Área da saúde será a mais beneficiada pela IA, diz especialista
Durante o evento Estadão Summit Saúde 2026, profissionais da saúde e da tecnologia defendem que IA deve aumentar acessibilidade e diminuir burocracia
Reprodução/Youtube/@estadao
A dificuldade da área da saúde em adotar a Inteligência Artificial (IA) foi discutida no evento Estadão Summit Saúde 2026, onde especialistas apontaram que, apesar dos benefícios potenciais, a cautela dos profissionais e a gravidade de erros dificultam a implementação da tecnologia.
Atualmente, apenas 18% dos estabelecimentos de saúde utilizam IA, com a maioria empregando modelos de linguagem, e os especialistas acreditam que a tecnologia pode reduzir a burocracia e melhorar o atendimento ao paciente.
Para avançar na integração da IA, é necessário coletar dados de saúde de forma rigorosa e ética, aproveitando a Lei Geral de Proteção de Dados, o Sistema Único de Saúde e a Rede Nacional de Dados na Saúde como bases para a transformação do setor.
São Paulo - Enquanto a inteligência artificial já operou grandes mudanças em diversos setores, a área da saúde ainda é resistente. Seja por falta de dados confiáveis, pela gravidade de um erro ou por cautela dos profissionais, a medicina ainda enfrenta barreiras à revolução da IA.
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O tema de “IA na saúde: como equilibrar potenciais benefícios e impactos” foi discutido durante o evento Estadão Summit Saúde 2026, realizado nesta terça-feira, 27. A mesa foi composta por Alexandre Chiavegatto, professor de Inteligência Artificial em Saúde na Universidade de São Paulo (USP); Gustavo Meirelles, vice-presidente médico e de Relações Institucionais do empresa de educação médica “Afya”; e Rodrigo Brandão, pesquisador do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).
Segundo dados da pesquisa TIC Saúde, realizada pelo Cetic.br, 18% dos estabelecimentos de saúde utilizam algum tipo de IA; especialmente modelos de linguagem como Gemini ou ChatGPT, o que mostra que ainda existe muito espaço para crescer, segundo Brandão.
Para Chiavegatto, "a área da saúde será a mais beneficiada de todas" pela ferramenta, mas os riscos do setor tornam este processo mais lento.
Como a área da saúde tem muitas consequências e não admite erros, a IA demora para impactar.
Alexandre Chiavegatto, professor da USP
O novo copiloto das consultas
Em comum, os três especialistas esperam um resultado da tecnologia: diminuir a burocracia. Segundo Meirelles, mais de um terço do tempo da consulta é gasto com o médico preenchendo um prontuário.
Para ele, perder este contato humano olhando para uma tela torna o atendimento frio. Uma IA capaz de ouvir a consulta, preencher o prontuário eletrônico e até mesmo auxiliar no diagnóstico é uma possibilidade cada vez mais próxima.
Nosso maior risco é assumir mais a posição da tecnologia do que a do humano. Devemos delegar esses processos robóticos à máquina.
Gustavo Meirelles, vice-presidente da Afya
A ferramenta também serviria para empoderar a decisão do paciente. Lembrando do conceito de "decisão compartilhada", no qual o paciente aprende sobre sua saúde e toma a decisão junto ao médico, Meirelles imagina um futuro "sem separação com médico de um lado e paciente do outro", no qual ambos se sentarão juntos à seus agentes de IA e escolherão o melhor rumo.
Um sistema com todos os dados de saúde
Para Chiavegatto, o papel mais importante da Inteligência Artificial é auxiliar profissionais de regiões afastadas, nas quais não se tem um especialista para cada possível doença.
A solução, no entanto, esbarra na falta de dados dos pacientes. Em um país com regiões tão diversas, não é possível treinar modelos de IA que auxiliem no tratamento de toda população com base em informações apenas de centros urbanos.
Brandão explica que essa coleta de dados também deve ser feita de maneira rigorosa; deixando ao máximo possível explícito para o paciente quais informações dele estão sendo usadas.
Para o pesquisador, o Brasil já possui três elementos fundamentais para a obtenção ética dos dados e a criação de uma base única entre as instituições:
- A Lei Geral de Proteção de dados (LGPD), que estabelece as regras e boas práticas no trato de informações sensíveis;
- O Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece o mesmo tratamento para qualquer cidadão;
- A Rede Nacional de Dados na Saúde (RNDS), que tem o padrão técnico que a IA precisa para poder aprender e aplicar seu conhecimento.
A articulação da área da saúde, se aproveitando dessas vantagens, seria o passo necessário para transformar o setor. "Sempre fomos o país que tinha matéria prima mas não a tecnologia. Agora com IA na saúde é o oposto, temos as ferramentas mas não temos os dados”, diz Chiavegatto.
*Estagiário sob supervisão de Marcia Furlan
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