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São Paulo, 25/11/2025 - Um levantamento lançado hoje pelo Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (CEDRA), baseado em dados da PNAD Contínua, mostra que, embora o Brasil tenha registrado avanços consistentes em diversos indicadores de escolarização, a desigualdade racial segue fortemente presente no acesso à educação.
De modo geral, o analfabetismo recuou em todos os grupos raciais e faixas etárias entre 2012 e 2023, mas a redução não foi suficiente para eliminar desigualdades estruturais, destaca o levantamento, ao qual o VIVA teve acesso antecipado.
Entre idosos negros com 60 anos ou mais, a taxa passou de 36% para 22,1%. Já entre brancos da mesma idade, a taxa caiu de 15,4% para 8,7%, e segue 2,5 vezes menor do que entre negros.
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Entre jovens, a tendência é semelhante: negros de 15 a 29 anos tinham taxa de 2,4% em 2012, recuando para 0,9% em 2023. Entre brancos, a queda foi de 1,1% para 0,6%. O estudo também revela que, mesmo com recuos expressivos, jovens negros continuam apresentando índices equivalentes aos de brancos de uma década atrás, assim como no grupo de 30 a 39 anos, reforçando o ritmo desigual dos avanços educacionais.
Segundo o CEDRA, mesmo com políticas afirmativas e ampliações de programas educacionais, a distância histórica entre esses grupos permanece expressiva. Nesse sentido, o estudo aponta que o ensino superior é o maior marcador de desigualdade racial. Entre 2012 e 2023, pessoas brancas acima de 25 anos mantiveram percentual de conclusão universitária 2,4 vezes maior que o de pessoas negras.
Entre mulheres negras, a taxa passou de 7,9% para 14,9%. Já entre brancas, de 19,8% para 30,3%. Com isso, a distância entre os grupos aumentou de 11,9 para 15,4 pontos percentuais.
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O mesmo movimento ocorre entre homens: a conclusão universitária entre negros passou de 5,3% para 11,2%, enquanto entre brancos saltou para 25,9%. A desigualdade ampliou para quase 15 pontos percentuais.
Mesmo entre gerações mais jovens, como pessoas de 18 a 24 anos, a diferença permanece praticamente estável, apesar de avanços nas duas populações. Em 2023, 28,3% dos brancos dessa faixa estavam no ensino superior, ante 15,3% dos negros.
Segundo os pesquisadores, os dados evidenciam que a presença mais robusta de pessoas brancas no ensino superior continua a influenciar todo o percurso educacional e, consequentemente, os níveis totais de escolaridade no País. Na base da pirâmide educacional, mesmo entre aqueles com escolaridade muito baixa ou inexistente, as diferenças raciais seguem "cristalizadas", aponta o estudo.
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Para o pesquisador Marcelo Tragtenberg, docente da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante do conselho deliberativo do CEDRA, os números acendem um alerta sobre o futuro da escolarização no Brasil. "Ainda temos uma quantidade grande de pessoas entre 15 e 19 anos que não têm sequer o ensino fundamental completo", afirma.
De acordo com a pesquisa, a taxa de analfabetismo entre pessoas negras de 15 a 29 anos é de 0,9%, enquanto entre brancos é de 0,6%. Apesar de representar o melhor cenário entre as faixas etárias, o especialista considera o índice alarmante.
"É uma reprodução da desigualdade social entre os futuros idosos, e com ampla desigualdade racial. Estamos longe de ser um povo com grande nível de escolarização e isso é preocupante do ponto de vista do trabalho e da formação."
Tragtenberg também alerta para outro desafio crescente: o letramento digital. Durante a apresentação dos resultados, ele demonstrou preocupação com a exclusão tecnológica que ameaça pessoas analfabetas, problema que tende a se agravar com o envelhecimento dessa população. "Sem ações eficientes, vamos seguir gerando mais exclusão", pontuou.
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Na mesma linha, a proporção de pessoas negras acima de 15 anos sem instrução ou com fundamental incompleto caiu, passando de 46,6% em 2012 para 33,2% em 2023. No entanto, o índice atual dos negros corresponde quase exatamente ao registrado entre brancos em 2012, revelando um atraso estrutural.
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A mesma dinâmica aparece entre pessoas de 20 a 29 anos. Para negros, a proporção com baixa escolaridade caiu de 25,8% para 12,4%, mas ainda é o dobro do índice observado entre brancos (6,1%). A disparidade se repete tanto entre homens quanto entre mulheres.
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