Alexandre Kalache
Colunista VIVA
11/05/2026 | 10h26
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Gerontólogo e professor, é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brazil) e co-diretor do Age Friendly Institute. Ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra
Desigualdade social ameaça a decantada Revolução da Longevidade
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Rio de Janeiro - Indicadores de saúde dos países precisam ser observados com cuidado. Em um artigo publicado no American Journal of Public Health (setembro de 2023), a pesquisadora Laureen Gaydash afirmou que, em 2020, a expectativa de vida ao nascer (LEB) nos Estados Unidos era a mesma de vinte anos antes, ou seja, estagnada. A mortalidade infantil apresentava desempenho pior do que em países comparáveis, e a mortalidade materna era três vezes superior à média da OCDE.
A autora acrescentou que as taxas de mortalidade na meia-idade (25–65 anos) vêm aumentando há várias décadas em alguns grupos populacionais. Os EUA ocupavam a 12ª posição em 1950 e, no início da década de 2020, haviam caído para a 46ª posição. Em síntese, vidas mais curtas do que em países equiparáveis — ou mesmo muito mais pobres — como Costa Rica e Portugal.
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Gaydash destacou o aumento das taxas de diabetes, hipertensão, obesidade, transtornos de saúde mental (incluindo suicídio, depressão e uso de drogas, em especial opioides), doença hepática crônica, mortes por violência e acidentes de trabalho. Essas tendências divergem da maioria da comunidade global, que tem observado melhorias contínuas na saúde populacional e, segundo outro autor no mesmo número do AJPH, Wolff, refletem o agravamento das desigualdades.
Considerando o peso e o impacto desproporcionais da pandemia de covid-19, Wolff observa que praticamente todo o progresso anterior na redução das disparidades raciais/étnicas em saúde foi perdido.
Como afirmou Asaf Bitton, da Harvard School of Public Health, em artigo publicado em abril de 2023, os Estados Unidos dispõem de um “excelente sistema de cuidado da doença, que atende muito bem pessoas gravemente enfermas, mas de um sistema de saúde bastante inadequado”, sugerindo que a solução para tais insuficiências seria “oferecer cobertura básica de saúde e seguro-saúde a todos, e, simultaneamente, integrar a infraestrutura de saúde pública e de atenção à saúde”.
Como pode o país com o maior gasto per capita em saúde — US$ 15.474 em 2023, praticamente três vezes superior ao de Alemanha, Suécia, Canadá e França, todos abaixo de US$ 5.400 — apresentar desempenho tão insatisfatório em termos de indicadores de saúde? Para comparação, o Brasil gasta menos de US$ 1.300.
Pior ainda, quando focamos na Expectativa de Vida Ajustada pela Saúde (HALE, em inglês), a situação é ainda mais preocupante.
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O que é HALE?
A HALE estima quantos anos uma pessoa pode esperar viver com boa saúde, e não apenas o tempo total de vida. Ela ajusta a expectativa de vida ao considerar os anos vividos com doença ou incapacidade.
Trata-se de um indicador mais sofisticado, pois capta a qualidade — e não apenas a quantidade — de vida, revela desigualdades de forma mais nítida e é altamente sensível aos determinantes sociais da saúde e ao êxito (ou fracasso) das políticas públicas.
Se isso é verdadeiro para os Estados Unidos, essas tendências preocupantes também se manifestam em outros países desenvolvidos? Infelizmente, a resposta é sim.
Tomemos o Reino Unido como exemplo. A expectativa de vida ao nascer no país estagnou desde a década de 2010, em paralelo a quedas na HALE, especialmente entre grupos de baixa renda e mulheres em áreas mais desfavorecidas.
O contexto britânico está fortemente associado à estagnação e à erosão impulsionadas por políticas públicas: uma década de austeridade, subfinanciamento da assistência social e da saúde pública, aumento da multimorbidade e a conhecida divisão Norte-Sul, isto é, desigualdades regionais.
Evidências sugerem que, mesmo ao se considerar o excesso de mortalidade decorrente da covid-19, outros países europeus — particularmente na região oriental — também registraram quedas na expectativa de vida ao nascer.
E qual a situação no Brasil?
A realidade é de uma trajetória contrastante no Brasil, porém frágil. É verdade que o País esteve entre os mais afetados pela recente pandemia. Basta lembrar que, com apenas 3% da população mundial, concentrou cerca de 11% das mortes por covid-19.
No entanto, o Sistema Único de Saúde (SUS) seguiu um ritmo de expansão e fortaleceu a atenção primária por meio da Estratégia Saúde da Família. Entre os êxitos da saúde pública destacam-se as políticas de imunização, o controle do HIV e o combate ao tabagismo. Ainda assim, não devemos ser complacentes.
Os avanços estão desacelerando; persistem imensas desigualdades sociais, regionais e étnico-raciais; e observa-se uma crescente carga de doenças crônicas."
Os exemplos dos Estados Unidos e do Reino Unido são preocupantes. Saúde é algo frágil. Ganhos do passado podem ser rapidamente revertidos ou corroídos. Devemos nos preocupar não apenas em acrescentar anos à vida, mas, sobretudo, em acrescentar vida aos anos. Os determinantes sociais da saúde são fundamentais. Baixos níveis educacionais, desigualdade de renda, moradias precárias e problemas ambientais, somados à falta de compreensão da importância da perspectiva do curso de vida, ajudam a explicar por que alguns envelhecem com boa saúde enquanto outros sucumbem em idades muito mais precoces.
Como eu repito frequentemente: 'quer chegar bem aos cem, comece já, quanto mais cedo melhor, nunca é tarde demais'. Mas o esforço individual não basta; políticas públicas que o sustentem são essenciais."
Sistemas de saúde robustos precisam ir além de um foco exclusivo no tratamento, dar maior ênfase à prevenção e integrar-se à assistência social à medida que as populações envelhecem.
É por isso que a HALE é tão importante. Mais do que um indicador de saúde, trata-se de um indicador de desigualdade, que ajuda a explicar por que tantas pessoas chegam à velhice em condições de fragilidade, com menor independência e autonomia. A HALE é moldada décadas antes da velhice. Combater o idadismo é imperativo. Nosso tendão de Aquiles é a instabilidade política.
A experiência dos Estados Unidos aponta para colapso; a do Reino Unido, para erosão. No Brasil, o grande desafio é a fragilidade.
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