Mórris Litvak
Colunista VIVA
06/11/2026 | 16h07
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Fundador e CEO da Maturi, plataforma para profissionais 50+. É empreendedor social com pós-graduação em Gestão da Inovação Social pelo Amani Institute.
Vaga temporária depois dos 50: porta de entrada ou armadilha?
Há milhares de vagas que se abrem no final de ano. Para quem tem mais de 50 e está fora do mercado há algum tempo, há ganhos que vão além do salário
Envato
O mercado de trabalho brasileiro deve abrir cerca de 130 mil vagas temporárias e efetivas até o fim de 2026, impulsionado pela demanda de fim de ano, mas a preferência por candidatos jovens ainda persiste, com 61% das empresas buscando pessoas entre 16 e 34 anos.
Embora a média de idade dos novos contratados seja baixa, 46,1% dos empresários estão priorizando mulheres, indicando uma possível mudança no perfil do trabalhador temporário, que pode incluir também profissionais mais velhos.
É crucial que as contratações sejam feitas com registro em carteira para garantir direitos trabalhistas, e as vagas temporárias podem oferecer benefícios além do salário, como experiência e networking, especialmente para pessoas acima de 50 anos que buscam reinserção no mercado.
São Paulo - Basta andar por um shopping ou por uma rua de comércio nesta época do ano para ver os cartazes: "Contrata-se para o Natal". Agora imagine uma mulher de 58 anos parada diante de uma dessas vitrines, com o currículo na bolsa e uma pergunta na cabeça: será que essa vaga é para mim?
Muita gente que acompanha esta coluna já viveu essa cena, ou vai viver nas próximas semanas. E a resposta honesta é: pode ser. Depende de algumas coisas que pouca gente conta.
Milhares de vagas, mas para quem?
O fim de ano continua sendo um dos momentos mais movimentados do mercado de trabalho. Segundo pesquisa da CNDL, do SPC Brasil e da OfferWise, o comércio e os serviços devem abrir cerca de 130 mil vagas temporárias e efetivas até o fim de 2026, 12 mil a mais do que no ano passado.
Somando indústria e outros setores, a Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem) projeta cerca de 530 mil contratos temporários no último trimestre. Com a Black Friday marcada para 27 de novembro e o Natal logo em seguida, as contratações já estão acontecendo.
Só que ainda resiste uma imagem antiga do trabalhador temporário: a do jovem no primeiro emprego. Em edições anteriores da mesma pesquisa, a média de idade esperada para os novos contratados ficou em torno de 28 anos, e em outro levantamento 61% das empresas disseram preferir candidatos entre 16 e 34 anos. Ninguém escreve isso no cartaz, mas o filtro existe.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que esse perfil pode mudar. Na pesquisa deste ano, 46,1% dos empresários das capitais que pretendem contratar disseram priorizar mulheres, contra 17,1% que preferem homens.
O perfil do 'temporário ideal' não é fixo. Ele muda quando o mercado passa a enxergar valor onde antes não enxergava. Se aconteceu com o gênero, pode acontecer com a idade.
Quando o temporário vale a pena
Para quem tem mais de 50 e está fora do mercado há algum tempo, uma vaga temporária pode trazer ganhos que vão além do salário.
Currículo - O primeiro é a experiência recente no currículo, que pesa muito na triagem e ajuda a responder aquela pergunta incômoda sobre o tempo parado.
Trabalho em equipe - O segundo é voltar à rotina, ao ritmo e à convivência com uma equipe.
Novos contatos - O terceiro é a rede de contatos, que costuma abrir mais portas do que qualquer site de vagas.
E existe a chance de ficar. No levantamento do ano passado, 47% das empresas disseram que pretendiam efetivar parte dos temporários depois da temporada.
Vale lembrar também que o fim de ano exige exatamente o que a maturidade costuma trazer: paciência com o cliente apressado, calma diante do caixa lotado, compromisso com o horário e a capacidade de resolver um problema sem chamar o gerente a cada cinco minutos.
Em muitos casos, é isso que separa uma loja que vende bem de uma loja que só fica cheia.
Quando vira armadilha
Agora, o outro lado. A remuneração média das vagas de fim de ano está em R$ 1.805, R$ 138 a menos do que em 2025, com jornadas que passam de sete horas e meia por dia. Isso não quer dizer que a vaga não valha a pena, mas ela precisa fazer sentido para você, e não apenas para quem contrata.
O maior cuidado é com a informalidade. Parte das contratações de fim de ano acontece sem carteira assinada, e aí os direitos simplesmente não existem. O trabalho temporário de verdade é regido pela Lei 6.019/1974 e garante registro em carteira, salário equivalente ao dos funcionários da mesma função na empresa, descanso semanal remunerado, FGTS e férias proporcionais. O contrato pode durar até 180 dias, com prorrogação de até 90. Se a proposta for "começa amanhã e o resto a gente vê depois", desconfie.
Para quem já é aposentado, a renda extra é bem-vinda e, em regra, não há impedimento para voltar a trabalhar com carteira. As exceções mais comuns são a aposentadoria por incapacidade e a aposentadoria especial, que têm regras próprias. Na dúvida, vale uma consulta rápida ao INSS antes de assinar.
E um ponto de que pouca gente fala: aceitar uma vaga temporária, inclusive em uma função diferente da sua carreira anterior, não apaga nada do que você construiu. O problema está em um mercado que ainda oferece aos 50+ apenas as portas laterais, e não em quem decide atravessar uma delas.
Um recado para quem contrata
O Brasil tem hoje mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, 15,6% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE. São elas que enchem muitas lojas em dezembro, compram para filhos e netos e esperam um atendimento que as compreenda.
Faz pouco sentido vender para um País que envelhece com equipes que não refletem esse País.
Abrir as vagas de fim de ano para profissionais 50+ é uma decisão de negócio, e das boas.
A escolha é sua
A vaga temporária pode ser uma ponte. Para isso, ela precisa ser uma escolha consciente, com direitos garantidos e expectativas claras, e não a única porta que sobrou. Se você está pensando em encarar a temporada, vá com o currículo atualizado, com a sua experiência bem contada e com a certeza de que ela tem valor.
E se quiser trocar ideias com quem está vivendo a mesma fase, a comunidade Maturi está aberta. Em Belo Horizonte, no dia 16 de novembro, o MaturiDay BH reúne profissionais 50+ para conversar sobre trabalho, carreira e longevidade. As inscrições estão abertas. A gente se vê por lá!
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