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Sem envelhecer na função, coletores de lixo cobram aposentadoria especial

Fraga Alves/Estadão Conteúdo

O desgaste físico exigido para cumprir uma diária como coletor de resíduos urbanos transformou o perfil da categoria - Fraga Alves/Estadão Conteúdo
O desgaste físico exigido para cumprir uma diária como coletor de resíduos urbanos transformou o perfil da categoria
Por Paula Bulka Durães

05/08/2026 | 12h01 ● Atualizado | 12h02

São Paulo - Eles percorrem, em média, 40 quilômetros por dia na traseira de caminhões de lixo, ora subindo a pé ladeiras nas comunidades, ora buscando atalhos no tráfego da cidade de São Paulo (SP). O desgaste físico exigido para cumprir uma diária como coletor de resíduos urbanos transformou o perfil da categoria na metrópole, que hoje recruta homens cada vez mais jovens para uma carreira exposta a riscos biológicos, ortopédicos e a acidentes de trânsito.

Essa realidade ganhou um novo rosto há uma semana, com a morte do coletor Diego Rafael da Silva, de 19 anos, que tinha apenas três meses de serviço. Na noite de domingo, 26 de julho, o jovem foi atropelado na rua do Bosque, na Barra Funda, região oeste da capital paulista, sem tempo de reação.

O rapaz seguia as diretrizes do treinamento de segurança, posicionado ao lado do caminhão, segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo (Siemaco) e a empresa Loga (Logística Ambiental de São Paulo), onde trabalhava.

As imagens de câmera de segurança confirmam, a princípio, a versão das entidades. O impacto foi tão abrupto que o jovem desapareceu da filmagem em uma fração de segundo. O causador do acidente é o empresário Guofang Huang, de 53 anos, que dirigia uma Land Rover. O teste do bafômetro registrou índice de 0,73 mg/L de álcool, mais do que o dobro do limite para ser considerado crime de trânsito.

Para o presidente do Siemaco, André Santos Filho, o episódio expõe o perigo diário a que os coletores estão expostos no trânsito da metrópole. "Não houve irregularidade alguma [por parte do trabalhador]. A irregularidade foi a imprudência do motorista", afirma o dirigente.

Segundo Filho, a morte do jovem gerou forte comoção, a ponto de interromper as atividades na garagem onde Diego atuava, na zona norte de São Paulo.

Os colegas que estão diariamente com ele ali se sentiram em solidariedade, mas também sem condições psicológicas, respeitando o luto, abalados emocionalmente."

Riscos da profissão 

A tragédia, no entanto, é o extremo de uma cadeia de vulnerabilidades. Se na capital paulista a organização sindical relembra apenas dois casos de morte em um período de 25 anos, no cenário nacional a realidade é letal. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 201 profissionais da limpeza urbana perderam a vida em serviço entre 2018 e 2025 no Brasil.

À rotina extrema soma-se um risco biológico crescente causado pelo descarte incorreto de seringas, vidro, canetas emagrecedoras e por ataques de animais.

"O pessoal descarta inadequadamente, e na hora que eles vão fazer o recolhimento, vai pegar o saco e fura. As pessoas descartam de qualquer jeito", alerta o assessor de imprensa do Siemaco, Fábio Bussian.

Os números oficiais apresentados pelo MTE confirmam as ameaças às quais esses trabalhadores estão submetidos. Entre 2018 e 2025, o Brasil registrou 81.448 acidentes de trabalho nas atividades de coleta e varrição. Durante esse período, houve um crescimento de 41,6% no total anual, saltando de 9.579 ocorrências em 2018 para 13.565 em 2025.

Para tentar frear essa escalada, o setor passou a contar, a partir de janeiro de 2024, com a Norma Regulamentadora nº 38 (NR-38), que proíbe o transporte de funcionários nas partes externas dos caminhões em deslocamentos longos e exige plataformas e treinamentos rigorosos. Ainda que o volume absoluto de acidentes continue subindo, a implementação da NR-38 parece refletir na gravidade das ocorrências e na preservação de vidas.

