Cão Orelha: o que leva adolescentes a terem comportamentos violentos?
Reprodução/Redes Sociais | Envato
31/01/2026 | 12h00 ● Atualizado | 12h26
São Paulo, 31/01/2026 – O que a minissérie “Adolescência”, da Netflix, e as agressões contra o cão Orelha têm em comum? Ambos evidenciam jovens como autores de condutas violentas. No caso da minissérie, as redes sociais foram o espaço de discursos de ódio e misoginia, consumidos por um adolescente de 13 anos, vítima de bullying, que foi acusado posteriormente de assassinar uma colega de escola.
Agora, o debate sobre o papel da internet no fomento de ações e condutas violentas contra grupos vulneráveis foi reacendido pelo caso do Orelha, cão comunitário torturado e assassinado na Praia Brava, em Florianópolis, em que os acusados são quatro adolescentes.
Leia também: Manifestações pela morte do cão Orelha ocorrem neste fim de semana
Apesar de a Polícia Civil de Santa Catarina não ter confirmado a ligação dos suspeitos com grupos virtuais de incentivo à violência, entidades e defensores dos direitos dos animais e da criança e do adolescente apontam que o ambiente on-line é, recorrentemente, um espaço de exposição a conteúdos violentos, incluindo agressões contra os animais.
Os alvos costumam ser grupos vulneráveis, como animais em situação de rua, mas se estendem para meninas, coagidas a postar fotos íntimas ou praticar automutilações, entre outros “desafios” incitados no ambiente virtual.
Não é novidade no País a ocorrência de casos de tortura animal protagonizados por menores de idade, desafiados em comunidades virtuais. Em abril do ano passado, um adolescente de 15 anos do interior de São Paulo foi apreendido por transmitir agressões e maus-tratos a gatos no Discord, aplicativo de conversa bastante utilizado pelo público adolescente.
Outro caso mais recente, no começo deste ano, foi denunciado ao VIVA por uma rede de protetores de animais. Esse grupo realizava sacrifícios de animais e divulgava as imagens no Instagram, TikTok, Telegram e em um grupo privado no Discord.
A denúncia foi encaminhada para delegacias do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Segundo a rede, uma das torturas teria sido realizada por uma menina de 14 anos, enquanto o líder do grupo é apontado como um homem de 19 anos.
Até o fechamento desta reportagem, nenhuma das plataformas digitais se pronunciou.
O algoritmo da violência
Segundo o psiquiatra da infância e adolescência e professor da Universidade de São Paulo (USP) Guilherme Polanczyk, a internet amplifica a busca por status na adolescência, transformando a transgressão em espetáculo.
"A internet é um palco muito maior para o status. Se você não está fazendo algo na internet, a exibição é para os dois ou três que estão ali assistindo. Agora, se de alguma forma isso está conectado com algo maior, acaba se tornando um ato que, na mente dessas pessoas, dá status", explica.
Leia também: Especialista fala sobre punições a adolescentes que mataram o cão Orelha
O médico alerta que a exposição contínua a conteúdos violentos pode dessensibilizar indivíduos em desenvolvimento. "Esses vídeos trazem à tona algo que é do proibido e, de fato, normaliza para alguém que está desenvolvendo seu senso moral."
Polanczyk ainda pontua que, embora o grupo exerça influência, a crueldade extrema contra animais acende um alerta clínico grave. "O ato em si, que envolve a dor de um animal vulnerável, frágil, é um ato psicopático", complementa.
Maria Mello, líder do eixo digital do Instituto Alana, grupo de proteção infantil, explica que existe uma indução algorítmica que expõe meninos e meninas a conteúdos distintos.
Pesquisas mostram e comprovam que é um efeito dos algoritmos, que costumam induzir meninos a conteúdo redpill, que é toda essa questão de masculinidade tóxica, e enviar para as meninas pressão estética, a adultização, conteúdos de depressão. Infelizmente esses conteúdos engajam", detalha.
O psiquiatra explica que a exposição à violência se manifesta de formas distintas em meninos e meninas, apesar de isso não excluir a possibilidade de meninas apresentarem comportamentos violentos. "As mulheres têm, com mais frequência, comportamentos que são mais internalizantes, como ansiedade e depressão. Enquanto os meninos têm uma coisa de se arriscar, de mais agressividade aberta, mas isso não é regra."
