Cuidadores de idosos relatam burnout, apego e agressão verbal no trabalho
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26/01/2026 | 12h00
São Paulo, 26/01/2026 - Ser um profissional que atua no cuidado de pessoas idosas não é uma tarefa simples. Apesar do crescimento acelerado da área na última década, intensificado pela pandemia de Covid-19, a ocupação ainda é marcada pela informalidade, afetando a qualificação e a segurança de cuidadores e idosos. Profissionais ouvidos pelo Portal VIVA relatam casos de burnout, apego emocional, longas jornadas de trabalho, falta de capacitação técnica e agressões verbais vindas das famílias dos pacientes.
Doralice Santos, 48 anos, começou a trabalhar como cuidadora de idosos durante a pandemia. Desde então, acompanhou diferentes famílias e pacientes. Hoje, ela cuida de uma idosa diagnosticada com demência. O trabalho exige dedicação intensa, tanto física quanto emocional. Ela explica que as jornadas podem ser longas. “Eu trabalho dez horas por dia, a minha escala é um dia sim, um dia não, de segunda a sexta”, disse.
A cuidadora conta que começou na profissão sem qualquer formação, curso técnico ou treinamento, aprendendo tudo na prática.
Denise Abreu, especialista em saúde mental no envelhecimento, afirma que o grande número de pessoas sem formação técnica atuando como cuidador se deve à alta demanda por cuidados diante do envelhecimento da população, somada à falta de regulamentação e fiscalização da profissão.
“Ser um cuidador envolve muito mais do que cuidar da higiene, alimentação e medicamentos. Um bom cuidador, além dos conhecimentos técnicos que envolve diferenciar o cuidado de acordo com a patologia, exige aptidão para a função, empatia e respeito. A falta desses pré-requisitos pode significar um risco tanto para o paciente quanto para quem cuida.”
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A terapeuta Suely Utiyama, especializada em gestão emocional para cuidadores de idosos, explica: “Como a profissão não é regulamentada, a maioria dos cursos disponíveis é estritamente operacional. Ensina a trocar uma fralda ou administrar um medicamento, mas ignora completamente a saúde mental de quem cuida.”
As mulheres representam 92,1% dos cuidadores de idosos no Brasil, e estão na faixa etária de 36 a 55 anos, aponta levantamento da MasterCare e o Movimento Nacional pelos Cuidadores, Cuidados e Longevidade. A pesquisa que entrevistou 2.568 cuidadores também apontou que os homens representam apenas 7,7% dos cuidadores.
Trabalho não remunerado
Existem também os cuidadores de idosos não remunerados, geralmente familiares que assumem sozinhos a responsabilidade pelos cuidados. Essa função costuma ocupar o dia todo, sem horários fixos e sem qualquer tipo de apoio.
A professora Maura Messias, 53 anos, é um exemplo dessa realidade. Ela cuida da mãe, de 90 anos, diagnosticada com Alzheimer, e da prima, de 76, que tem autismo, e conta que cuidar de idosos significa viver em constante estresse e estado de alerta. Ela foi diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e faz tratamento para depressão há 20 anos.
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Messias diz que percebeu o impacto da rotina quando a mãe deixou de lembrar de tomar os remédios e os exames confirmaram o diagnóstico de Alzheimer. “O esgotamento é físico e mental. Cuidar de idosos exige tempo, espaço e organização. Há muitas idas à farmácia, à UBS, a consultas e exames”.
Ela relata que, ao começar a tirar licenças do trabalho, entendeu que precisava buscar ajuda profissional, como terapia, para continuar cuidando sem adoecer ainda mais. “Sou funcionária pública e tenho jornada dupla. Me sentia sobrecarregada com tantas exigências e sem forças para continuar. Cheguei a desejar desaparecer de todo o contexto, e o desespero começou a me incomodar”, relata.
Para a terapeuta Suely Utiyama, o burnout do cuidador familiar já ultrapassou a esfera privada e se tornou um desafio de saúde pública.
“Precisamos de políticas que ofereçam o chamado cuidado de respiro, grupos de apoio e suporte psicológico nas unidades básicas de saúde, reconhecendo que quem cuida também precisa de cuidado para não se tornar o próximo paciente.”
O esgotamento emocional no trabalho é intenso e relatos de profissionais nas redes sociais mostram que a busca por terapia ou apoio psicológico é cada vez mais comum. Doralice Santos conta que recentemente precisou procurar ajuda. “Semana passada, minha médica já me receitou sertralina, e agora vou agendar com um psiquiatra”, relata.
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Ao mesmo tempo, ela acredita que o vínculo afetivo com o paciente é o que ajuda a enfrentar os desafios diários. “O carinho pelo idoso ajuda bastante. Ajuda a seguir em frente”, afirma.
Segundo a especialista Denise Abreu, o vínculo afetivo entre cuidador e paciente pode ser determinante para o esgotamento emocional. “Isso acontece porque a necessidade do cuidado traz consigo toda uma história de vida que envolve ambos. Quando o cuidador não consegue manter um distanciamento afetivo saudável do paciente, ele pode, sim, estar muito mais propenso ao esgotamento emocional”, explica.
Trabalho terceirizado e salários baixos
As profissionais ouvidas pelo VIVA relatam que o trabalho terceirizado tende a oferecer salários baixos, já que boa parte da remuneração fica com as agências de emprego. Por isso, muitas cuidadoras optam por atuar diretamente com as famílias, garantindo melhor retorno financeiro e vínculos mais estáveis com os pacientes.
Uma profissional, que preferiu não ser identificada, relatou enfrentar longas jornadas de trabalho terceirizado e episódios de agressão verbal por parte da família do paciente.
“Trabalho 12 horas por dia, de segunda a sexta, cuidando de um paciente acamado. Meu corpo dói, minha lombar está acabada. Não tenho mais tempo para mim. Não consigo sair dessa situação porque preciso do salário. Tenho que ouvir abusos da esposa do meu paciente e da família. É uma agressão verbal sem fim, me comparam o tempo todo com a funcionária que assume o plantão depois de mim”, contou.
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A cuidadora afirma que procurou avaliação médica após um episódio de burnout em 2025, mas não conseguiu reverter o quadro. “Estou destruída, física e mentalmente. Choro todos os dias ao tomar banho”, disse.
“No Brasil, o cuidado é culturalmente visto como uma obrigação de amor, o que muitas vezes mascara uma sobrecarga física e psicológica devastadora”, explica a especialista Suely Utiyama.
Burnout do cuidador como problema de saúde pública
O envelhecimento acelerado da população brasileira ampliou a procura por cuidadores e levou a avanços institucionais recentes. Denise Abreu, explica que, embora o termo “burnout do cuidador” ainda não seja usado oficialmente nas políticas públicas, a questão já pode ser tratada como um problema de saúde pública.
A especialista destaca que a Lei 15.069, de 23 de dezembro de 2024, criou a Política Nacional de Cuidados, que reconhece tanto o direito ao cuidado quanto a necessidade de atenção à saúde e bem-estar de quem cuida.
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Já a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, tomada em agosto de 2025, passou a reconhecer o cuidado como um direito humano autônomo e essencial. Isso se dá no contexto que projeções mostram que, em 2070, os idosos devem representar 38% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento indica que, em 2023, o Brasil tinha cerca de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.
“Tratar isso como saúde pública significa regulamentar melhor a profissão e garantir que as instituições de longa permanência e serviços de home care tenham protocolos de prevenção ao estresse ocupacional”, declara Utiyama.
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