Pessoas idosas podem doar órgãos? Entenda o peso da idade em transplantes
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São Paulo - A idade avançada não exclui uma pessoa da possibilidade de ser doadora de órgãos. Segundo especialistas consultados pelo VIVA, isso permite que pessoas idosas se tornem doadoras a qualquer momento da vida, considerando a viabilidade de cada órgão para transplante.
O Ministério da Saúde no Brasil determina que o principal critério é a qualidade de cada órgão, embora existam restrições específicas dependendo das condições clínicas e do receptor.
De acordo com a professora do curso de medicina do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), Daiana Zupirolli, não existe um único limite de idade válido para todos os órgãos. Uma pessoa com 70 anos, 80 ou mais pode ser potencial doadora, explica a médica.
No momento da doação, a equipe de transplantes avalia individualmente aspectos como função do órgão, doenças prévias, presença de infecções ou neoplasias, exames laboratoriais e características anatômicas."
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Idade cronológica é diferente de biológica
O neurocirurgião Feres Chaddad, da BP - Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que o mais importante é a idade biológica do órgão, não apenas a idade cronológica contada em anos, pois ela diz relativamente pouco sobre a condição funcional.
Duas pessoas com 70 anos podem apresentar condições de saúde e graus de autonomia completamente diferentes. O envelhecimento é um processo muito heterogêneo, influenciado por fatores genéticos, doenças associadas, hábitos de vida e pela própria reserva funcional do organismo."
Por isso, reitera, ter mais de 60 anos não significa, por si só, que há limitações importantes ou comprometimento significativo das funções do organismo. "A condição clínica, a funcionalidade e, sobretudo, as características e a qualidade de cada órgão são mais informativas do que simplesmente a idade registrada no documento".
Quais órgãos podem ser doados?
O coordenador do serviço de transplante hepático André Watanabe, do Hospital Brasília/Rede Américas, diz que se não houver contraindicações, como uma infecção fora de controle ou um tumor maligno que impeça a doação, todos órgãos de doadores com idade mais avançada podem ser utilizados com sucesso.
O aproveitamento varia conforme a especificidade de cada órgão. O coração, por exemplo, costuma ter critérios etários mais restritos, e sua utilização de doadores com mais de 50 anos pode ser mais difícil. Outros órgãos podem ser aproveitados a partir de doadores mais idosos."
Em linhas gerais, Daiana Zupirolli explica que os diferentes órgãos não envelhecem na mesma velocidade, e existe grande variação entre as pessoas. Nesse sentido, um paciente pode não ser adequado para doar o coração, mas pode ter rins, fígado e córneas potencialmente utilizáveis, considerando a avaliação de cada órgão.
Na seleção do receptor do transplante são consideradas a compatibilidade e características clínicas, para buscar o melhor resultado possível", diz.
Em resumo:
- Após morte encefálica, podem ser considerados para doação rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas e intestino, além de tecidos como córneas, pele, ossos e tendões.
- Após morte por parada cardiorrespiratória, a possibilidade concentra-se principalmente na doação de tecidos.
No caso do fígado, Zupirolli chama a atenção para a grande reserva funcional e capacidade regenerativa desse órgão. "Fígados de pessoas idosas podem permanecer funcionais e, após avaliação adequada, ser utilizados para transplante. Os rins também podem ser aproveitados em doadores idosos, dependendo principalmente da função renal e das características estruturais do órgão".
Os tecidos, principalmente as córneas, também podem permanecer aptos à doação em idades bastante avançadas, dependendo da avaliação do banco de tecidos, diz a médica.
Já os pulmões costumam sofrer maior influência das alterações cardiovasculares, pulmonares e metabólicas acumuladas com a idade, fazendo com que os critérios de seleção possam ser mais restritivos.
De acordo com o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), doenças crônicas como diabetes, infecções ou mesmo uso de drogas podem acabar comprometendo o órgão que seria doado, inviabilizando o transplante.
Envelhecimento no perfil de doadores
André Watanabe afirma que a idade média dos doadores de fígado no Brasil já está em torno de 43 a 44 anos. "Doadores mais idosos vêm sendo cada vez mais aproveitados. Nos Estados Unidos, por exemplo, já foi realizado transplante de fígado proveniente de um doador de 90 anos. Na Europa, isso também já ocorreu com sucesso", afirma.
Com o envelhecimento da população, ele reforça a necessidade de aproveitar os órgãos de doadores idosos. E explica que há muitos receptores na fila que precisam do transplante e podem acabar falecendo em decorrência da doença.
Temos cada vez mais pacientes precisando de transplantes. Hoje, no Brasil, são cerca de 70 mil pessoas na fila, considerando também as córneas. Quando consideramos os órgãos sólidos, são aproximadamente 40 mil pessoas, sendo cerca de 36 mil somente à espera de um rim".
Para Watanabe, a tendência é ampliar cada vez mais a idade dos doadores. "Evoluímos na avaliação dos critérios de aceitação desses doadores, chamados de doadores de critérios expandidos. Eles podem ser aproveitados com segurança e sucesso, contribuindo para reduzir as filas de transplante", finaliza.
O que diz a legislação sobre doação de órgãos?
No Brasil, a doação de órgãos e tecidos só será realizada após a autorização familiar. Os órgãos doados vão para pacientes que necessitam de um transplante e estão aguardando em lista de espera. A lista é única, organizada por Estado ou região, e monitorada pelo SNT.
Após o diagnóstico de morte, a família é consultada e orientada sobre o processo de doação. Caso haja autorização, a equipe de saúde realiza uma entrevista para investigar hábitos do doador que possam levar ao desenvolvimento de doenças ou infecções que possam ser transmitidas ao receptor.
A hepatologista Lisa Saud, do Hospital Nove de Julho/Rede Américas, diz que existe uma distinção importante entre manifestar vontade de doar e efetivamente se tornar um potencial doador.
"Enquanto o paciente está vivo, ele pode manifestar esse desejo, e isso é muito útil para que a família saiba. Mas, para doação de órgãos após a morte, o processo só é desencadeado em situações específicas, principalmente quando ocorre morte encefálica com manutenção da circulação e em algumas situações de parada cardiorrespiratória."
Nesse sentido, ela diz que a legislação de cada órgão deve ser avaliada. Pela regulamentação atual, por exemplo, para coração são consideradas para alocação ofertas provenientes de doadores falecidos com até 60 anos. Para fígado e rim, a situação é mais flexível e a idade deve ser contextualizada com função do órgão e demais características do doador. Para córneas, a idade avançada também não representa automaticamente impedimento, segundo Saud.
Na prática hospitalar, portanto, não faz sentido encaminhar todo paciente idoso que diz querer doar para uma avaliação de órgãos naquele momento. O mais importante é registrar a manifestação do desejo e orientar que ele comunique claramente essa vontade à família", diz.
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