Predominante em mulheres 50+, síndrome do olho seco tem tratamento
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Por Bianca Bibiano
31/01/2026 | 16h00
São Paulo, 31/01/2026 - Passar horas em frente ao computador, alternar entre o celular e a televisão e encerrar o dia com mais tempo nas redes sociais se tornou parte da rotina da maioria das pessoas. O problema é que esse comportamento, intensificado nos últimos anos, tem impactado diretamente a saúde dos olhos. Ardência, sensação de areia, vermelhidão, cansaço visual e um peso incômodo ao final do dia estão entre os sinais mais comuns da síndrome do olho seco - uma condição frequente, mas ainda pouco reconhecida.
Segundo especialistas ouvidos pelo VIVA, o uso excessivo de telas reduz a frequência do piscar, movimento essencial para espalhar a lágrima pela superfície ocular. Com isso, a lágrima evapora mais rápido, deixando o olho desprotegido. Ambientes com ar-condicionado, poluição, fumaça e baixa umidade do ar agravam esse cenário, favorecendo o surgimento e a piora dos sintomas.
"Quando a gente está lendo ou usando o computador, muitas vezes a gente pisca menos do que deveria", explica o oftalmologista Gustavo Gubert, especialista no tema. "Esses fatores potencializam a exposição da superfície ocular."
Embora possa afetar pessoas de todas as idades, a síndrome do olho seco é mais comum após os 50 anos e atinge principalmente mulheres, especialmente no período da menopausa. Trata-se de uma condição crônica, multifatorial e que pode comprometer de forma significativa a qualidade de vida quando não é diagnosticada e tratada adequadamente.
O que é a síndrome do olho seco?
Apesar do nome, a síndrome do olho seco não se resume à falta de lágrima. Em grande parte dos casos, o problema está na qualidade do filme lacrimal, responsável por proteger e lubrificar a superfície dos olhos. "O termo olho seco, para a maioria das pessoas, é um pouco confuso", afirma Gubert. "Muitas vezes o paciente lacrimeja e não entende como pode ter olho seco."
Segundo o especialista, os sintomas variam e nem sempre aparecem ao mesmo tempo. "O paciente pode sentir ardência, sensação de areia nos olhos, vermelhidão, cansaço, um peso visual", explica. "São sintomas comuns, mas não podem ser considerados normais."
O oftalmologista Celso Cunha, consultor da HOYA Vision Care, reforça que a síndrome pode estar relacionada tanto à quantidade quanto à qualidade da lágrima. "O paciente tem uma produção ou uma qualidade da lágrima que não é adequada para manter a superfície ocular bem hidratada", afirma. "Às vezes ele lacrimeja, mas essa lágrima tem qualidade ruim e gera instabilidade no filme lacrimal."
Após os 50 anos, o risco da doença aumenta
O avanço da idade é um dos fatores mais relevantes no desenvolvimento da síndrome do olho seco. A partir dos 50 anos, mudanças naturais do organismo afetam diretamente a produção e a qualidade da lágrima, tornando a superfície ocular mais vulnerável. Entre as mulheres, esse risco é ainda maior no período da menopausa, quando as alterações hormonais se intensificam.
Ao envelhecer, nós temos alterações normais, hormonais e tudo mais relacionadas ao envelhecimento que já reduzem praticamente 50% da produção de lágrima", explica Cunha.
A queda nos níveis hormonais interfere no funcionamento das glândulas responsáveis pela lubrificação dos olhos. Além disso, outros fatores comuns nessa fase da vida acabam potencializando o problema, como o uso contínuo de medicamentos, a presença de doenças crônicas e mudanças no padrão de hidratação. "O idoso sente menos sede. Então ele bebe menos água. E se ele se hidrata menos, vai menos água para a lágrima também."
Segundo os especialistas, é comum que os sintomas sejam inicialmente atribuídos apenas ao cansaço visual ou ao envelhecimento natural, o que atrasa o diagnóstico.
"Na faixa etária dos 50 anos para cima, cirurgias oculares e até cirurgias plásticas podem alterar a anatomia e a inervação e funcionar como um gatilho para os sintomas", explica Gubert.
O especialista ressalta que o problema não é realizar esses procedimentos, mas sim a falta de avaliação prévia da superfície ocular. "Não é que não se deva operar. A questão é examinar bem esses pacientes antes, porque muitos ficam insatisfeitos não com a cirurgia, mas com a piora dos sintomas do olho seco", afirma.
Por isso, o acompanhamento oftalmológico regular ganha ainda mais importância nessa fase da vida, mesmo na ausência de queixas intensas. "A avaliação oftalmológica deveria ser no mínimo anual para todo mundo", reforça Gubert. "Hoje o oftalmologista avalia também a superfície ocular, não só o grau."
Quais são as causas da síndrome do olho seco?
