Retirar glúten da alimentação por conta própria pode trazer riscos; entenda
Cortar glúten sem orientação não traz benefício para quem não tem doença associada e pode empobrecer a dieta, diz especialista
Por Redação Viva
24/10/2026 | 19h29Adobe Stock
A eliminação do glúten da dieta, motivada por informações nas redes sociais sobre seus efeitos inflamatórios, pode ser prejudicial à saúde, especialmente para aqueles sem condições médicas relacionadas, alertam especialistas.
Uma pesquisa global revelou que 10,3% da população sente desconfortos associados ao glúten, mas apenas 32% desse grupo possui diagnóstico médico, indicando um alto índice de autodiagnóstico e mudanças alimentares sem orientação.
Profissionais de saúde recomendam que pessoas com sintomas persistentes consultem um médico antes de alterar a dieta, pois a retirada do glúten sem supervisão pode levar a deficiências nutricionais e complicações de saúde.
São Paulo — Cortar pães, massas e biscoitos da alimentação motivada por informações que circulam, sobretudo nas redes sociais, de que o glúten seria naturalmente “inflamatório” para o corpo humano pode trazer riscos. Eliminar essa proteína sem orientação profissional, além de não trazer ganhos comprovados para quem não tem doenças associadas a ela,
pode empobrecer a nutrição e mascarar resultados de exames importantes, alertam especialistas.
“Para quem não tem nenhuma condição relacionada ao glúten, eliminá-lo da dieta é desnecessário e não costuma gerar ganho significativo de saúde”, afirma a reumatologista e coordenadora do Centro de Pesquisa Clínica na área de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês, Flora M. D'Andréa Marcolino.
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Segundo a especialista, a presença ou ausência dessa proteína nas refeições importa muito menos do que a qualidade geral do que vai ao prato. O efeito inflamatório atribuído ao alimento ocorre apenas em pessoas suscetíveis, caso de quem tem doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade comprovada.
Ainda assim, o autodiagnóstico tem levado muita gente a mudar a rotina alimentar. Uma revisão publicada na revista científica Gut, liderada por pesquisadores da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, dimensionou esse comportamento ao analisar dados de 49.476 pessoas em 16 países.
O levantamento aponta que 10,3% da população mundial afirma sentir desconfortos ligados ao glúten ou ao trigo. No Brasil, a taxa estimada foi de 10,5%. Desse grupo, 40% já adotam uma dieta livre da proteína, mas somente 32% receberam diagnóstico médico.
Mas por que alguns sintomas melhoram com a retirada do glúten?
A percepção de melhora rápida ao abandonar produtos derivados do trigo é o principal combustível para que a restrição ganhe força no boca a boca e nas redes sociais. A médica explica, contudo, que esse alívio costuma ser um efeito indireto da mudança de cardápio, e não da ausência do glúten em si.
“Algumas pessoas relatam menos inchaço abdominal e desconforto digestivo, mas isso ocorre pela redução de alimentos ultraprocessados, como pães industrializados, bolos e biscoitos, e pelo maior consumo de alimentos naturais”, esclarece a médica.
A pesquisa aponta ainda outros fatores por trás desse desconforto. Os autores do estudo destacam que, em grande parte dos pacientes, os sintomas atribuídos ao glúten são provocados por carboidratos fermentáveis presentes no trigo, conhecidos como frutanos (parte do grupo chamado FODMAPs), que fermentam no intestino e produzem gases.
Há também uma forte influência emocional e neurológica no aparelho digestivo. O estudo mostrou que indivíduos que relatam sensibilidade ao glúten têm quase cinco vezes mais chances de apresentar síndrome do intestino irritável, além de taxas significativamente maiores de ansiedade e depressão em comparação ao restante da população.
Ensaios clínicos citados pelos cientistas demonstram que a própria expectativa negativa ao comer o alimento — o chamado efeito nocebo — é capaz de disparar dores e estufamento, razão pela qual os pesquisadores defendem tratar a sensibilidade como um distúrbio da interação entre o intestino e o cérebro.
Trocas no prato nem sempre são saudáveis
Quando a exclusão do trigo é feita por conta própria, o impacto nutricional pode ir na contramão do esperado. Sem um planejamento adequado para substituir os cereais tradicionais, a dieta perde fontes importantes de nutrientes básicos.
“Os possíveis efeitos negativos da retirada do glúten incluem menor ingestão de fibras e risco de deficiência de vitaminas do complexo B, ferro e zinco”, pontua Flora.
