'Avós de pet' crescem nas famílias e fortalecem vínculos entre gerações
Arquivo pessoal
São Paulo - Cada vez mais comuns nas redes sociais e na rotina de muitas famílias, os chamados "avós de pet" representam uma relação de afeto que vai além dos tutores dos animais. A tendência tem chamado atenção ao mostrar avós que participam dos cuidados, criam vínculos com cães e gatos e assumem um papel ativo na vida dos bichos, refletindo mudanças na forma como as famílias constroem seus laços afetivos.
Adriana Moreira, pet sitter de Jundiaí, em São Paulo, repercutiu nas redes sociais com um vídeo que mostra sua mãe, Manuela Moreira, de 95 anos, cercada pelos cães da família. As imagens emocionaram milhares de pessoas e abriram espaço para relatos de internautas que também enxergam seus pais e avós como "avós de pet".
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Moreira conta que não imaginava a repercussão do vídeo, mas acredita que o sucesso aconteceu porque muitas pessoas se reconheceram na cena.
Muitas foram levadas ao passado com o coração cheio de saudades das suas avós. Eu não esperava que o vídeo fosse espalhar desta forma. Mas fiquei muito feliz em poder levar uma cena de amor. Esse amor curou minha mãe da depressão."
Estudos indicam que esse comportamento acompanha transformações sociais, como o aumento do número de pessoas que optam por adiar ou não ter filhos e investem seus vínculos afetivos nos animais de estimação.
Por exemplo, uma pesquisa da Universidade de Michigan indica que ter um animal de estimação pode contribuir para um envelhecimento mais saudável. O estudo ouviu cerca de 2.000 americanos entre 50 e 80 anos.
Entre os entrevistados que têm pets, quase 90% afirmaram que os animais os ajudam a aproveitar mais a vida e a se sentir amados. Além disso, 80% disseram que os pets reduzem o estresse, quase 75% relataram que eles dão mais propósito ao dia a dia e 64% afirmaram que os animais ajudam a manter uma rotina mais ativa.
Cães adotados fazem parte da rotina da família
O amor pelos animais acompanha Adriana desde a infância. Hoje, ela trabalha há 14 anos como pet sitter e divide a rotina com cinco cães adotados, todos resgatados em diferentes situações de abandono. Ela conta que os animais fazem parte da família e a mãe participa diariamente dos cuidados.
Entre os cães estão Sofia, resgatada durante uma festa em Oliveira (MG), Dulce Maria, encontrada às margens da rodovia entre Jundiaí e Itupeva, Kadu, adotado ainda filhote, e Theodoro, socorrido após ser atropelado.
Aos 95 anos, a mãe de Adriana utiliza andador e, mesmo com limitações, acompanha de perto o comportamento dos animais.
"A função dela com os dogs é fiscalizar o que estão fazendo. Se a Sofia está doente, ela fica observando tudo e depois me conta. À noite, ela dorme com um dos cães na cama. Ela fica radiante de felicidade. Hoje ela é outra pessoa por causa desses animais", conta Moreira.
Crescimento dos "avós de pet"
Para a psicóloga, psicanalista e escritora Danielle Vieira, autora do livro “Amor moderno: o nosso mundo evitativo”, o crescimento desse tipo de vínculo acompanha mudanças importantes nas configurações familiares.
"É cada vez mais comum escutarmos os termos 'pais e avós de pets'. Essa tendência revela transformações importantes nas configurações familiares. Ser pai, mãe ou avô não configura algo necessariamente biológico, mas uma posição simbólica ligada ao cuidado, ao afeto e à proteção", explica.
A especialista afirma que a convivência com os animais pode ter impacto positivo especialmente na terceira idade. "Os pets podem trazer a sensação de resgate da rotina e da capacidade de oferecer cuidado a alguém. Isso auxilia não somente a saúde mental, mas também a saúde física. O pet não substitui uma rede humana de convivência, mas pode funcionar como mediador de encontros, conversas e visitas", afirma.
Na avaliação de Danielle Vieira, os "avós de pet" representam uma transformação mais ampla sobre a maneira como a sociedade compreende família e pertencimento. Ela explica que os animais passaram a ocupar um espaço afetivo importante dentro das casas, participando das rotinas familiares sem que isso signifique substituir relações humanas.
Os 'avós de pets' parecem representar mais do que uma curiosidade afetiva. Talvez sejam um sintoma da transformação do conceito de família e do próprio modo como investimos emocionalmente nos vínculos. O desejo de amar, cuidar e transmitir não desapareceu, mas passou a buscar novas formas de estar com o outro."
Para a pet sitter Adriana Moreira, independentemente das opiniões na internet, os animais continuarão ocupando esse espaço dentro de casa.
"Os meus animais sempre foram tratados dessa forma e isso nunca vai mudar. Eles fazem parte da nossa família e cuidamos de todos com muito amor, carinho e respeito", conclui.
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