entre as duas maiores potências do globo: Estados Unidos e China.

A China possui a maior reserva do planeta, com mais de 50%, e domina cerca de 70% da produção mundial de bens derivados das terras raras. Essa capacidade monumental de refino dá aos chineses uma posição de liderança confortável no setor.

Por outro lado, os Estados Unidos enfrentam uma clara desvantagem na cadeia produtiva e dependem da importação para suprir seu parque industrial de alta tecnologia. Esse cenário faz com que o governo norte-americano olhe com forte interesse para as jazidas da América do Sul e, em especial, para as do Brasil.

Feldmann alerta que o desafio para o Brasil é agir com esperteza diplomática e firmeza econômica diante desse assédio internacional.

Os Estados Unidos não vão medir esforços para conseguir as nossas terras raras. Não pode entregar de graça, como a gente sempre fez com os nossos minerais. Nem Estados Unidos nem China podem explorar as nossas reservas sem nos darem algo importante em troca.
Paulo Feldmann, economista

Como virar o jogo da industrialização brasileira?

Para que o presidente reeleito consiga transformar o potencial geológico brasileiro em desenvolvimento industrial e em parcerias internacionais equilibradas, Feldmann destaca quatro necessidades urgentes:

Formulação de uma política industrial

O Brasil precisa definir quais setores e tecnologias deseja priorizar. Países centrais como França, Espanha, Japão e Estados Unidos possuem políticas industriais estruturadas. Feldmann ressalta que o País precisa decidir como usará seus recursos minerais.

"O que eu esperaria é uma política industrial. Qualquer país do mundo discute sua política industrial: onde se define quais serão as prioridades do país em termos de produção, o que o país vai produzir e como vai produzir."

Planejamento de longo prazo

Para o professor, o País precisa superar a aversão ao planejamento governamental que prevalece desde os anos 1990. A ascensão econômica da China nas últimas décadas ocorreu justamente com base em um planejamento contínuo.

Investimento em ciência

A extração e o refino de terras raras demandam engenharia química e de materiais avançada. Atualmente, o Brasil sofre com a carência de profissionais capacitados nessa área.

Instituições como a USP e o Serviço Geológico do Brasil (SGB) vêm intensificando projetos de pesquisa e prospecção. Como destaca Couto Junior, o uso de métodos físicos e geofísicos reduz riscos financeiros ao mapear o subsolo antes de perfurações dispendiosas.

"Existe uma mobilização grande em direção a isso nas universidades e no governo. Para quem gosta de geociências e tecnologia, é uma área em forte ascensão com a conversa sobre transição energética e minerais críticos."

Parcerias estratégicas

Em vez de conceder licenças de exploração mineral a empresas estrangeiras em troca de tributação básica sobre a matéria-prima bruta, o governo brasileiro deve exigir transferência de tecnologia, além da instalação de refinarias e plantas fabris no território nacional.

O que prevê o plano de governo de Lula?

O plano de governo de Lula segmenta a industrialização em um modelo chamado de desenvolvimentismo soberano, estruturado por meio dos seguintes eixos:

  • Neoindustrialização e Nova Indústria Brasil (NIB): o programa estabelece a inovação, a inteligência artificial, a transição ecológica e os minerais críticos como ativos centrais para garantir o protagonismo tecnológico do País e elevar a produtividade industrial.
  • Parcerias econômicas soberanas: a política de comércio exterior é orientada a alinhar-se com a política industrial. O governo propõe uma atuação internacional universalista, diversificando parceiros e exigindo transferência de tecnologia e contrapartidas industriais, em vez de aceitar o extrativismo predatório ou alinhamentos subordinados.
  • Planejamento estatal: o plano defende abertamente o fortalecimento da capacidade de planejamento e de indução do Estado como condição inegociável para o desenvolvimento nacional de longo prazo.
  • Minerais críticos: a proposta destaca o uso da matriz renovável brasileira — com ênfase no Nordeste, que concentra a geração solar e eólica — para atrair plantas industriais eletrointensivas dedicadas ao processamento de minerais críticos e à produção de materiais de baixa emissão de carbono.

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