Uso do cigarro eletrônico entre pessoas 50+ acende alerta para riscos à saúde
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05/02/2026 | 14h31
São Paulo, 05/02/2026 - O uso do cigarro eletrônico, conhecido como vape, é frequentemente associado a jovens entre 17 e 24 anos. No entanto, o hábito também vem ganhando espaço entre pessoas com mais de 50 anos, ainda que discretamente e pouco debatida. Especialistas alertam que, nessa faixa etária, os riscos à saúde são ainda mais preocupantes, especialmente em quem já tem doenças respiratórias ou cardiovasculares.
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Dados recentes indicam que o uso de cigarros eletrônicos cresceu entre adultos brasileiros. De acordo com levantamento Vitigel 2024 do Ministério da Saúde, 2,6% dos adultos das capitais usaram o dispositivo em 2024, contra 2,1% no ano anterior.
O aumento foi mais expressivo entre as mulheres, passando de 1,4% para 2,6%. Entre os homens, o percentual caiu levemente de 2,9% para 2,5%. No mesmo período, o Brasil registrou o primeiro aumento na prevalência de fumantes adultos desde 2007, subindo de 9,3% para 11,6%.
Vape ou cigarro ou os dois
Mesmo com números menores, especialistas reforçam que o impacto pode ser mais grave após os 50 anos.
“O vape provoca os mesmos danos cardiovasculares do cigarro tradicional, como hipertensão, infarto e derrame. E o pior é que muitas pessoas usam os dois produtos ao mesmo tempo, o que aumenta ainda mais o risco”, explica Paulo Corrêa, professor da Escola de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e coordenador da Iniciativa Education Against Tobacco no Brasil.
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Quando os vapes começaram a ganhar popularidade no País nos últimos anos, os cartuchos eram vistos como uma opção “mais saudável” em relação aos cigarros tradicionais, o que causou dependência entre jovens e adultos.
O terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) aponta que a utilização de vapes é mais prevalente entre jovens de 14 a 17 anos do que em adultos. A pesquisa mostra que 8,7% dos adolescentes afirmaram ter utilizado vapes no último ano, em contraste com 5,4% dos adultos e 5,6% da população em geral.
“O cigarro eletrônico não é seguro. A ideia de que ele faz menos mal não se sustenta cientificamente. Em termos de risco, não há diferença significativa em relação ao cigarro convencional. Os danos são semelhantes, e em alguns casos, até mais preocupantes”, alerta o médico.
Segundo ele, o cigarro eletrônico tem alto potencial inflamatório e o envelhecimento torna a resposta inflamatória mais lenta. A combinação entre essa fragilidade natural e os efeitos do vape aumenta a inflamação e reduz as defesas do corpo.
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Além disso, Corrêa relata que o dispositivo tem levado ex-fumantes a recaídas. “Eles acreditaram que era algo inofensivo, mas acabaram aumentando rapidamente o uso e perceberam que estavam novamente dependentes da nicotina”, conta.
A falsa sensação de segurança faz com que muitos adultos ignorem riscos importantes, como inflamações pulmonares, bronquite e aumento das chances de infarto. “Entre as pessoas com mais de 50 anos, o uso do cigarro eletrônico está associado ao dobro do risco de disfunção erétil. Isso se soma aos efeitos naturais do envelhecimento e a outras doenças comuns nessa faixa etária, como diabetes, hipertensão e colesterol alto”.
Fiscalização do vape
O debate sobre o tema vem ganhando força e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério Público Federal (MPF) firmaram um acordo estratégico para reforçar a fiscalização e combater o comércio ilegal de dispositivos eletrônicos para fumar (DEF). O objetivo é garantir o cumprimento da RDC 855/2024, que proíbe a fabricação, importação, comercialização, distribuição e propaganda desses produtos no Brasil com vigência inicial de cinco anos.
Além das ações de fiscalização, o acordo prevê campanhas de comunicação e conscientização sobre os riscos do uso dos DEFs. A ideia é alcançar diferentes públicos, inclusive o de pessoas 50+, que também está presente nas redes sociais.
“Não adianta fazer propaganda só na televisão. É preciso usar as redes sociais, trabalhar com influenciadores e adaptar a linguagem para cada faixa etária”, destaca Corrêa.
Os ricos à saúde causados pelo vape
Estudo da ACS Central Science publicado em 2025 reforça os riscos a saúde. As pesquisas encontraram níveis elevados de metais pesados em vaporizadores e sugerem impactos diretos no coração, pulmões e cérebro.
Segundo cientistas, uma única tragada pode aumentar a frequência cardíaca e contrair os vasos sanguíneos, o que, a longo prazo, contribui para o enrijecimento das artérias e o aumento do risco de infarto e AVC.
A Anvisa mantém desde 2009 a proibição da comercialização e importação desses dispositivos, argumentando não haver evidências que comprovem benefícios à saúde ou redução de danos. A indústria, por outro lado, aposta em estratégias de marketing voltadas à ideia de modernidade e segurança, o que especialistas classificam como enganoso.
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O professor alega que muitos pacientes com 50 anos ou mais usam o vape escondido dos filhos e familiares por medo de julgamento ou repressão. Por ser um comportamento mais discreto, o cigarro eletrônico entre pessoas nessa faixa etária é menos discutido e, muitas vezes, invisível nas pautas de saúde pública. A falta de informação e a percepção equivocada de segurança reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre o tema em todas as idades.
“O discurso de que o cigarro eletrônico é só vapor de água é uma conversa fiada. Essa narrativa convence principalmente quem já fumou e acredita ter encontrado uma forma segura de voltar a fumar. É exatamente isso que a indústria quer: recrutar antigos fumantes de volta ao consumo”, alerta o especialista.
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