São Paulo, 02/02/2026 - Entender por que algumas pessoas vivem mais do que outras é um dos grandes desafios da ciência. A longevidade humana depende de uma combinação complexa de fatores e, além de levar décadas para ser observada, sofre influência direta de condições sociais, ambientais e históricas. Por isso, medir com precisão o peso da genética nesse processo sempre foi uma tarefa difícil.
Um novo estudo publicado na edição de janeiro da revista científica Science reacendeu esse debate ao sugerir que a expectativa de vida humana pode estar mais ligada à herança genética do que se imaginava até agora. De acordo com os autores, cerca de 55% da variação na longevidade seria explicada por fatores hereditários, número bem superior às estimativas mais difundidas até então, que giravam entre 20% e 25%.
Leia também: 60% dos casos de demência no Brasil poderiam ser evitados, diz pesquisa
A pesquisa, conduzida por Ben Shenhar e colaboradores do Weizmann Institute of Science, de Israel, parte de uma revisão crítica de estudos anteriores e propõe uma mudança importante na forma como os dados são analisados. Isso significa que os pesquisadores não coletaram novos dados, mas sim recalcularam dados já existentes, separando o que eles chamam de mortalidade intrínseca de mortalidade extrínseca.
A mortalidade intrínseca está associada ao envelhecimento biológico em si, aos processos naturais e progressivos que ocorrem no organismo ao longo da vida. Já a mortalidade extrínseca envolve causas externas, como infecções, acidentes, violência, guerras ou condições ambientais adversas, que podem levar à morte independentemente da velocidade com que o corpo envelhece.
Segundo os autores, trabalhos passados teriam subestimado a influência da genética por não separar adequadamente esses dois componentes. Quando essas duas dimensões são analisadas juntas, explicam os pesquisadores, o efeito da genética acaba diluído.
"A mortalidade extrínseca mascarou sistematicamente a contribuição genética para a expectativa de vida em análises tradicionais", afirmam os autores. De acordo com a publicação, isso ocorre porque mortes causadas por fatores externos introduzem uma variável que não reflete diferenças hereditárias nos mecanismos do envelhecimento.
Para contornar esse problema, o grupo desenvolveu um método estatístico que ajusta as estimativas de herdabilidade mesmo na ausência de dados detalhados sobre causa de morte. A abordagem utiliza modelos de mortalidade calibrados com dados históricos de grandes grupos de gêmeos da Dinamarca, da Suécia e de irmãos centenários nos Estados Unidos.
Ao aplicar esses modelos e reduzir matematicamente o peso da mortalidade extrínseca, os pesquisadores observaram que a herdabilidade da expectativa de vida praticamente dobra. "Considerar a mortalidade extrínseca eleva a herdabilidade estimada da expectativa de vida intrínseca para aproximadamente 55%", explicam no artigo.
Mas por que antes era diferente?
Os resultados também ajudam a entender por que estudos anteriores chegaram a valores bem mais baixos. Muitas dessas pesquisas analisaram populações nascidas em períodos históricos marcados por alta mortalidade precoce, epidemias, guerras e pouco acesso a cuidados médicos. Nesses contextos, a morte frequentemente ocorria antes que os efeitos do envelhecimento biológico se manifestassem plenamente, o que reduzia a capacidade de detectar semelhanças genéticas entre indivíduos aparentados.
Quando os autores organizaram os dados por ano de nascimento, especialmente nos resultados da Suécia, ficou evidente que em populações mais recentes, com melhores condições sanitárias e acesso à saúde, a influência genética na longevidade se torna mais visível.
Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que essa não é uma medida fixa. "Trata-se de uma estatística válida para uma população específica, em um ambiente específico e em um determinado momento", explicam. Por isso, estudos realizados em contextos históricos, geográficos e sociais distintos tendem a produzir resultados diferentes.
Mesmo com as correções propostas, cerca de metade da variação na expectativa de vida permanece sem explicação genética. Essa parcela, segundo os autores, provavelmente resulta de fatores ambientais e comportamentais, como
estilo de vida, condições socioeconômicas e acesso à saúde, além de processos biológicos aleatórios, efeitos genéticos não aditivos e alterações epigenéticas.
O estudo também aponta que diferentes
doenças associadas ao envelhecimento apresentam pesos genéticos distintos. Condições como
doenças cardiovasculares e
demências mostraram maior
componente hereditário, enquanto o câncer parece ser mais influenciado por
fatores externos ou por eventos aleatórios no nível celular.
Entre as limitações do trabalho, os autores destacam a dependência de suposições clássicas dos estudos com gêmeos, como a ideia de que ambos compartilham ambientes semelhantes. Ainda assim, análises com gêmeos criados separadamente apresentaram resultados compatíveis, o que reforçaria as estimativas. Segundo eles, o acesso a dados mais detalhados sobre causas de morte poderá testar e refinar essas conclusões no futuro.