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Minirreforma eleitoral: uma ameaça à transparência das eleições?

Antonio Augusto/TSE

Após aprovação na Câmara, projeto de lei da minirreforma segue em discussão no Senado - Antonio Augusto/TSE
Após aprovação na Câmara, projeto de lei da minirreforma segue em discussão no Senado
Por Marcel Naves

06/07/2026 | 12h39

São Paulo -  A 90 dias das eleições gerais de outubro, está em discussão no Congresso um projeto de lei que pode causar reflexos diretos nas urnas. Aprovado na Câmara no incío de maio, PL 4.822 da minirreforma eleitoral , de autoria do deputado Pedro Lucas (União)tem sido criticado  por organizações da sociedade civil e especialistas, além de não ser uma unânimidade no Congresso.

Para o  relator,  deputado Rodrigo Gambale (Pode) o projeto faz  alterações estruturais  na Lei dos Partidos Políticos, que são necessárias para otimizar a gestão partidária, garantir a segurança jurídica das agremiações e harmonizar as normas de fiscalização com os princípios constitucionais da proporcionalidade e da razoabilidade.

A proposta enfrenta resistências

O projeto enfrenta resistência. Em seu discurso no plenário, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) , que atualmente preside a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), chegou a classificar o tema como um "escárnio" .

Isso é um escárnio! Na prática, partidos políticos poderão recorrer às novas regras para tentar reduzir penalidades financeiras impostas anteriormente. É a anistia, agora no plano partidário" 

Os principais pontos da minirreforma:

  • Propaganda automatizada: Disparos (WhatsApp/SMS) estão liberados para  contatos pré-cadastrados.
  • Blindagem de fundos: Fica proibida a penhora ou bloqueio do Fundo Partidário e Eleitoral por qualquer motivo .
  • Isolamento de dívidas: Prejuízos e punições de diretórios locais não sobem para o diretório nacional do partido.
  • Corte e parcelamento de multas: O teto da multa por contas rejeitadas cai para R$ 30 mil (antes era 20% do valor total desaprovado) e o prazo para pagar sobe para até 180 meses.
  • Afrouxamento na prestação de contas: O prazo de julgamento cai de 5 para 3 anos.
  • Proteção nas eleições: É proibido suspender repasses ou aplicar punições financeiras aos partidos no semestre das eleições. 
  • Uso flexível do dinheiro: O Fundo Partidário pode ser usado para pagar juros e multas eleitorais  de partidos e candidatos. É permitida a contratação de dirigentes viarrecibo de pagamento autonomo (RPA). 

Uma ameça ao pacto do TSE 

No último dia 17,  dirigentes de 26 legendas firmaram com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o "Termo de Compromisso pela Integridade das Eleições 2026". O ato foi apresentado publicamente como um avanço para combater a desinformação e proteger a candidatura de mulheres e negros.

Na ocasião, a organização não governamental Transparência Brasil identificou e conseguiu barrar uma brecha nas normas de prestação de contas do TSE. O texto original permitia que os partidos utilizassem gastos com honorários advocatícios e serviços de contabilidade para preencher a cota obrigatória de recursos destinados às minorias. Isto, segundo a ONG, inflaria os relatórios contábeis sem repassar o  dinheiro real para as candidaturas de base.

Após a organização realizar uma sustentação oral em audiência pública, o tribunal recuou e vetou a manobra. Para a diretora executiva da Transparência Brasil, Juliana Saka o resultado foi positivo, mas pode ter sido em vão, caso a  minirreforma seja aprovada. 

A minirreforma eleitoral avança na contramão de tudo o que a sociedade espera. Ao reduzir o tempo para que a Justiça Eleitoral fiscalize as contas dos partidos, o Congresso abre uma brecha perigosa para que irregularidades graves simplesmente prescrevam, blindando o mau uso do dinheiro público sem que haja qualquer punição."

A necessidade de mudanças 

Coordenador de mestrado e doutor em Gestão e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas  (FGV), Marco Antônio Teixeira reconhece que as mudança são necessárias, mas diz que a minirreforma eleitoral como está representa um retrocesso.

Para o analista da FGV, aprovar o PL 4.822 iria esvaziar as diretrizes de igualdade fiscalizadas pelo TSE. 

A classe política em geral, costuma fazer leis para facilitar quem já está na estrutura de poder. Então, se você altera a lei de prestação de contas de fundo partidário e fundo eleitoral para poder regularizar eventuais erros, pode tornar o sistema desigual."

O professor reforça que se não houver um debate público e aberto que estimule uma competição justa e a renovação dos quadros, políticos  qualquer tentativa de reforma  será inócua.

 Marco Antônio Teixeira chama a atenção que diante de um sistema que resiste se autorregular, o monitoramento por parte de organizações como a Transparência Brasil representa um  freio contra os erros que ai estão.

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