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Ela descobriu superdotação após os 60: 'Me despi do rótulo de ovelha negra'

Acervo pessoal

Empresária conta como investigação neurológica ajudou a identificar o perfil de superdotação e altas habilidades aos 64 anos de idade - Acervo pessoal
Empresária conta como investigação neurológica ajudou a identificar o perfil de superdotação e altas habilidades aos 64 anos de idade
Por Bianca Bibiano

06/09/2026 | 10h25

São Paulo - Por 64 anos, a empresária Helena Shisuko Kanno conta que lidou com uma 'carga emocional muito grande'. Por um lado, desde criança sua inteligência e capacidade de comunicação chamavam a atenção por onde ela passava. Por outro, sofria com a ansiedade constante, uma 'aceleração' diante da rotina e a cobrança interna de ter que fazer tudo à perfeição.

O entendimento sobre seu perfil, muitas vezes confundido com mau comportamento ou inadequação, ganhou novos contornos em 2024, quando a pedido da irmã ela buscou um profissional de neurologia para uma avaliação. "Ela achava que eu tinha TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade], que isso poderia levar a problemas de memória e mais chance de desenvolver doenças degenerativas", relembra. No consultório, porém, a investigação levou para outro caminho: Helena foi identificada no perfil de altas habilidades e superdotação (AH/SD).

Depois que eu fiquei sabendo que eu tenho essa característica, isso me aliviou bastante. Eu me despi do rótulo de ovelha negra que sentia, e que em muitas situações me colocavam nesse lugar. Fiquei bastante feliz e aliviada em saber que é uma característica do meu cérebro e não porque eu sou uma pessoa indomável ou mais difícil."

O que é altas habilidades e superdotação?

De acordo com a política nacional para estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação (AH/SD), esse perfil pode ser descrito como uma condição do neurodesenvolvimento que tem como característica fatores como:

  • Potencial intelectual elevado.
  • Intensa curiosidade.
  • Elevada capacidade de aprendizagem.
  • Profundo envolvimento em temas de interesse.
  • Alta sensibilidade e intensidade emocional.

Trata-se de um espectro com múltiplas variáveis, que costuma dar os primeiros sinais na infância, mas pode ser identificado a qualquer momento da vida em distintos contextos. No caso de estudantes, as intervenções educacionais exigem análise conjunta entre família, escola e equipe terapêutica, em um processo avaliado caso a caso.

Segundo a Associação Mensa Brasil, que reúne pessoas de alto QI no Brasil, a busca pelo entendimento desse perfil tem crescido, com maior procura de identificação entre entre mulheres, grupo que cresceu 50% entre os associados nos últimos anos. Ao todo, a Mensa Brasil já registou cerca de sete mil indivíduos com AH/SD no País.

A nível federal os números são mais expressivos: dados do Censo Escolar de 2025 mostram que cerca de 56 mil estudantes foram formalmente identificados com altas habilidades ou superdotação no Brasil. No entanto, mais de 2,4 mil municípios brasileiros não registraram nenhum aluno com esse perfil, cenário que indica uma possível subidentificação de casos.

Olhar pessoal para a neurodivergência

Atualmente com 66 anos, Helena relembra como adaptou seu comportamento ao longo da vida para se enquadrar nos ambientes. Casou-se jovem, teve três filhos e construiu uma carreira sólida, mas guarda lembranças marcantes da fase escolar.

Sempre tive facilidade com raciocínio lógico e comunicação. Era requisitada para declamar poesias e eleita representante de turma. Mas me destacava também pela agitação. Tinha dificuldade em seguir regras só por seguir; as coisas precisavam ter lógica para mim."
retrato da empresária Helena Shisuko Kanno, franqueada da rede Supera - foto de acervo pessoal
Ao longo da vida, Helena buscou conciliar os aspectos cognitivos da superdotação com os anseios da família - Acervo pessoal

O temperamento questionador trouxe desafios no ambiente familiar e escolar. No primeiro ano letivo, apesar das notas elevadas, recebeu nota sete em comportamento por falar excessivamente.

"Meu pai era muito exigente com o desempenho escolar, um traço forte da cultura nipônica. A professora explicou que eu terminava as tarefas muito rápido e conversava com as colegas. Minhas atitudes eram muitas vezes interpretadas como mau comportamento", lembra Helena, que mais tarde buscou Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para dosar o pragmatismo e desenvolver maior empatia nas relações.

Benefícios da investigação de superdotação na vida adulta

Para a empresária, a identificação do perfil cognitivo traz ganhos expressivos em qualquer etapa da vida, incluindo entre idosos, atuando como um instrumento de ressignificação. "É muito mais do que encaixar a pessoa em um rótulo; é tirar rótulos anteriores. Você dá novo sentido para as experiências passadas, aceita suas características e busca ajuda direcionada, se necessário", resume.

Helena vivenciou esse processo também dentro da família. Após sua experiência, seu pai também fez a avaliação de neurodivergência aos 80 anos, impulsionado pela necessidade de monitorar a saúde mental.

"Para nós, filhas, foi fundamental para entender o comportamento dele. Ele se irritava quando as pessoas não compreendiam o que para ele era óbvio. A descoberta abrandou essa frustração. Hoje, inclusive, dou aulas online de estimulação cognitiva para ele", conta, e complementa: 

"Entender o perfil faz parte do autoconhecimento. Você atua melhor e vive de forma mais leve."

Realização profissional no empreendedorismo

retrato da empresária Helena Shisuko Kanno, franqueada da rede Supera - foto de divulgação
Atualmente com 66 anos, Helena é empresária e tem uma franquia de estimulação cognitiva - Divulgação/Supera

Graduada em Matemática de Sistemas e Computacional, Helena se destacou no empreendedorismo, atuando com franquias. Há 15 anos, uniu a afinidade com a área exata à paixão pela educação ao assumir à frente de uma unidade da rede Supera, que oferece estimulação cognitiva apoiada em neurociência para crianças, adultos e pessoas idosas.

"Entrei nesse segmento porque percebi que o mercado exigiria cada vez mais o desenvolvimento de competências socioemocionais, as soft skills. Trabalhamos a agilidade, a criatividade e o foco, competências essenciais tanto para crianças em fase escolar e idosos que buscam qualidade de vida quanto para adultos que visam passar em concursos ou otimizar a carreira", explica.

A empresária destaca que o perfil neurodivergente contribui para sua rotina de trabalho ao permitir a execução de múltiplas tarefas simultâneas, mas faz uma ressalva: "As altas habilidades não garantem o sucesso por si sós. A disciplina, a organização e o foco continuam sendo indispensáveis para transformar o potencial intelectual em realizações concretas", finaliza.

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