Ainda de acordo com os dados do ministério, 2025 registrou a menor taxa de mortalidade e a menor Taxa de Letalidade de Acidentes (1,38%) de toda a série histórica. Para efeito de comparação, o pico de letalidade ocorreu em 2022, com 31 mortes (3,47%).

O órgão ressalta que, embora não se possa cravar ainda uma causalidade estatística definitiva por serem apenas dois anos de vigência da norma, a queda brusca na proporção de mortes coincide exatamente com a sua aplicação.

Saúde mental é ponto de atenção

Por trás das longas jornadas e das ameaças físicas, a saúde mental segue em segundo plano. De acordo com o Siemaco, as 13 empresas terceirizadas da cidade – duas de coleta e 11 de varrição – temem punições contratuais da prefeitura. Para evitar o prejuízo, fiscais impõem metas rigorosas e prazos estreitos aos funcionários.

O resultado, segundo Filho, é o esgotamento psicológico da categoria. "A depressão está assolando os trabalhadores, é o estresse", relata.

Eles sofrem uma pressão muito grande porque a empresa quer prestar o serviço, porque se a empresa deixar de prestar o serviço, eles são multados, são glosados pela prefeitura."

Essa urgência no atendimento levou o sindicato a montar uma clínica com 12 psicólogos próprios, limitando a ida desses profissionais apenas à sede, também localizada na região central. Atualmente, uma das reivindicações da classe é obrigar as prestadoras de serviço a fornecer e pagar por uma assistência psicológica contínua.

Luta por direitos trabalhistas

Enquanto em São Paulo a categoria conta com 62% de adesão ao sindicato e remunerações que podem chegar a R$ 4.000 mensais com benefícios e direito à aposentadoria especial – agora, após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), sem idade mínima –, grande parte dos profissionais do País sobrevive com pelo menos a metade desse valor.

A chance de unificar os direitos em nível nacional esbarra na morosidade de Brasília. O Projeto de Lei 4.146/2020 da Câmara dos Deputados aguarda atualmente apreciação no Senado Federal; o texto busca instituir o piso de dois salários mínimos e reconhecer a aposentadoria especial para a classe.

A questão do adicional de insalubridade, prevista no projeto federal, segue em discussão em São Paulo. Hoje, enquanto os coletores ganham 40% de adicional, os varredores recebem apenas 20%.

"Sobre insalubridade, a gente está brigando para que seja realmente equiparada de 40% para todos os trabalhadores operacionais", defende o presidente do sindicato local.

Trabalhadores como Diego prestam um serviço que impede o colapso sanitário. Apesar de essenciais, os coletores sofrem as consequências de um apagamento estrutural. "Nossa categoria é, como falam, invisível. Mas imagine a cidade de São Paulo ficar sem ter uma coleta", questiona o dirigente sindical.

O outro lado

O VIVA procurou a Prefeitura de São Paulo com uma série de questionamentos sobre as condições laborais da categoria e quais protocolos de trânsito serão adotados para evitar novos acidentes como o que vitimou Diego. A gestão municipal retornou uma nota oficial.

Segundo a nota, a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Município de São Paulo (SP Regula) afirma que a assistência psicológica preventiva e a gestão de afastamentos "integram as relações de trabalho entre as concessionárias e seus empregados". A agência destaca que "cabe às empresas a responsabilidade pela gestão de seus profissionais, bem como pelo cumprimento das normas de segurança e saúde no trabalho".

Sobre a prevenção de riscos, a Prefeitura informa que realiza, em parceria com as empresas, "iniciativas permanentes de orientação e campanhas educativas". O texto cita campanhas sobre o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), orientações voltadas a motoristas e pedestres para alertar sobre as "áreas de baixa visibilidade dos caminhões de coleta" e comunicados direcionados a tutores de animais de estimação para evitar incidentes durante o serviço.

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