Menopausa desafia comunicação no trabalho e exige estratégias; veja dicas
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São Paulo - A palestrante e mentora de carreiras e líderes Fabiana Koch teve um episódio de depressão associada ao burnout, potencializado pela menopausa, em 2024. Na época, pouco se falava sobre a saúde da mulher 50+ no ambiente coporativo. E ela, que atua há quase duas décadas na área, sentiu na pele o quanto os sintomas da menopausa podem afetar a carreira.
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"As profissionais sofrem em silêncio e é uma coisa que toda mulher vai passar, umas com mais consequências, outras com menos. Até pouco tempo atrás, era um tabu. Hoje nós podemos nos preparar para esse momento e passar por ele com qualidade de vida, não precisamos acabar o casamento, enfrentar problemas no trabalho, entre outras possíveis perdas", afirma.
Além dos impactos emocionais e físicos, a menopausa ainda é um tema pouco discutido dentro das empresas, o que faz com que muitas profissionais enfrentem o período sem suporte adequado, se sentindo sozinhas.
Por isso, ela considera positivo o anúncio da empresa de tecnologia Google, na semana passada, sobre um programa voltado para ajudar mulheres na menopausa.
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Para Koch, a falta de informação e de acolhimento pode intensificar o estresse e agravar sintomas, refletindo diretamente na produtividade e no bem-estar dessas mulheres.
É um desafio invisível que afeta as mulheres no trabalho. Quando as organizações reconhecerem que a menopausa faz parte da jornada de muitas profissionais, isso vai beneficiar não só as mulheres, mas toda a cultura corporativa".
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Koch aconselha preparar lideranças para lidar com a menopausa de forma empática, fortalecer uma cultura de acolhimento, e em alguns casos, adotar medidas práticas, como ajustes na temperatura do ambiente e possibilidade de pausas na jornada, que podem fazer a diferença.
Na outra ponta, é importante que as mulheres busquem acompanhamento médico para avaliar sintomas e tratamentos, priorizem a saúde mental e física, com atenção ao sono, à alimentação e à prática de exercícios, diz a consultora.
Falar abertamente sobre menopausa
A especialista em comunicação e jornalista Isabella Saes reforça o impacto das alterações no padrão de sono e no humor, que podem afetar a comunicação empática. "A menopausa tem um efeito muito forte no humor e na qualidade do sono, que geram irritabilidade. E a gente sabe que é essencial e primordial para a boa comunicação a disponibilidade para o outro."
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Ela também pontua que o "fog" mental, comum da menopausa pode ser evitado com mais concentração, evitar excesso de informações e distrações. "Estar presente no ‘aqui agora’, ter atenção plena, que tem muito a ver com o priorizar. O fog pode deixar a gente confusa. O mindfulness e a atenção plena podem ajudar muito."
Saes avalia que a menopausa não é uma questão individual, mas que envolve a sociedade e as empresas.
Não é uma questão individual, como muitas pessoas pensam, que é problema da mulher. É uma questão coletiva, porque envolve todo mundo: familiares, amigos e, sobretudo, as empresas, que é onde as mulheres ficam mais tempo."
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Para Sônia Luzia Beçon, cozinheira de eventos do Grupo Risotolândia, esse olhar para si fez a diferença. "Além da menopausa, eu também estava enfrentando um câncer de pele. Passei por isso, mas foi leve. Ainda assim, tive que aprender muito sobre ela, porque os sintomas, mesmo quando não são intensos, podem ser incômodos."
No trabalho, ela disse que falar abertamente sobre o tema ajudou, assim como na vida pessoal. "Trocar ideias com outras mulheres ajuda muito. E também é importante não se preocupar em excesso, porque dificuldades vão aparecer", pondera.
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"Eu conversava com outras mulheres que sofriam com calorões muito fortes. Preferia pensar que eu estava bem e que aquilo era apenas uma fase, uma passagem. Às vezes, no ônibus o calor vinha com mais intensidade. Eu ficava quietinha, me ajeitava ali, esperava passar e acabava até rindo depois".
Essa capacidade de rir de si mesma tem a ver com autoconhecimento.
"Para mim, o principal para superar esse período é o autoconhecimento. Quando a gente consegue 'brincar' um pouco com os sintomas e com a vida, tudo fica mais fácil."
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Lapsos de memória no meio da reunião?
Os lapsos de memória também estão entre os sintomas mais frequentes durante a menopausa, mas têm deixado muitas mulheres inseguras, principalmente em reuniões e apresentações.
Para mulheres que vivenciam isso no trabalho, Isabella Saes sugere fazer um roteiro da reunião com os destaques (highlights). "Não colocar um monte de coisas escritas, porque senão você até se perde, mas anotações com os pontos principais."
Aliás, é preciso evitar o excesso de informações. "Somos bombardeados de informação o dia inteiro. Se a gente não prioriza e não filtra, a gente também sobrecarrega o nosso cérebro. E tudo que a gente não precisa na menopausa é sobrecarregar o cérebro."
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Estratégias práticas
Baseado nas recomendações das especialistas, seguem as principais recomendações melhorar a comunicação no trabalho durante a menopausa:
- Priorize o autocuidado: cuidar do sono, do humor e da saúde hormonal ajuda indiretamente a melhorar a comunicação no dia a dia.
- Organize reuniões com roteiros simples: use anotações com pontos-chave para evitar esquecimentos e ganhar segurança.
- Evite excesso de informação: filtre conteúdos e reduza a sobrecarga mental, especialmente no uso de redes sociais.
- Pratique a atenção plena: estar presente no momento ajuda a reduzir o “fog mental” e melhora a clareza na comunicação.
- Respeite seus limites: entenda que oscilações de humor e energia fazem parte do processo.
- Busque apoio médico e emocional: acompanhamento adequado contribui para mais equilíbrio físico e mental.
- Compartilhe experiências: conversar com outras mulheres ajuda a normalizar sintomas e encontrar soluções práticas.
- Seja transparente quando possível: comunicar o que está acontecendo pode reduzir tensão e aumentar a compreensão no trabalho.
- Adapte a rotina: pequenas mudanças, como pausas e ajustes no ambiente, podem melhorar o bem-estar.
- Invista no autoconhecimento: entender o corpo e suas reações é essencial para lidar melhor com os desafios da fase.
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