Solução contra bets pede regulação e mobilização social, aponta especialista
Fabiana Holtz/Viva
São Paulo - O rápido avanço das plataformas de apostas (as bets) no orçamento das famílias brasileiras tem demandado medidas do governo, e movimentado especialistas da área de educação financeira na busca por soluções.
O sistema criado por essas plataformas de apostas, afirma Fernando Schmitt, CEO da Me Poupe, maior ecossistema a de educação financeira do Brasil, é complexo e não pode ser combatido com soluções simples.
Schimitt falou sobre o assunto durante evento da FGV, para o lançamento do FGV Money Lab, nesta quarta-feira na capital paulista.
Ele participou do painel "Expansão das bets e a chegada do Prediction Market", ao lado de Ana Leoni, CEO da Planejar e Amanda Dias, fundadora da Grana Preta, programa de emancipação e educação financeira para pessoas de baixa renda.
O vício em apostas, importante reforçar, já é reconhecido pelo Ministério da Saúde como um desafio de saúde pública.
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Na avaliação de Schmitt, educação financeira precisa virar algo mandatório no Brasil. "E não estou falando de opinião, estou falando de necessidade. Aplicada da forma correta, o impacto da educação financeira é real e mensurável", afirma.
Outro ponto levantado por ele é que muita gente não revela que a saúde mental está sendo afetada por conta da perda financeira com apostas.
Estudo recente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil revela que a expansão das apostas de quota fixa (bets) já alcançou 39,5 milhões de brasileiros nos últimos 12 meses. Desse universo, 7,5 milhões dos apostadores (19%) reconhecem ter comprometido parte da renda com essa modalidade de jogo.
Ana Leoni, CEO da Associação de Planejamento Financeiro (Planejar), responsável pela certificação de aproximadamente 12 mil planejadores financeiros certificados no país, observa que dentro da realidade hoje, o que preocupa é a motivação que leva ao uso das bets. "Temos a questão do acesso, que precisa ser disciplinado, e por outro lado precisamos entender a motivação que leva a população a recorrer as bets."
Schmitt aponta para duas ações que são importantes e inevitáveis para se obter resultados concretos nesse combate as casas de apostas. Primeiramente. é preciso controlar o ambiente de bets.
E não estou falando apenas de regulação. A sociedade também tem de fazer a sua parte. Vai chegar o dia em que artistas e atletas vão ter vergonha de fazer propaganda de bet, mas é preciso haver uma pressão social para que isso aconteça."
A outra ação importante é se unir para expandir a educação financeira, afirma Leoni.
Investir e planejar
No âmbito da educação financeira, Leoni reconhece que o conceito sobre o que é 'investimento' foi muito popularizado nos últimos 20 anos, mas avalia que cometemos o erro de não popularizar também o planejamento.
Isso teria ajudado muito. Só o conhecimento não basta, você também precisa de instrumentos que ajudem a pessoa a sair dessa situação", acrescenta.
A especialista, que também é cofundadora da Bem Educação, afirma que é preciso tornar o tema 'planejamento' mais popular. "Estou falando de um planejamento que vai muito além dos investimentos. Existem soluções voltadas para cada situação".
Ao defender a importância da introdução do planejamento na rotina do brasileiro, Ana Leoni afirma que o preço de não dar espaço para o que é importante, no longo prazo, é permanecer no modo 'emergência'.
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Vivendo no limite
Amanda Dias, fundadora da Grana Preta, programa de educação financeira que já impactou mais de 10 mil pessoas, defende que em primeiro lugar é preciso ter em mente o quanto o brasileiro vive no limite.
"Segundo dados do Dieese, um salário mínimo ideal para uma família de quatro pessoas viver bem no Brasil seria próximo de R$ 6 mil, enquanto a maior parte das famílias vive atualmente com até R$ 3 mil".
De acordo com Dias, temos uma parcela considerável da população que vive em constante contexto de escassez, fato que atua de forma crucial para o avanço das casas de apostas no País.
"Estudos mostram o quanto essa realidade molda a nossa capacidade de lidar com o dinheiro. Esse ambiente estimula a impulsividade e é perfeito para a penetração das bets."
Dias observa ,ainda, que dentro dessas plataformas tudo é muito bem arquitetado para manter a pessoa lá dentro. "Parece um jogo inofensivo". Na avaliação de Dias temos um mercado gigante e altamente vulnerável a atuação das bets.
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No caminho que trilhou até a criação do Grana Preta, Amanda Dias reconhece que sua posição hoje é resultado de um projeto intergeracional e uma vitória em um país onde essa desigualdade social é mais permanente.
Vi dentro de casa a importância de ter um bom planejamento financeiro. Vi meus pais fazendo conta ali no caderninho, fazendo planos, pegando empréstimo e os resultados acontecendo, conta."
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