CONFIRA

Sobre a coluna

Analista comportamental e gerontóloga pela Faculdade Israelita Albert Einstein, é professora da FGV, autora de “Empatia” e coautora de “Diversa-IDADE”, com passagem por Ford, Natura e Mondelez.


Minhas redes

Os divórcios da maturidade: pessoas, valores e coisas para reavaliar

Nem todo divórcio termina um casamento. Alguns terminam hábitos, certezas, versões de nós mesmos e formas de viver que já não fazem mais sentido

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Como o tempo que temos pela frente muda o valor do que ficou para trás - Envato
Como o tempo que temos pela frente muda o valor do que ficou para trás
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O fenômeno do 'divórcio prateado', que se refere a separações após os 50 anos, está em ascensão no Brasil, com mais de 428 mil divórcios registrados em 2024, refletindo mudanças nas dinâmicas de relacionamentos na terceira idade.

A longevidade provoca reflexões sobre a permanência em diversas áreas da vida, levando indivíduos a questionarem suas escolhas profissionais, amizades e rotinas, em busca de um significado mais alinhado com suas novas realidades.

As discussões sobre maturidade incluem a necessidade de renegociar vínculos e a importância de se 'divorciar' de ideias e hábitos que não fazem mais sentido, permitindo um recomeço consciente e a valorização do tempo restante para novas experiências.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Nos últimos anos, uma expressão ganhou espaço nas conversas sobre longevidade: divórcio prateado. Ela costuma ser usada para falar de separações depois dos 50, um fenômeno que vem chamando atenção porque acontece justamente numa fase da vida que, durante muito tempo, foi associada à permanência.

O dado existe e merece ser observado. Em 2024, o Brasil registrou mais de 428 mil divórcios, segundo o IBGE, e as mudanças nos relacionamentos em idades mais avançadas vêm ganhando visibilidade dentro de uma transformação demográfica muito maior.

Mas quanto mais penso sobre longevidade, menos me interessa falar apenas sobre o divórcio formal. Porque talvez exista um outro tipo de divórcio acontecendo depois dos 50. Mais silencioso, mais íntimo e muito mais amplo. É o divórcio daquilo que um dia fez sentido, mas deixou de fazer.

O tempo pela frente muda o que ficou para trás

Uma vida mais longa muda nossa relação com a permanência. Quando chegamos aos 50 e percebemos que podemos ter mais 30, 40 anos pela frente, algumas perguntas deixam de parecer exageradas:

  • Quero continuar trabalhando desse jeito?
  • Ainda quero morar aqui?
  • Essa amizade ainda me faz bem?
  • Essa rotina me representa?
  • Preciso continuar querendo aquilo que passei metade da vida acreditando que deveria querer?
Não se trata de jogar tudo para o alto. Talvez seja justamente o contrário. Trata-se de olhar para aquilo que permanece e perguntar se continua ali por escolha ou apenas por repetição."

Porque longevidade não é simplesmente acrescentar anos ao calendário. É ter mais tempo para trabalhar e mudar de carreira, cuidar e ser cuidado, terminar relações e começar outras, aprender, desaprender, desejar, desistir, recomeçar e perceber que aquilo que combinava conosco aos 30 pode já não combinar aos 50.

A vida se alongou. Talvez algumas certezas não precisem acompanhar esse alongamento inteiro.

Há coisas das quais também precisamos nos divorciar

Talvez exista o divórcio de uma ideia antiga de sucesso. Durante anos, você corre para chegar a algum lugar, um cargo, uma empresa, uma casa, um reconhecimento, e um dia percebe que chegar não produziu exatamente a sensação que imaginava.

Talvez exista o divórcio de um papel. Ser sempre quem resolve, quem cuida, quem organiza, quem aceita, quem não decepciona, quem sustenta uma identidade que funcionou por muito tempo, mas começou a custar caro demais.

Existe o divórcio da pressa, da necessidade de provar, da comparação, de amizades que foram importantes e deixaram de ser próximas sem que ninguém tenha feito nada errado. De objetos que guardamos, lugares aos quais permanecemos ligados, hábitos que repetimos e expectativas que herdamos sem sequer perceber.

