Ana Paula Padrão: mulheres conquistam mais educação, e têm mais exaustão
Reprodução/Summit Mulheres
São Paulo - A maternidade virou escolha e o casamento deixou de ser garantia de sobrevivência, mas o topo dessa conquista veio acompanhado de um esgotamento histórico. A afirmação foi feita pela jornalista e empreendedora Ana Paula Padrão, durante palestra no evento Summit Mulheres Nas Profissões, em São Paulo.
Ela ressalta que, enquanto os homens dedicam menos de 10 horas semanais aos afazeres domésticos, as mulheres enfrentam cerca de 22 horas de trabalho invisível no lar. Essa conta que não fecha se reflete na saúde mental. Dos quase 600 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais registrados no País em um ano, 63% foram de mulheres.
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À frente da renda de 53% dos lares brasileiros, a mulher conquistou a independência, mas pagou um preço alto por ela: a exaustão.
O esgotamento não é fraqueza, mas o sintoma de quem assumiu o sustento da casa sem que o cuidado fosse redistribuído."
A jornalista ressalta ainda que, diante desse cenário, surge a urgência de um novo feminismo do tempo. Já não basta apenas acessar o mercado de trabalho ou alcançar cargos de liderança; é preciso chegar lá com saúde.
Isso exige o fim da dupla jornada como norma aceita, a desconstrução da ideia de que existe um gene do cuidado exclusivamente feminino e a inclusão real dos homens na divisão da vida cotidiana."
Paralelamente, o aumento da presença feminina na política é fundamental para garantir investimentos públicos em redes de apoio e infraestrutura social. Ela ressalta que isso não significa deixar os homens de lado mas, sim, caminhar juntos. Defende ter mais mulheres na política para garantir que as políticas públicas sejam feitas para elas.
"O futuro não pode se resumir ao adoecimento solitário e ao isolamento. Ele precisa ser compartilhado, com divisões equilibradas no trabalho, no governo e dentro de casa", pondera.
A história recente provou a força transformadora das brasileiras, e a mensagem não é desistência e, sim, de novas regras.
"As mulheres não estão desistindo de suas carreiras ou da sua independência, mas sim do modelo que as adoece, prontas para resistir e reescrever as regras do jogo", conluiu.
Em sua palestra, a jornalista apresentou mais dados. Em 65 anos de uma revolução silenciosa, a brasileira deixou para trás a média de 6,3 filhos e apenas 1,9 ano de estudo registrados em 1960, época em que a legislação ainda a considerava "relativamente incapaz". Ela lembrou que, hoje, a taxa de fecundidade caiu para 1,5 filho por mulher e a escolaridade ultrapassa os 10,5 anos.
Mas, diz Padrão, a falta de comemoração desses avanços se explica pelo descompasso entre a evolução feminina e a estagnação das estruturas sociais. A mulher contemporânea ocupa o papel de provedora, mas ainda navega por modelos corporativos rígidos e pressões domésticas herdadas do século passado.
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