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APURAÇÃO DO 2º TURNO PARA PRESIDENTE
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Fonte: TSE
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Eleições 2026

É possível acabar com o voto feminino? Direito é atacado nas redes sociais

Especialistas alertam para a radicalização do discurso contra o voto feminino nas eleições de 2026 e o medo de perder direitos políticos

Bárbara Ferreira

Por Bárbara Ferreira

25/10/2026 | 16h23

Luiz Roberto/TSE

As mulheres votaram nacionalmente pela primeira vez em 1933 - Luiz Roberto/TSE
As mulheres votaram nacionalmente pela primeira vez em 1933
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Ataques ao voto feminino ganharam destaque nas discussões políticas durante as eleições de 2026, refletindo uma radicalização do discurso que, embora não seja novo, surpreende pela intensidade e pela associação com a extrema direita.

A Constituição de 1988 garante o direito ao voto universal, mas especialistas alertam que a fragilidade dos direitos pode ser evidenciada em momentos de crise, como demonstrado pela perda de direitos das mulheres no Afeganistão em 2021.

Pesquisas indicam que a oposição ao voto feminino é crescente nas redes sociais, especialmente entre grupos antifeministas, e especialistas ressaltam a necessidade de defender continuamente esses direitos fundamentais para garantir a democracia e a participação cidadã plena.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Ataques ao voto feminino dominaram a internet durante as Eleições 2026. Importado dos Estados Unidos, um discurso que parecia restrito a grupos extremistas online ganhou espaço político. Especialistas apontam que, na história, esse discurso não é inédito, mas a ameaça e radicalidade surpreendem.

Afinal, é possível acabar com o voto feminino? Faz sentido que mulheres estejam com medo de perder direitos? 

Direitos podem mudar?

O principal argumento que rodeia o debate é a própria legislação brasileira, que teoricamente impede um retrocesso quanto ao voto das mulheres. A Constituição de 1988 garante que o direito ao voto é universal, obrigatório para maiores de 18 anos, com valor igual para todos, sem condição ou restrição.

Isso significa que a única forma de acabar com o voto feminino é derrubando a Constituição vigente, ou seja, apenas por meio de revolução ou Golpe de Estado.

O que se entende como cidadania, pertencimento e legitimidade muda com o tempo e a história, segundo Viviane Gonçalves, cientista política e professora da Universidade Federal de Lavras. Isso se comprova pela própria evolução do voto feminino:

  • 1891: Proposta do voto feminino é rejeitada na primeira Constituição da República.
  • 1927: O Rio Grande do Norte permite o voto feminino estadual; Celina Guimarães torna-se a primeira eleitora do País.
  • 1928: Alzira Soriano (RN) é eleita a primeira prefeita da América Latina.
  • 1932: Decreto de Getúlio Vargas (Código Eleitoral) garante o direito de voto às mulheres brasileiras.
  • 1933: Mulheres votam nacionalmente pela primeira vez e elegem Carlota Pereira de Queirós, a primeira deputada federal.
  • 1934: A nova Constituição oficializa o voto feminino (mas ainda de forma facultativa).
  • 1965: O voto feminino passa a ser obrigatório, exatamente como o masculino.

"Qualquer direito está sujeito ao contexto sociopolítico ao qual esteja vinculado", aponta a professora. Gonçalves explica que a fragilidade dos direitos se mostra em momentos de crise, que evidenciam a tendência que as parcelas da população menos presentes nos espaços de poder – como mulheres, indígenas e pessoas negras – vivenciem retrocessos.

Exemplo recente disso é o caso das mulheres no Afeganistão, que em 2021 perderam o direito ao voto e vários outros, como estudar, trabalhar, sair desacompanhadas ou a maneira de se vestir.

Mesmo que as mulheres brasileiras tenham direitos políticos desde a década de 1930, ou seja, há mais de 90 anos, este e tantos outros direitos precisam ser defendidos constantemente.
Viviane Gonçalves, cientista política

Mesmo com o crescimento da participação política das mulheres, o Brasil está na 138ª posição no ranking global de participação feminina nos parlamentos nacionais, elaborado pela União Interparlamentar (IPU).

"A democracia só existe com pluralidade e liberdade de escolhas. Se há uma restrição de quem deve ou tem direito a participar dos processos, não estamos falando mais em democracia – pelo menos, não como uma parcela considerável da ciência política compreende", afirma Gonçalves.

Ataques ao voto feminino 

Muitos internautas tratam o debate acerca do voto feminino como se o movimento contrário não passasse de teoria da conspiração, assim como o medo de perder direitos relatado por mulheres. Ao mesmo tempo, afirmações anti-feministas tomam cada vez mais espaço público.

O discurso contra voto feminino vem sendo importado dos Estados Unidos, onde o número de apoiadores desse discurso cresce nas redes sociais. O governo Trump chegou a propor uma reforma eleitoral que cria obstáculos burocráticos a pessoas que mudaram de nome, em sua maioria mulheres imigrantes ou casadas que adotaram o sobrenome do marido.

A condenação do voto feminino é associada à extrema direita, apesar de não ser uma pauta unânime ou forte entre os eleitores e políticos, uma vez que figuras bolsonaristas se manifestaram publicamente criticando o voto feminino. 

O influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, com mais de 1.6 milhão de seguidores no Instagram e YouTube, afirmou durante live que mulheres votam mal. Ele é neto de João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, atuou junto a Eduardo Bolsonaro - irmão do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) - nas articulações das tarifas impostas pelo governo americano contra o Brasil.

'Mulheres não tem que decidir nada'

Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas, da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou como homens são abertamente contra o voto feminino nas redes sociais. Foram analisadas 126 publicações que mencionam o voto feminino em 18 comunidades abertas no Telegram. 

Essas comunidades estão dentro do que é chamado de "machosfera", um ecossistema de fóruns, canais, grupos de WhatsApp, Telegram e redes sociais que se auto-identificam como antifeministas, masculinistas e misóginas.

Nos grupos analisados, 87% das mensagens sobre voto feminino, o atacam e condenam. Alguns exemplos: "um dos maiores erros da sociedade ocidental", "94 anos de desgraça", "mulheres não tem que decidir nada, são sentimentais, ficam com pena do lobo e então sacrificam a ovelha". As mensagens foram publicadas entre dezembro de 2020 e julho de 2026. 

Para Julie Ricard, pesquisadora da FGV e autora do levantamento, o que chama atenção é o radicalismo desse conteúdo.

Ao dizerem que as mulheres não sabem ou não estão aptas a votar, a pesquisadora aponta que os argumentos usados são suposições essencialistas, as mesmas usadas desde os movimentos sufragistas. O objetivo é descreditar a capacidade das mulheres de tomar uma decisão política, segundo ela.

O que é perigoso, em um primeiro tempo, é justamente o deslocamento do discurso, do que é aceito como normal em termos de afirmação. Preocupa, sim, a normalização de um discurso extremista que questione um direito absolutamente fundamental das mulheres, de mais da metade da sociedade brasileira.
Julie Ricard, pesquisadora da FGV

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