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Feridas persistentes na boca podem indicar câncer bucal; veja cuidados

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Ao perceber qualquer alteração, deve-se procurar um médico ou dentista o quanto antes - AdobeStock
Ao perceber qualquer alteração, deve-se procurar um médico ou dentista o quanto antes
Por Bianca Bibiano

31/05/2026 | 08h10

São Paulo - Feridas persistentes, manchas na mucosa e dificuldade para engolir estão entre os sinais que podem indicar câncer de boca e de lábio, doenças que seguem crescendo no Brasil e ainda são, muitas vezes, descobertas tardiamente.

No Dia Nacional de Combate ao Câncer Bucal, data instituída em 1988 pelo Ministério da Saúde, especialistas reforçam que o diagnóstico precoce é determinante para ampliar as chances de cura e reduzir sequelas que podem afetar fala, mastigação, deglutição e autoestima.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 15 mil novos casos de câncer bucal por ano, com maior incidência entre homens acima dos 40 anos. Em relação ao câncer de lábio, a estimativa é de 10.880 casos no País em 2026, sendo cerca de 2.800 apenas no Estado de São Paulo.

O otorrinolaringologista e cirurgião de cabeça e pescoço Augusto Abrahao, membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), explica que os primeiros sintomas podem surgir de forma silenciosa e acabam sendo ignorados pelos pacientes.

"Esse câncer pode começar com pequenas alterações, como manchas esbranquiçadas na mucosa oral e aftas que não cicatrizam. O fato é que quanto mais precoce o diagnóstico, maior é chance de cura e menores os impactos na qualidade de vida", comenta.

Ele observa que muitos pacientes só procuram ajuda quando começam a sentir dor intensa ou dificuldade importante para falar e engolir. "O ideal é investigar qualquer alteração persistente na boca ou garganta o quanto antes."

Abrahao destaca ainda que o tratamento pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou terapias combinadas, dependendo do estágio da doença.

O médico oncologista da Kora Saúde, Fernando Zamprogno e Silva, afirma que um dos principais desafios é justamente o fato de a doença ser frequentemente indolor nas fases iniciais.

Qualquer ferida na boca, língua ou gengiva que não cicatriza em até 15 dias deve ser avaliada por um especialista. Manchas brancas ou avermelhadas e rouquidão persistente também são sinais que o corpo nos dá e que não podem ser ignorados", alerta.

Cigarro aumenta o risco

O oncologista também chama atenção para a mudança no perfil dos pacientes diagnosticados. Historicamente associado ao tabagismo e ao consumo excessivo de álcool, o câncer de boca passou a registrar aumento de casos ligados ao HPV.

"Estamos observando um crescimento de casos em pacientes mais jovens e não fumantes, muitas vezes relacionado à infecção pelo HPV. Esse vírus pode permanecer silencioso por anos, mas é um agente cancerígeno potente para a região da garganta e da cavidade oral", explica Silva.

O especialista acrescenta que a combinação entre cigarro e álcool é uma das associações mais perigosas para o desenvolvimento da doença. Isso acontece porque o álcool facilita a penetração das substâncias tóxicas do tabaco nas células da mucosa oral, elevando significativamente o risco.

Já o secretário da Câmara Técnica de Estomatologia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Yuri Kalinin, alerta que fatores ambientais e genéticos também devem ser considerados, especialmente no câncer de lábio:

O risco está amplamente ligado ao estilo de vida e a fatores genéticos e ambientais como exposição excessiva ao sol (radiação ultravioleta) sem proteção, sendo esta a principal causa do câncer de lábio."

Entre os grupos que exigem atenção redobrada estão trabalhadores expostos ao sol, como agricultores e pescadores, além de pessoas com pele clara acima dos 40 anos, indivíduos imunossuprimidos e pacientes com histórico familiar de câncer.

O dentista especialista em implantodontia da Neodent, Sérgio Bernardes, também alerta para os riscos associados ao uso de cigarros eletrônicos. Ele observa que o vape pode provocar inflamações na mucosa oral, alterações nas células e ressecamento bucal, favorecendo lesões e infecções que podem evoluir para quadros mais graves quando não identificados precocemente.

Dentistas podem fazer diagnóstico

Além de médicos especializados em cabeça e pescoço, os dentistas também ocupam posição estratégica na identificação precoce de lesões suspeitas. O exame clínico durante uma consulta permite observar alterações na mucosa, nos lábios, gengivas e língua antes mesmo de sintomas mais graves surgirem.

Yuri Kalinin explica que em estágios mais avançados podem surgir também ínguas no pescoço, rouquidão persistente, sensação de algo preso na garganta e dificuldade para mastigar, falar ou engolir.

Para evitar complicações, ele recomenda uma identificação precoce por um profissional cirurgião-dentista que fará a avaliação da boca, apalpando os lábios e bochechas. Nesse sentido, Sérgio Bernardes destaca que muitos pacientes subestimam alterações aparentemente simples:

A boca funciona como uma porta de entrada e como um termômetro da saúde. Muitos pacientes ignoram sintomas iniciais por não associarem ao risco de câncer".

Prevenção

Embora abandonar o cigarro siga como uma das principais recomendações, os especialistas destacam que a prevenção depende de um conjunto de hábitos e cuidados contínuos, como:

  • Higiene bucal adequada: A escovação correta, o uso diário do fio dental e as visitas regulares ao dentista ajudam a identificar lesões precocemente.
  • Proteção solar labial: A exposição prolongada ao sol pode estar associada ao câncer de lábio.
  • Moderação no consumo de álcool: O consumo frequente pode potencializar os efeitos nocivos do tabaco e agride a mucosa oral.
  • Alimentação equilibrada: Dietas ricas em frutas, verduras e antioxidantes podem contribuir para a saúde celular.
  • Autoexame da boca: Simples e rápido, pode ser feito em frente ao espelho, observando língua, gengivas, bochechas e céu da boca.

Yuri Kalinin reforça outras medidas importantes de prevenção, especialmente contra o câncer de lábio, como usar protetor solar labial com FPS 15 ou superior diariamente, utilizar chapéus de abas largas e evitar exposição solar direta entre 10h e 16h.

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