Violência contra animais é o começo
A médica veterinária e diretora do Instituto Ampara Animal, Rosangela Gerbara, alerta que atos de sadismo contra animais devem ser encarados com extrema seriedade pelas autoridades e famílias.
Esses casos de crueldade extrema têm que ser tratados com muito cuidado, isso é uma sentinela, é uma bandeira vermelha. Existem vários estudos que comprovam que pessoas que são violentas com animais têm a tendência a ser violentas com pessoas também."
A chamada "Teoria do Elo", defendida por Gerbara, é bastante utilizada no meio da proteção animal para explicar que quem agride um animal tem grande potencial para agredir humanos, sobretudo os mais vulneráveis.
A advogada e diretora do Fórum Animal, Ana Paula de Vasconcelos, não teve acesso ainda ao inquérito policial, mas confirmou que a entidade buscará essa responsabilização no caso do cão Orelha.
"A ação será proposta em desfavor dos genitores, que são os responsáveis legais por esses adolescentes, e a ação busca uma indenização para a coletividade. É uma forma de nós buscarmos punição, uma vez que, por se tratarem de menores, na esfera criminal nós teremos medidas muito brandas."
Leia também: França aprova proibição das redes sociais para menores de 15 anos; entenda
Qual a responsabilidade dos pais?
A negligência no monitoramento da vida digital pode ter consequências jurídicas severas. A advogada Tatiana Naumann esclarece que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) impõe o dever de vigilância. "Não se exige controle absoluto da vida digital, mas omissão relevante, especialmente diante de sinais de risco, violência, incentivo a crimes ou crueldade, pode ser interpretada como negligência", afirma.
Enquanto a responsabilidade civil e financeira dos pais é objetiva, a responsabilização na esfera criminal possui nuances específicas. Gabriel Huberman Tyles, advogado criminalista e mestre em Direito Processual Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), esclarece que o instinto ou a ação dos pais de proteger os filhos nem sempre configura crime.
Segundo ele, casos como o do cão Orelha não se enquadram automaticamente como obstrução de Justiça, pois esse crime é "específico para organizações criminosas". Contudo, o advogado alerta que essa proteção acaba quando há coação de testemunhas. "Aquele que constrange testemunha com violência ou grave ameaça pode ser responsabilizado criminalmente."
A coordenadora jurídica do Instituto Alana, Ana Cláudia Cífali, defende que a proibição do uso da tecnologia não é a solução, mas sim o diálogo e a supervisão ativa.
O principal é o diálogo dentro de casa, trazer isso para a mesa do almoço, tornar o diálogo sobre a vida digital frequente, cotidiano, porque só assim se evita muito o aprofundamento da violência", conclui.
O que é o Discord?
O Discord é um aplicativo de conversa desenvolvido especialmente para usuários que jogam partidas on-line. A plataforma possui recursos distintos do WhatsApp, como a criação de servidores, com canais de voz e texto, e a transmissão simultânea da tela do computador ou celular.
A idade mínima para criar uma conta é 13 anos, mas alguns servidores podem ter restrições permitidas somente para usuários 18+. Nos servidores, também é possível adicionar cargos hierárquicos, como moderadores e administradores.
Em julho do ano passado, o VIVA denunciou a existência de grupos de coação de crianças e adolescentes no aplicativo, que incentivam desafios perigosos, como automutilação e exposição de fotos íntimas, as chamadas “panelinhas”.
Denuncie
Casos de maus-tratos a animais domésticos no Brasil podem ser denunciados anonimamente pelo Disque 181, da Polícia Civil, ou pelo 190, da Polícia Militar. Em situações envolvendo animais silvestres, é possível contatar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pelo 0800 61 8080 ou a Polícia Militar Ambiental.
Centro de Valorização da Vida
O Centro de Valorização da Vida fornece apoio emocional e prevenção ao suicídio para pessoas em todo o território nacional, oferecendo ajuda gratuita e sigilosa por telefone 188, chat e e-mail. O atendimento é 24 horas por dia, sem custo de ligação.
Leia também: Aferição de idade, prevista no ECA Digital, deve reforçar controle parental
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
