'Internet deve ser direito, não obrigação', diz coordenador da TIC Domicílios
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São Paulo - No Dia Mundial da Internet, a ampliação do acesso à tecnologia ainda não significa uma universalização e ela não deve ser vista como uma imposição. Para o coordenador da pesquisa TIC Domicílios, Fábio Storino, vivemos um momento crítico na imposição da tecnologia para a população madura. Ele defende um argumento central: "a internet não pode ser uma obrigação", mas sim "tem que ser vista como um direito garantido".
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Segundo o especialista, se uma pessoa não está conectada e, por isso, perde o acesso a direitos e a serviços públicos fundamentais, enfrentamos um grave problema de exclusão. Ele reforça que, nesse contexto, a população 50+ ainda está em desvantagem.
Até 2019, a conectividade de pessoas com 60 anos ou mais era bastante restrita, com apenas um terço (cerca de 33%) desse grupo acessando a rede. Ao contrário das gerações mais novas, descritas como "nativos digitais", o público idoso passou a maior parte da vida sem conviver com a internet, o que historicamente resultou em uma barreira de distanciamento e falta de interesse natural por essas tecnologias.
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Ele explica que a pandemia da Covid-19 impulsionou a entrada dos idosos no ambiente digital. Dessa forma, a proporção de conectados com 60 anos ou mais saltou deste um terço, em 2019, para quase 50% logo no ano seguinte, já que as restrições forçaram a busca por contato virtual.
Acesso à internet por idosos estagnou
Hoje, os dados da pesquisa TIC Domicílios 2025 revelam que 54% das pessoas nessa faixa etária são usuárias da rede no Brasil. A pesquisa anual mapeia o acesso, uso e hábitos da população brasileira em relação às tecnologias de informação e comunicação (TICs), como internet, computadores e celulares.
Contudo, essa curva de crescimento apresentada atingiu um platô e se estabilizou nos últimos anos. “Isso significa que um contingente expressivo, de 16 milhões de indivíduos com 60 anos ou mais, ainda permanece desconectado por escolha própria ou, mais frequentemente, pela dificuldade no uso”, explica Storino.
Acessibilidade e a "digitalização forçada"
Hoje, grande parte dos serviços públicos é acessada pela internet, via aplicativos e sites. Esse contexto apresenta uma crescente “imposição tecnológica”, que, segundo Storino, pode afetar diretamente o exercício da cidadania.
A pesquisa aponta que 56% dos usuários de internet brasileiros com 16 anos ou mais acessaram a plataforma Gov.br para realizar serviços públicos. Esse uso se torna um desafio prático imenso quando constatamos que 81% dos usuários de internet com 60 anos ou mais acessam a rede exclusivamente pelo telefone celular.
Para Storino, o uso de um dispositivo único com tela pequena esbarra frequentemente no descuido das plataformas com a acessibilidade física e cognitiva do envelhecimento. Ele exemplifica essa barreira com a exigência de sistemas de reconhecimento facial para idosos, como na prova de vida do INSS no Gov.br: "o tremor das mãos, que acomete alguns idosos, pode impedir a estabilização da imagem quando feita sem ajuda", relata.
É por esses gargalos que o coordenador argumenta que o Estado e as empresas não podem fechar as portas para quem está fora da rede.
"Os serviços públicos têm que estar acessíveis para as pessoas desconectadas, com postos abertos em todos os locais, não apenas centros de referência".
Emancipação contra o medo de golpes
O distanciamento do mundo digital não ocorre apenas por limitações de interface, mas é fortemente alimentado pela insegurança. Entre os idosos que estão fora da internet, 52% afirmam que o principal motivo para não acessarem é "não saber usar".
Para entender a urgência da educação digital, Storino destaca a dinâmica dos ciclos de conectividade. Usuários com acesso pleno vivem um "círculo virtuoso": o uso contínuo aprimora suas habilidades práticas, o que gera confiança e diminui consideravelmente a exposição a riscos e fraudes online.
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Em contrapartida, grande parte do público 60+ acaba presa em um "círculo vicioso". ”A falta de familiaridade inicial com a tecnologia gera um forte receio de cair em golpes financeiros, como mensagens falsas de banco ou pedidos indevidos via Pix”, explica. Dessa forma, movido pelo medo, o idoso evita navegar na rede e, consequentemente, não desenvolve as competências essenciais para se proteger.
Essa dinâmica, para Storino, os mantém ainda mais vulneráveis aos perigos virtuais e aprofunda a exclusão dos benefícios diários da internet.
Como solução para promover a autonomia, o especialista destaca a urgência de políticas de inclusão focadas na figura de "tutores digitais", ação já estudada na Inglaterra, na qual o idoso é acompanhado por um tutor que o ensina os passos a usar, configurar e criar com a internet.
De acordo com ele, a abordagem atual é falha, pois dar o acesso ao aparelho conectado à internet não inclui o idoso no processo de aprendizagem do uso. “Educação digital hoje faz parte do currículo escolar, porém o idoso já não faz mais parte desse contexto”, adiciona.
Para o pesquisador, o papel desse tutor é fundamental para sentar ao lado do idoso, ensinando-o a configurar recursos essenciais dos aparelhos – como o tamanho e contraste da fonte, recursos de acessibilidade, além de ferramentas criativas – e promovendo sua emancipação de forma segura e paciente.
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