Terceira via sofre com voto útil antecipado e não emplaca nomes competitivos
Candidatos fora da polarização entre Lula e Flávio Bolonaro têm desempenho fraco nas pesquisas, refletindo a dificuldade de se mobilizar eleitoralmente.
Por Broadcast
02/10/2026 | 17h12Valter Campanato/ Agência Brasil
A tentativa de estabelecer uma terceira via nas eleições presidenciais de 2026 enfrenta dificuldades, com candidatos fora da polarização PT e bolsonarismo.
A falta de adesão do eleitorado dificultam a mobilização de alternativas, enquanto o desejo do eleitor por uma opção viável se choca com a realidade da polarização.
Embora o fracasso da terceira via em 2026 seja evidente, analistas acreditam que o espaço para novas candidaturas pode se manter até 2030,.
São Paulo - A tentativa de construir uma alternativa à polarização entre PT e direita bolsonarista deve naufragar novamente na eleição presidencial de 2026. Os candidatos que se apresentam como opções fora dos dois polos seguem comprimidos nas pesquisas, e o desempenho deste ano tende a repetir 2022, quando todos os candidatos da chamada terceira via tiveram, somados, menos de 10% dos votos válidos.
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Analistas consultados pelo Broadcast Político avaliam que o cenário reflete um movimento de antecipação do chamado voto útil, pregado - com algum sucesso - por Flávio Bolsonaro (PL) na reta final do primeiro turno.
A avaliação é de que, em uma eleição muito polarizada como a atual, é difícil que qualquer alternativa nova se mobilize eleitoralmente, mesmo no primeiro turno.
Muitas pessoas até demonstram um certo cansaço do ambiente da polarização, mas acabam migrando para os polos porque querem votar em quem tem chances reais de ganhar. Isso acaba comprimindo o espaço de candidaturas alternativas".
Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB)
Pesaram contra uma candidatura de terceira via "decolar" a pouca aderência junto ao eleitorado dos nomes lançados e o fato de o espólio do ex-presidente Jair Bolsonaro não estar em disputa neste pleito, já que os votos foram quase automaticamente repassados para seu filho "01".
De um lado, a terceira via é fraca. De outro, o brasileiro gostaria que ela existisse. Mas, quando o eleitor olha para o cenário político, percebe que ela não existe e se posiciona dentro do cenário de polarização"
Leonardo Avritzer. cientista político e professor da UFMG
Levantamento do Datafolha divulgado na quinta-feira mostrou os principais nomes da terceira via embolados e empatados tecnicamente. Augusto Cury (Avante) marcava 4%; Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) estavam com 3% cada; e Romeu Zema (Novo) aparecia com 1%. Esse cenário da véspera do primeiro turno pouco se alterou ao longo de toda a campanha, e a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) jamais esteve ameaçada.
De quebra, nas eleições deste ano, o palco que costumeiramente serve de vitrine para candidatos menores se apresentarem ao grande público também foi esvaziado. O cancelamento, nesta quinta-feira, do debate da Globo - o último previsto antes do primeiro turno - acabou sendo um retrato claro desse processo, com os candidatos da terceira via reclamando da falta de espaço para apresentar suas propostas e criticando a omissão de Lula e Flávio Bolsonaro.
Cury
A principal surpresa da terceira via talvez tenha sido Augusto Cury. Tratado com ceticismo quando registrou a candidatura, o escritor e psiquiatra ganhou tração no fim de agosto, embalado pelo desempenho nas redes e pela vitrine do debate Band/Estadão, em 23 de agosto.
Aliás, ele chegou a cogitar nem participar do encontro, mas recuou e adotou um tom moderado e centrado - em contraste principalmente com Renan Santos -, além de criticar Lula e Flávio.
Nas duas semanas seguintes, Cury viu seu nome disparar nas redes sociais, marcou 10% na pesquisa Quaest e chegou a ser recebido na Faria Lima. Mas, com a crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF), a campanha perdeu fôlego depois do feriado de 7 de Setembro.
Renan
Sem fundo eleitoral e com pouco espaço na propaganda tradicional, Renan Santos concentrou a campanha no ambiente digital e apareceu bem colocado em pesquisas feitas por recrutamento online, como a AtlasIntel.
A participação na sabatina da TV Globo, em 26 de agosto, deu um gás em sua popularidade. Dias depois, em 31 de agosto, um episódio no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também impulsionou sua visibilidade.
O ministro Dias Toffoli suspendeu propagandas na internet e o direito de o candidato do Missão participar de debates, decisão revertida 36 horas depois. No intervalo, Renan elevou o tom contra magistrados e ganhou espaço no noticiário. Para Medeiros, da UnB, a campanha revelou um eleitorado engajado e deu ao candidato projeção para além do tamanho do partido.
Zema
Com dois mandatos em Minas Gerais, Zema entrou na corrida como aposta "liberal" na direita, mas não conseguiu transformar capital estadual em impulso nacional. No Datafolha, ficou travado abaixo de 3% e teve poucos momentos de destaque.
O principal acabou sendo negativo: a ausência no debate da Band. A decisão foi criticada dentro do Novo e alimentou especulações sobre desistência - que estiveram vivas até a última semana de campanha -, reforçando a percepção de uma candidatura que não decolou.
Na última semana, indicou que até toparia desistir da corrida eleitoral a favor de Flávio Bolsonaro se os outros candidatos da centro-direita fizessem o mesmo. "Mas sabemos que muito dificilmente isso vai acontecer", disse na terça-feira, 29.
Caiado
Embalado por uma aprovação de 87% dos goianos, Ronaldo Caiado entrou na campanha com foco em segurança pública, saúde e combate à corrupção. O tom foi, desde o início, discreto. Tentou se vender como alternativa de direita com viabilidade eleitoral, mas perdeu espaço com o avanço de Cury.
Para Avritzer, da UFMG, o governador de Goiás largou como o nome com mais estrutura e mais conhecido na terceira via. Ele considera, porém, que um momento-chave da campanha foi quando o ex-governador de Goiás declarou ser favorável a uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Provavelmente ele inviabilizou ali a sua própria candidatura, porque demonstrou que pretendia disputar o voto do bolsonarismo, que não está em disputa hoje", observa.
Futuro
O fracasso eleitoral da terceira via em 2026, porém, não encerra necessariamente o espaço para uma candidatura que tente escapar da polarização. Para os analistas, uma das condições para que esse espaço permaneça aberto até 2030 é que os nomes que hoje se apresentam preservem sua independência em relação aos polos, evitando uma aproximação que possa dissolver justamente o diferencial de suas candidaturas.
"Quem quiser ter relevância em 2030 tentará manter sua independência no segundo turno", diz Avritzer, da UFMG.
Cury e Renan já indicaram que vão se manter neutros no segundo turno. Já Caiado e Zema devem subir no palanque de Flávio Bolsonaro.
Entre os nomes desta eleição, Medeiros, da UnB, considera que Caiado e Zema saem enfraquecidos, porque eram governadores bem avaliados, mas não conseguiram criar uma "imagem clara" em suas campanhas.
"Muito se apostou em Zema e Caiado, por saírem de seus mandatos muito bem avaliados. A verdade é que, no período da Nova República, o único ex-governador que conseguiu chegar à presidência foi Fernando Collor", observa.
Por Daniel Tozzi e Mariana Ribas
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