Feriado na praia: aprenda a evitar contaminação durante o Carnaval
Tomaz Silva/Agência Brasil
São Paulo, 14/02/2026 - Enquanto muitos foliões lotam blocos de rua e desfiles, outros milhões de brasileiros escolhem o litoral como destino para o Carnaval. Segundo pesquisa Nexus divulgada pelo Ministério do Turismo em 2025, o turismo de sol e praia é o favorito de 62% da população. O cenário de calor intenso, praias lotadas e aumento temporário da população nas cidades litorâneas, no entanto, eleva o risco de contaminações, viroses, intoxicações alimentares e problemas relacionados à exposição solar.
O médico Anaor Neto, da clínica AmorSaúde, explica que os surtos de virose nesta época se dão "devido ao aumento súbito da densidade populacional em regiões litorâneas, o que gera um desequilíbrio na vigilância sanitária local". Segundo ele, a alta concentração de pessoas favorece o consumo de água contaminada, principal via de contágio.
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De acordo com dados do Ministério da Saúde e da rede de vigilância epidemiológica, o calor extremo acelera a degradação de alimentos vendidos na areia, enquanto a falta de higiene adequada em certas praias facilita a propagação de vírus, como norovírus e rotavírus.
Intoxicação alimentar ou virose?
Embora os sintomas possam ser semelhantes, como náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal, a origem do problema define o cuidado necessário. A intoxicação alimentar costuma ser causada por toxinas bacterianas, como Salmonella e Staphylococcus presentes em alimentos mal conservados e manipulados sem higiene. Já a chamada virose da praia está ligada ao contato com água contaminada ou à transmissão interpessoal, podendo vir acompanhada de febre baixa e dores no corpo.
O infectologista Kilnger Soares Faíco Filho reforça que a hidratação é prioridade. "O que chamamos de virose da praia é, na maioria das vezes, uma gastroenterite aguda. O primeiro cuidado deve ser com a hidratação, mas não qualquer uma. O gelo utilizado em sucos e batidas na areia é um grande vilão. Se não for feito com água potável, ele carrega vírus e bactérias que sobrevivem a baixas temperaturas".
No calor intenso, a proliferação bacteriana em alimentos como maionese, queijos e frutos do mar é exponencial. Se o quiosque não possui refrigeração visível ou se o manipulador de alimentos não higieniza as mãos, o risco de intoxicação alimentar é altíssimo."
Outro ponto vital, diz o médico, é o cuidado com a escolha do local para o lazer. "Banhar-se em águas impróprias, especialmente após chuvas fortes, é um convite para infecções por norovírus."
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Como se preparar antes da viagem
A prevenção pode começar antes mesmo de sair de casa. Entre as medidas recomendadas estão:
- Imunização: revisar a carteira de vacinação e manter os imunizantes atualizados, inclusive contra Hepatite A e arboviroses.
- Suplementação alimentar e dieta equilibrada: consumir alimentos ricos em vitaminas C e E, como frutas cítricas, amêndoas, brócolis e espinafre, que ajudam a fortalecer a pele e o sistema imunológico.
- Hidratação da pele: reforçar a barreira cutânea com hidratantes à base de ureia ou ceramidas antes da exposição solar.
- Itens essenciais: incluir protetor solar, hidratantes corporais e garrafas de água potável na bagagem.
Durante a viagem, o médico Anaor Neto reforça a importância da segurança alimentar. "Além de manter a higiene das mãos e consumir água filtrada, a seletividade alimentar é importante", resume. Nessa linha, ele orienta três atitudes importantes em relação aos alimentos:
- Cozinhe: Consuma alimentos bem cozidos, uma vez que o calor mata bactérias e microorganismo.
- Descasque: Procure frutas e vegetais sempre frescos, que possam ser lavados e descascados de modo a evitar contaminações.
- Evite: Alimentos não cozidos, frutas picadas que ficaram expostas ao clima ou alimentos consumidos crus em locais sem preparação adequada devem ser evitados.
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Desidratação e atendimento médico
O consumo de bebidas alcoólicas exige atenção redobrada à hidratação. "O álcool possui efeito diurético, ou seja, aumenta a produção de urina, o que pode levar à desidratação e a alta concentração de sal no organismo". A recomendação é intercalar a ingestão de álcool com água, em proporções semelhantes.
Caso surjam sintomas como vômito, diarreia ou dores intensas, a orientação é buscar atendimento médico. "Pode ser recomendada a terapia de reidratação oral: ingerindo soluções que contenham glicose e eletrólitos para garantir a hidratação e reposição de sais minerais", explica Neto.
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Crianças e idosos são considerados grupos de maior risco, pois possuem menor reserva hídrica e podem desidratar rapidamente. Especialistas alertam ainda que a automedicação, principalmente com antibióticos ou medicamentos que prendem o intestino, pode agravar o quadro ao dificultar a eliminação do agente causador.
Cuidado com efeitos do mormaço
O mormaço é um fenômeno meteorológico que chega a diversas regiões no litoral, trazendo não apenas desconforto térmico, mas também impactos à saúde. A combinação de calor e intensificação das chuvas cria um ambiente propício para a proliferação de vírus, bactérias e fungos, além de dificultar a regulação da temperatura corporal, o que exige atenção redobrada da população.
Embora seja comum atribuir diretamente ao mormaço o surgimento de doenças, o médico infectologista Danilo Campos, da Rede Oto, explica que o fenômeno não provoca enfermidades por si só.
O mormaço não é a causa direta das doenças, mas cria um cenário favorável para a transmissão de vírus e bactérias e para o agravamento de quadros alérgicos e respiratórios"
A umidade elevada também dificulta a dissipação do calor pelo corpo, o que pode levar à desidratação e ao cansaço excessivo, complementa, e destaca que os efeitos do mormaço não se restringem a pessoas com doenças respiratórias pré-existentes.
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"A sensação constante de abafamento interfere na troca de calor do organismo e pode provocar fadiga, dor de cabeça, irritação nas vias aéreas, queda na qualidade do sono e desidratação, inclusive em indivíduos saudáveis". Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas tendem a sentir esses impactos de forma mais intensa e devem redobrar os cuidados.
Para reduzir os riscos, a orientação é manter uma boa hidratação, priorizar locais ventilados, evitar exposição prolongada ao calor, usar roupas leves e reforçar a higiene das mãos.
Cuidados necessários ao retornar para casa
Após a viagem, ainda é necessário tomar algumas precauções e manter a atenção para sintomas. "Muitas doenças contraídas no litoral têm períodos de incubação que variam de três a 14 dias. Sintomas inespecíficos como dor nos músculos, articulações e cabeça devem levantar suspeita imediata para dengue, zika ou chikungunya", exemplifica o medico Anaor Neto.
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Também é importante observar sinais como febre persistente, tosse, dificuldade respiratória, lesões de pele ou mal-estar prolongado, buscando atendimento médico sempre que necessário.
Para recuperar as energias e a massa muscular que pode ser perdida durante a viagem, Neto diz que uma dieta com mais proteínas é bem-vinda. "O repouso também ajuda na recuperação causada pelo estresse físico e privação de sono que geralmente ocorrem no período festivo".
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