Outra armadilha comum está nas prateleiras do supermercado. Ao trocar o pão ou biscoito tradicional por versões industrializadas com o selo “sem glúten”, o consumidor muitas vezes leva para casa um produto nutricionalmente inferior. Como o glúten garante elasticidade e maciez às massas, a indústria precisa compensar sua falta na receita.
Os produtos sem glúten industrializados podem ser mais caros e, em alguns casos, contêm mais açúcar, gordura ou amido para acertar a textura.
Flora Marcolino, reumatologista do Hospital Sírio-Libanês
O estudo britânico reforça esse alerta ao notar que muitas pessoas que mantêm a dieta restritiva a longo prazo, sem supervisão médica, continuam sofrendo com queixas digestivas, somando gastos extras e dificuldades no convívio social na hora de comer em grupo.
Cautela com farinha branca
O fato de o glúten não precisar ser excluído da alimentação de pessoas sem condições clínicas associadas à proteína, porém, não significa que o consumo de farinha branca deva ser irrestrito. Segundo o nutricionista e professor da Universidade do Distrito Federal Jorge Amaury (UnDF) Bernardo Romão, a atenção deve estar principalmente na quantidade e na composição dos alimentos consumidos.
“A farinha, por si só, não deve ser desaconselhada, mas o excesso de preparações de panificação e confeitaria que, além da farinha, costumam ter muito açúcar e gordura, como salgados recheados e bolos com cobertura”, explica.
Segundo o profissional, pessoas com diabetes, obesidade ou síndrome metabólica precisam ter atenção especial à alimentação, com moderação no consumo de produtos à base de farinhas, como a de trigo, e prioridade para alimentos in natura, como frutas e hortaliças.
Como investigar desconfortos da forma certa
No levantamento global, o sintoma mais relatado por quem acredita ter sensibilidade ao glúten é o inchaço abdominal (71%), seguido por desconforto (46%) e dor na barriga (36%), prisão de ventre (26,1%), diarreia (20,8%) e náusea (13,4%), além de queixas fora do intestino, como fadiga (32,1%) e dor de cabeça (18,2%).
Diante de sintomas persistentes, o primeiro passo antes de mudar a dieta é procurar um gastroenterologista ou clínico geral e manter a alimentação habitual até que os exames sejam feitos. “Se houver suspeita de doença celíaca, o ideal é não retirar o glúten antes de comprovar o diagnóstico, porque, se a pessoa corta a proteína e faz o exame depois, o resultado pode dar falso-negativo ou dificultar a interpretação”, orienta Flora.
Na consulta, o médico avalia sinais sistêmicos que ajudam a diferenciar um desconforto funcional de uma doença autoimune grave. Cansaço extremo com queda no desempenho físico, anemia persistente, aftas recorrentes, formigamento nas mãos e nos pés e até alterações menstruais ou de fertilidade em mulheres jovens (causadas pela falta de ferro) são indícios importantes de doença celíaca.
O risco também é maior em quem tem parentes de primeiro grau com doença celíaca ou já convive com outras doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, tireoidite de Hashimoto, lúpus e artrite reumatoide.
Doença atinge 0,7% da população
A investigação começa justamente descartando as condições que possuem marcadores biológicos claros. Para a doença celíaca, condição autoimune que atinge cerca de 0,7% da população e exige o corte do glúten, são solicitados exames de sangue específicos (como os anticorpos antitransglutaminase) e endoscopia digestiva com biópsia do intestino, além de testes genéticos em casos mais difíceis.
Já a alergia ao trigo, presente em cerca de 0,8% das pessoas, segue o padrão alérgico clássico, podendo causar coceira, urticária, falta de ar e até choque anafilático; é avaliada por testes específicos e tratada com antialérgicos e restrição orientada
Quando todos esses exames e a biópsia apresentam resultados normais, mas o paciente sente melhora clara ao reduzir o trigo, chega-se, por exclusão, ao quadro de sensibilidade ao glúten não celíaca. Nesse cenário, segundo Flora, o diagnóstico não significa uma sentença perpétua de proibição.
Para explicar como o paciente pode lidar com essa sensibilidade no dia a dia ao lado de um nutricionista, a médica compara a condição às crises de gota provocadas pelo ácido úrico elevado. “Existem alimentos que aumentam o ácido úrico, mas há pessoas que tomam vinho ou cerveja e não têm crise, enquanto outras comem camarão e têm crise”, exemplifica.
Diante de uma intolerância ao glúten, o paciente pode aprender quais alimentos causam seu mal-estar. “Com orientação médica e nutricional, há várias saídas, e não existe a necessidade de nunca mais comer nada com glúten”, ressalta.
(Marya Marcondes, especial para o VIVA)
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