A síndrome do olho seco é considerada uma doença multifatorial, ou seja, resulta da combinação de hábitos, fatores ambientais, envelhecimento e também de doenças sistêmicas e oculares. Entre os principais gatilhos estão o uso prolongado de telas, ambientes com ar-condicionado, baixa umidade do ar, poluição, vento, fumaça de cigarro e o uso contínuo de lentes de contato.
"O ambiente com ar-condicionado tira a umidade do ar. Se vai ficar mais seco, o olho vai evaporar mais", explica o oftalmologista Celso Cunha. O excesso de telas também tem papel central no aumento dos casos. "Ao prestar mais atenção nos aparelhos eletrônicos, a pessoa pisca menos, e o piscar é distribuir melhor a lágrima", acrescenta o especialista.
Além dos fatores ambientais e comportamentais, diversas doenças estão associadas ao desenvolvimento ou agravamento do olho seco, como lúpus, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren, rosácea, acne e blefarite. Tratamentos oncológicos e o uso de alguns medicamentos também podem impactar diretamente a superfície ocular.
"O olho seco não é falta de lágrima na maioria esmagadora das vezes", explica. "Noventa por cento dos casos estão relacionados a uma condição nas pálpebras, que a gente chama de disfunção das glândulas meibomiana."
Cuidados incluem hidratação adequada
Os cuidados com a síndrome do olho seco começam por mudanças simples no dia a dia, mas que fazem grande diferença para a saúde ocular. Hidratação adequada, pausas regulares durante o uso de telas, atenção ao ambiente e acompanhamento oftalmológico periódico estão entre as principais recomendações dos especialistas.
Segundo os médicos, um dos erros mais comuns é normalizar o desconforto ocular e adiar a busca por ajuda especializada. "O paciente vai convivendo com esses sintomas, mas não é uma coisa normal", alerta o oftalmologista Gustavo Gubert. "Podem ser comuns, mas não são sintomas normais."
No uso de telas, a orientação é intercalar períodos de foco próximo com pausas visuais, olhando para longe e piscando conscientemente, além de evitar longas horas seguidas diante de computadores e celulares. "Quando a pessoa está em atividade contínua em eletrônicos, ela pisca menos, e o piscar é o que distribui melhor a lágrima", explica Celso Cunha.
O ambiente também merece atenção. Locais com ar-condicionado, baixa umidade ou exposição constante ao vento favorecem a evaporação da lágrima. Sempre que possível, é recomendado ajustar a climatização, usar umidificadores e proteger os olhos em ambientes externos. "Se o ambiente fica mais seco, o olho evapora mais e perde lágrima", reforça Cunha.
Além disso, o uso indiscriminado de colírios sem orientação médica pode piorar o quadro, principalmente produtos com conservantes ou vasoconstritores.
Evitar sair comprando qualquer colírio sem indicação médica formal é essencial. Isso pode trazer consequências a médio e longo prazo", orienta Gubert.
A avaliação oftalmológica regular é parte central dos cuidados preventivos, mesmo para quem já usa óculos ou não apresenta queixas intensas. Ao identificar precocemente sinais de instabilidade da lágrima ou inflamação da superfície ocular, o especialista diz que é possível evitar a progressão da síndrome e reduzir a necessidade de tratamentos mais complexos no futuro.
O mais importante é o paciente perceber que tem alguma coisa incomodando no dia a dia. E procurar ajuda antes que isso se torne mais grave."
Tratamos para olho seco
O tratamento é dividido em etapas e deve ser individualizado. A primeira envolve orientação e mudança de hábitos. Depois, entram os colírios lubrificantes. "Os colírios são a primeira linha do tratamento", explica Gubert. "Mas nem todo colírio é igual, e sair comprando sem orientação pode trazer consequências."
Em casos mais persistentes, pode ser necessário lançar mão de outras abordagens. "Se a gente não agir na causa da doença, o sintoma vai voltar", afirma o especialista. Entre as opções mais avançadas e para casos específicos está o colírio de soro autólogo. "É um colírio produzido a partir do próprio sangue do paciente", explica Gubert. "Ele se assemelha muito à lágrima natural e ajuda no controle da inflamação crônica."
Para a produção, é necessária a coleta total de dez tubos de sangue, dos quais são extraídos o soro e também material para análises clínicas, com duração média de sete dias. O produto final pode ser usado ao longo de três meses, mantido em congelador.
Embora revolucionário, poucas iniciativas trabalham ou já trabalharam com esse tipo de medicamento no Brasil, o que reduz o acesso. Uma das iniciativas de destaque vem de uma parceria entre o banco de sangue Hemocentro São Lucas (HSL) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que recebem pedidos de médicos de todo o Brasil.
De acordo com a diretora de Inovação do Grupo São Lucas, Júlia Pinheiro, o medicamento atende especialmente a pacientes que sofrem a síndrome do olho seco, desencadeada por diversos fatores entre eles a GVHD, comum entre transplantados de medula óssea; artrite reumatóide; Síndrome de Joubert; tireoidismo, mulheres menopausadas e pessoas com alta exposição a telas de computadores e celulares.
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