Quase 44% das mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas, diz estudo
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São Paulo, 20/02/2026 - Um novo levantamento global trouxe um alerta: quatro a cada dez mortes por câncer no Brasil (43,2%) poderiam ter sido evitadas com medidas de prevenção, diagnóstico antecipado e melhor acesso a tratamentos. É o que aponta um estudo publicado no The Lancet feito por pesquisadores vinculados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS).
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A pesquisa aponta que, dos casos de câncer diagnosticados no Brasil em 2022, por volta de 253,2 mil devem ter a morte como fim em até cinco anos após o diagnóstico (2027). Desse total, 109,4 mil teriam chance de serem evitadas.
O estudo analisou o cenário global para entender o que aconteceria se o mundo adotasse medidas rigorosas de prevenção e garantisse acesso igualitário a diagnósticos e tratamentos de ponta nos primeiros 5 anos após a descoberta da doença.
Do total de mortes que poderiam ser evitadas no País, a pesquisa divide em dois subgrupos:
- Preveníveis: 65,2 mil mortes no Brasil são preveníveis. Estes são os casos em que a doença sequer teria se desenvolvido se a população não estivesse exposta a fatores de risco;
- Evitáveis: 44,2 mil são evitáveis. Neste cenário, o câncer ocorreria, mas o paciente teria grandes chances de sobreviver caso houvesse um diagnóstico precoce e acesso a tratamentos médicos adequados.
Metade das mortes poderia ser evitada
No mundo, das 9,4 milhões de mortes esperadas em pacientes recém-diagnosticados com câncer em 2022, cerca de 4,5 milhões (47,6%) poderiam ter sido evitadas.
A pesquisa também dividiu a mortalidade mundial em duas categorias:
- Mortes preveníveis: totalizam 3,1 milhões de vidas (33,2% do total de mortes esperadas);
- Mortes tratáveis: representam 1,4 milhão de vítimas (14,4%).
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Tumores mais letais
Juntos, os cânceres de pulmão, fígado, estômago, colorretal e de colo do útero respondem por 59,1% de todas as mortes que poderiam ser contornadas no mundo. O câncer de pulmão lidera de forma absoluta como o tumor mais prevenível, com 1,1 milhão de óbitos que não precisariam ocorrer, atrelados fortemente ao tabagismo. Por outro lado, o câncer de mama feminino é a doença que mais gera mortes que poderiam ser curadas pelas vias médicas (200 mil óbitos).
A pesquisa também evidenciou um abismo de desigualdade. Em nações mais pobres, classificadas com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo ou médio, há uma proporção maior de mortes atreladas a cânceres de colo do útero e de mama que poderiam ser barradas. Já em países ricos (IDH alto e muito alto), o principal responsável pelas mortes evitáveis continua sendo o câncer de pulmão.
A conclusão do estudo é clara: os dados indicam que quase metade da mortalidade global atrelada ao câncer não depende de novas curas milagrosas, mas sim de garantir que a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento eficaz cheguem a todos os cantos do planeta, reduzindo as extremas disparidades globais.
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Sobre a pesquisa
Para construir esse retrato global, a metodologia da pesquisa baseou-se no cruzamento de gigantescas bases de dados de saúde. A equipe utilizou o sistema GLOBOCAN para mapear a incidência de 35 tipos de câncer distribuídos em 185 países, restringindo a análise às mortes ocorridas no período de até 5 anos após o diagnóstico em 2022.
A partir daí, os pesquisadores fizeram três grandes cálculos:
- Para medir as mortes preveníveis: os cientistas calcularam quantas vidas seriam salvas caso fossem eliminados totalmente cinco grandes fatores de risco modificáveis da sociedade: o tabagismo, o consumo de álcool, o excesso de peso corporal, as infecções e a radiação ultravioleta;
- Para medir as mortes tratáveis: a equipe utilizou um indicador chamado "sobrevida líquida em 5 anos", que calcula a probabilidade matemática de um paciente sobreviver especificamente ao câncer;
- Para descobrir quantas mortes ocorreram por falhas no sistema de saúde, os pesquisadores estabeleceram um "padrão-ouro": eles identificaram a melhor taxa de sobrevivência do mundo para cada tipo de câncer e idade. Em seguida, mediram a diferença entre a sobrevivência real de um país e esse padrão de excelência internacional, revelando o número exato de mortes que ocorreram simplesmente por falta de acesso a rastreio precoce e tratamentos curativos.
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