Envelhecimento não está diretamente ligado à perda de dentes; veja cuidados
Dia Nacional da Saúde Bucal alerta para manutenção dos dentes em todas as etapas da vida; confira dicas de escovação e como perder o medo do dentista
Por Bianca Bibiano
25/10/2026 | 10h47Envato Elements
O Dia Nacional da Saúde Bucal destaca a importância dos cuidados odontológicos para idosos, que são essenciais para a alimentação, comunicação e saúde geral, podendo impactar condições como diabetes e problemas cardíacos.
Mudanças na salivação e problemas dentários são comuns entre pessoas idosas, mas a perda de dentes não deve ser considerada uma consequência inevitável do envelhecimento, segundo especialistas.
Recomendações incluem escovação regular, uso de fio dental e cuidados específicos com próteses, além de estratégias para lidar com a ansiedade odontológica, visando garantir a saúde bucal e o bem-estar dos idosos.
São Paulo - O Dia Nacional da Saúde Bucal, instituído por lei federal desde 2002 e celebrado na data de hoje, chama a atenção para a necessidade dos cuidados com a boca em todas as faixas de idade. Nesse cenário, profissionais de geriatria e odontologia destacam a importância da manutenção dos cuidados em pessoas idosas, com ou sem próteses dentárias.
Mais do que preservar dentes e gengivas, cuidar da boca é fundamental para manter uma alimentação adequada, a comunicação, a autoestima e a participação social de pessoas idosas, afirma o odontogeriatra Antônio Moura, cirurgião-dentista e presidente da gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - Seccional Pernambuco (SBGG-PE).
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“A boca faz parte do corpo, ela não é um sistema isolado. Infecções na boca podem repercutir na saúde sistêmica da pessoa idosa”, diz, destacando que quadros como diabetes e problemas cardíacos, além de pneumonias, podem ser agravados pela falta de cuidados nessa parte do corpo.
O especialista observa que, embora a idade possa trazer mudanças na salivação e aumentar a ocorrência de problemas como cáries, doenças periodontais e desgaste dentário, a perda dos dentes não deve ser encarada como uma consequência natural.
A perda de dente é uma condição de doença. O envelhecimento não está diretamente ligado à perda dentária.
Antônio Moura, odontogeriatra
Alimentação começa pela boca
Dificuldades para mastigar, dores e próteses mal adaptadas podem levar a mudanças importantes nos hábitos alimentares. Quando não conseguem mastigar adequadamente, muitos idosos passam a evitar alimentos mais consistentes, como carnes, frutas e verduras, dando preferência a preparações macias, pastosas ou líquidas.
“Essa mudança pode reduzir a variedade de alimentos consumidos e prejudicar a nutrição, contribuindo para a perda de peso. A diminuição da salivação também interfere na formação do bolo alimentar e pode dificultar a alimentação”, explica Moura.
Por isso, alterações repentinas no padrão alimentar merecem atenção. Entre os sinais que devem ser observados estão:
- Tempo excessivo para mastigar;
- Preferência por alimentos macios;
- Mastigação concentrada em apenas um lado da boca;
- Necessidade de cortar os alimentos em pedaços muito pequenos;
- Sangramentos ou feridas na boca que não cicatrizam em até 15 dias também devem ser avaliadas.
No caso de pessoas com comprometimento cognitivo, mudanças de comportamento, resistência durante as refeições e dificuldade para engolir também podem indicar desconforto que o idoso não consegue expressar verbalmente.
Cuidados diários com saúde bucal
A recomendação é escovar os dentes pelo menos duas vezes ao dia, preferencialmente com uma escova de cabeça pequena e cerdas macias ou extra macias, utilizando creme dental com flúor.
“A gente precisa higienizar a boca sempre, cuidar dos dentes, da língua e da mucosa”, orienta o especialista. O uso do fio dental é igualmente importante para a limpeza dos espaços entre os dentes.
Quando limitações motoras dificultam o manuseio da escova ou do fio dental, existem dispositivos adaptados que podem facilitar a higiene. O objetivo é favorecer a autonomia da pessoa idosa sempre que possível, com auxílio de familiares ou cuidadores quando necessário.
Higiene da prótese dentária
Idosos que utilizam próteses devem manter uma rotina específica de higienização. Antônio Moura recomenda retirar as próteses removíveis para limpá-las fora da boca, utilizando uma escova exclusiva para essa finalidade.
“É importante lembrar que as próteses não são eternas. Elas vão precisar de ajustes e, às vezes, chega o momento de trocar”, ressalta o odontogeriatra. O cuidado também se aplica às próteses fixas e aos implantes, que precisam de higienização adequada para prevenir doenças nos tecidos ao redor e evitar complicações.
Além disso, mesmo quem perdeu todos os dentes deve continuar cuidando da boca. “Perder todos os dentes não significa deixar de cuidar da boca. A gente tem um sistema todo aqui dentro que precisa ser cuidado, higienizado e observado”, enfatiza Moura.
Medo do dentista pode afetar idosos
Uma pesquisa publicada em 2026 no British Journal of Clinical Psychology, que reuniu dados de mais de nove mil adultos, estimou que 18% deles apresentam níveis elevados de ansiedade odontológica. Segundo a cirurgiã-dentista Claudia Consalter, sócia-fundadora da OrthoDontic, reconhecer a origem do medo é importante para lidar melhor com ele.
“Nem todo medo tem a mesma origem. Entender se aquela insegurança vem do desconhecido, de uma experiência anterior, da expectativa de dor ou da preocupação com a aparência ajuda o profissional e o próprio paciente a lidarem melhor com o tratamento”, explica.
Segundo Consalter, as três dicas abaixo podem ajudar pacientes adultos e idosos que têm medo de dentista.
1. Saiba o que vai acontecer antes da consulta
Esclarecer dúvidas diretamente com o profissional ajuda a substituir medos e expectativas por informações mais concretas. Por isso, antes de iniciar um tratamento, pergunte ao dentista como será a avaliação, quais são todas as etapas envolvidas e quais cuidados poderão ser necessários no processo.
2. Conte ao profissional que você está inseguro
Esconder o medo não torna a experiência necessariamente mais fácil. Se existe receio de algum procedimento, uma experiência ruim no passado ou preocupação específica, vale falar sobre isso antes do atendimento.
Essa informação permite que a equipe explique melhor as etapas e adapte a comunicação. “Dizer apenas que uma pessoa não precisa sentir medo nem sempre ajuda. Muitas vezes, o primeiro passo é permitir que ela fale sobre aquilo que a preocupa e entenda o que será feito”, afirma Claudia Consalter.
3. Não deixe o medo interromper o tratamento
Quando a ansiedade leva a faltas frequentes, longos intervalos entre consultas ou abandono de acompanhamento, o planejamento pode ser prejudicado e o tratamento prolongado. Se o medo estiver dificultando o retorno à clínica, a recomendação é conversar com a equipe para entender se existem outras estratégias para seguir com o tratamento.
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