Carnaval pode trazer novos surtos de doenças? Entenda
Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
São Paulo, 13/02/2026 - A combinação de aglomerações, calor intenso, consumo de álcool e mudanças na rotina durante o Carnaval mantém em alerta médicos e autoridades sanitárias. O histórico recente mostra que o período pós-folia costuma ser marcado por aumento de infecções respiratórias, doenças gastrointestinais, infecções sexualmente transmissíveis e arboviroses como dengue.
No ano passado, por exemplo, o Brasil registrou alta de 80,4% nos casos de Covid-19 após o feriado, que chegou a atingir 11.467 pessoas no período. Embora os números de 2026 sejam menores até o momento, o comportamento epidemiológico observado em anos anteriores reforça a preocupação com possíveis surtos localizados nas semanas seguintes à festa.
Leia também: Beijo transmite IST? Especialista explica riscos e como se prevenir no Carnaval
Segundo o infectologista Luis Felipe Visconde, do Grupo São Lucas de Ribeirão Preto, as aglomerações e o relaxamento de cuidados favorecem a transmissão de vírus e bactérias.
As festanças de Carnaval sempre vêm acompanhadas da preocupação com a disseminação de doenças infecciosas. As aglomerações, o afrouxamento de medidas preventivas e o consumo de bebidas e alimentos fora de condições ideais tornam o contexto favorável à transmissão de vírus e bactérias causadores de doenças."
Três principais vias de contaminação
Para Renato Grinbaum, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o risco está associado principalmente à proximidade física, ao consumo de água e alimentos contaminados e às relações sexuais desprotegidas. Ele destaca que é esperado crescimento de casos de gripe, resfriados e influenza nas semanas seguintes, mas sem circulação de variantes mais agressivas neste momento.
Leia também: Vai maratonar nos blocos? Especialistas orientam cuidados com coração e saúde vascular
A gente sabe casos de infecção respiratória, gripes, resfriados, rinovírus, influenza aumentarão, mas não estamos com nenhuma variante mais agressiva circulando. A gente não demanda cuidado especial prévio, apenas que a pessoa que se infectou tenha cuidado de não levar isso para os mais vulneráveis na casa dela."
O especialista também alerta para doenças gastrointestinais e hepatites relacionadas à higiene inadequada. "Uma preocupação dos médicos é que aumenta muito diarreia, hepatite, especialmente se chover muito, e isso tem relação direta com higiene, especialmente das mãos e com a ingestão de líquidos de procedência desconhecida."
A recomendação é priorizar bebidas industrializadas ou adquiridas em estabelecimentos de confiança, evitando comprar água armazenada em isopor de ambulantes.
Fiocruz reforça vigilância
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acompanha o cenário epidemiológico por meio de sistemas como o InfoGripe e mantém vigilância sobre vírus respiratórios e emergentes. No que diz respeito ao Carnaval, a pesquisadora Tatiana Portella orienta que pessoas com sintomas de gripe ou resfriado priorizem o repouso.
Caso participem dos festejos carnavalescos, apesar dos sintomas, a orientação é usar uma boa máscara e ficar em locais bem arejados, a fim de diminuir as chances de transmissão do vírus."
Diante da alta de influenza A na Região Norte do País, a instituição reforça a vacinação de grupos prioritários, como idosos, indígenas, pessoas com comorbidades e profissionais de saúde. Com a aproximação do período sazonal do vírus sincicial respiratório, a recomendação inclui a imunização de gestantes a partir da 28ª semana, medida que protege os bebês nos primeiros meses de vida.
Leia também: Sociedade médica propõe quaresma sem álcool e indica redução do consumo
E o vírus Nipah?
Com relação ao vírus Nipah, a FioCruz disse em nota enviada ao VIVA que, "em sintonia com a avaliação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde sobre o baixo risco de uma pandemia causada pelo vírus Nipah, atua no apoio à preparação do Sistema Único de Saúde (SUS) nos campos do diagnóstico e da assistência.
O cenário atual não apresenta evidência de disseminação internacional ou risco para a população brasileira."
A Fundação destaca ainda que mantém estrutura preparada para eventual análise de casos suspeitos, com protocolos diagnósticos alinhados ao Ministério da Saúde e planejamento estratégico validado junto à rede de laboratórios públicos.
O consenso entre especialistas é que o Carnaval não cria novas doenças, mas pode ampliar a circulação das que já estão presentes. A prevenção antes, durante e depois da folia continua sendo a principal ferramenta para evitar surtos e reduzir a pressão sobre os serviços de saúde nas semanas seguintes.
Leia também: Pegou chuva no Carnaval? Entenda a diferença entre gripe e resfriado
Vacinação e monitoramento
A atualização da carteira vacinal é apontada como uma das estratégias mais eficazes para reduzir complicações, embora o correto é fazê-lo com antecedência, não no dia de ir para a folia.
Além da vacina contra influenza e da dose atualizada contra Covid-19, especialistas lembram da importância da imunização contra hepatite B e hepatite A, especialmente em contextos de maior exposição.
Para a infectologista Maria Isabel de Moraes-Pinto, coordenadora de vacinas da Dasa, a prevenção deveria ter começado meses antes da folia. "Eventos de massa aumentam a circulação de vírus e bactérias. Atualizar vacinas, avaliar o estado imunológico e adotar medidas simples de proteção fazem diferença não só durante o Carnaval, mas também nas semanas seguintes", afirma.
Segundo a especialista, exames laboratoriais e avaliação clínica prévia podem ajudar a identificar condições que se agravam com excesso de álcool, noites mal dormidas e desidratação, comuns no período.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
