No Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, saúde mental ganha foco
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São Paulo - Nesta terça-feira, 28, é lembrado o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho. A data remonta ao trágico dia 28 de abril de 1969, quando uma explosão em uma mina na Virgínia, nos Estados Unidos, vitimou 78 mineiros. No Brasil, o marco foi instituído oficialmente em 2005 em memória de vítimas de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.
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Hoje, a data reforça principalmente a urgência da saúde mental dos trabalhadores brasileiros. Em 2025, o País registrou um recorde histórico de afastamentos psiquiátricos, com mais de 546 mil casos no período. O número de afastamentos por quadros ligados à saúde mental mais que dobrou de 2022 até 2025.
- 2022: 201 mil
- 2023: 283 mil
- 2024: 472 mil
- 2025: 546 mil
O burnout foi uma das principais causas desses afastamentos, apresentando um salto de quase 500% de 2021 a 2024, segundo dados da Previdência Social.
Saúde mental minimizada
Para o psiquiatra e doutor pela Unifesp, Daniel Sócrates — que possui formação executiva pelo Insper e FGV e mais de 20 anos de prática clínica —, o burnout e a ansiedade são sintomas de uma negligência cotidiana.
Segundo ele, o desgaste vai se acumulando e se desenvolve sob o pretexto da produtividade constante, até culminar em um colapso emocional. “Hoje, vemos pessoas funcionando no limite por longos períodos, sem perceber que já estão em sofrimento."
Diante desse contexto, segundo ele, um dos fenômenos mais preocupantes no ambiente corporativo atual é o do profissional que segue operando e entregando, mesmo já em sofrimento psíquico. À primeira vista, trata-se de alguém produtivo; na prática, é um quadro de adoecimento silencioso.
Hoje, um dos maiores riscos não é quem já se afastou — é quem continua funcionando no limite.”
Para ele, o profissional exausto passa a decidir pior, reagir mais e escutar menos, o que impacta diretamente a qualidade da liderança e das relações no trabalho. Mais do que o volume de tarefas, o que tem levado ao esgotamento é a carga emocional constante envolvida no trabalho — pressão, conflitos, decisões difíceis e a necessidade de manter o controle o tempo todo.
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Esse tipo de desgaste raramente aparece nos indicadores formais, mas tem impacto direto na mente. “O que mais adoece hoje não é o excesso de trabalho — é o excesso de tensão emocional que ninguém mede”, pontua Daniel Sócrates.
Para o psiquiatra, “há um tipo de esforço que não entra na meta, não aparece no currículo — mas cobra um preço alto na saúde mental de quem sustenta isso todos os dias”.
Custo econômico
Esse padrão de exaustão mascara o problema e amplia seus efeitos dentro das empresas por meio do absenteísmo, alta rotatividade e aumento da judicialização.
Isso evidencia que a saúde mental deixou de ser apenas uma questão individual para se tornar um desafio estratégico e econômico. O impacto financeiro dessa negligência é severo: estima-se uma perda anual de R$ 282 bilhões no Brasil (equivalente a 2,8% do PIB potencial), além da redução de 801 mil postos de trabalho e uma média de 51 dias de vida saudável perdidos por trabalhador a cada ano, segundo levantamento de 2026 da FIEMG.
Para compreender a responsabilidade empresarial nesse cenário, o médico do trabalho e head de Estratégia em SST no André Menescal Advogados, Alexandre de Lima Santos, explica que o acidente de trabalho é todo aquele que ocorre em função da ocupação, seja no local da empresa ou fora dele. E, de forma crucial, esse conceito inclui também as doenças relacionadas ao trabalho, ou seja, aquelas desencadeadas pelo exercício de uma determinada atividade.
Contudo, o especialista alerta para o grave problema da subnotificação: para cada acidente formalmente conhecido, existem de 5 a 10 vezes mais casos não notificados. Segundo ele, o País ainda pune as empresas que registram esses casos com uma tributação maior, o que acaba influenciando a omissão dos dados.
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Além disso, a análise exige cuidado. O médico pondera que, embora os transtornos mentais estejam crescendo globalmente, é necessário estabelecer o nexo de causalidade com rigor técnico, pois não se pode colocar na mesma caixa a ideia de que todo problema de saúde mental tem origem exclusiva no trabalho.
NR-1
Por essas razões, a saúde mental tornou-se uma prioridade, principalmente tendo em vista a modernização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).
Na última semana, encerrou-se o prazo para que as empresas se adaptassem às novas regras da norma, que estabelece as diretrizes "mãe" para a segurança e saúde ocupacional no País.
Agora, a NR-1 exige formalmente a avaliação e proteção psicossocial, combatendo o estresse e o assédio com o mesmo peso que os riscos físicos tradicionais. O objetivo final é garantir a segurança integral do colaborador através das diretrizes do Programa de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (PGR/GRO).
A mudança não é apenas teórica: a norma entrou em sua fase fiscalizatória punitiva. O descumprimento dessas diretrizes pode gerar multas administrativas de até R$ 100 mil, interdição imediata do local de trabalho e até responsabilização criminal dos empregadores em casos de acidentes graves por negligência.
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