E existe também um dos divórcios mais difíceis: o da pessoa que imaginávamos que seríamos."

Porque amadurecer talvez envolva aceitar que algumas versões nossas nunca vão existir. E que outras, que nunca planejamos, podem ser muito mais interessantes.

Mudar de ideia também é maturidade

Fomos ensinados a valorizar muito a coerência. Escolheu uma profissão? Construa uma carreira. Casou? Faça dar certo. Começou um projeto? Termine. Definiu um caminho? Sustente.

Existe valor em permanecer, muito. Mas talvez tenhamos confundido consistência com imobilidade. Permanecer pode ser uma escolha bonita. Mudar também.

O ponto não é abandonar o que construímos cada vez que surge desconforto. É conseguir perceber quando continuamos investindo energia apenas porque já investimos energia demais.

Na economia, existe até um nome para isso: custo afundado. Aquilo que já gastamos e não conseguimos recuperar passa a interferir na decisão sobre o que fazer daqui para frente. Na vida fazemos isso o tempo todo: já estou aqui há tantos anos, já investi demais nessa carreira, já construí essa rotina, sempre fui assim.

Talvez uma das liberdades da maturidade seja compreender que o passado explica escolhas, mas não precisa determinar todas as próximas."

Nem tudo precisa acabar para poder mudar

E aqui existe uma diferença importante. Falar sobre os divórcios da maturidade não significa defender rupturas. Eu gosto, inclusive, da ideia oposta.

Às vezes nos divorciamos de uma forma antiga de viver uma relação para conseguir permanecer nela de um jeito melhor. Casamentos mudam. Amizades mudam. A relação com os filhos muda. A relação com os pais muda. O trabalho muda. Nós mudamos.

Há vínculos que não precisam terminar. Precisam ser renegociados. Talvez o amor adulto tenha muito disso: continuar escolhendo alguém que já não é exatamente a pessoa que conhecemos, sendo nós também diferentes daquele início.

A longevidade torna isso inevitável. Se viveremos juntos por 40, 50 ou 60 anos, não existe relação possível sem várias despedidas e vários reencontros dentro dela.

Talvez a permanência mais bonita não seja aquela em que nada muda. Seja aquela capaz de mudar sem deixar de existir."

O tempo deixa de parecer infinito

Existe uma aparente contradição na maturidade. De um lado, começamos a entender com mais nitidez que o tempo é finito. Do outro, percebemos que ainda existe muito dele pela frente. E talvez seja exatamente essa combinação que mude nossa maneira de escolher.

Aos 20, podemos imaginar que haverá tempo para tudo. Aos 50, começamos a entender que não haverá. Mas também percebemos que ainda há tempo suficiente para alguma coisa diferente.

Essa consciência pode alterar nossa relação com trabalho, consumo, casa, vínculos e até com a maneira como gastamos uma terça-feira qualquer. Porque quando o tempo deixa de ser abstrato, a pergunta muda. Não é mais apenas “o que quero conquistar?”. Passa a ser também “onde quero colocar os anos que ainda tenho?”.

Talvez esse seja o verdadeiro divórcio prateado. Não necessariamente separar-se de alguém, mas separar-se da ideia de que aquilo que fomos precisa determinar aquilo que ainda seremos.

A maturidade pode trazer despedidas, sim. Mas nem toda despedida é perda. Algumas são espaço para escolher de novo, permanecer com mais consciência, mudar sem pedir desculpas, cuidar melhor do que importa e até descobrir que algumas coisas que imaginávamos precisar abandonar continuam fazendo sentido, talvez até mais do que antes.

Porque o objetivo nunca foi mudar por mudar. É não continuar no automático. Uma vida mais longa nos dá um privilégio raro: tempo suficiente para nos tornarmos diferentes sem precisar negar tudo o que fomos.

Talvez, no fim, os maiores divórcios da maturidade sejam aqueles que ninguém registra em cartório."

São os que acontecem quando finalmente conseguimos nos separar do que deixou de fazer sentido para abrir espaço para aquilo que ainda pode fazer. E talvez uma das perguntas mais bonitas da longevidade seja justamente esta: do que você quer se “divorciar” para ser quem deseja ser?

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