Veja outros países que sofreram intervenção dos EUA
Foto: Unsplash
Por Joyce Canele
redacao@viva.com.brSão Paulo, 06/01/2026 - Neste mês, os EUA voltaram a intervir diretamente na Venezuela, ao conduzir uma operação que resultou na retirada forçada do presidente Nicolás Maduro do território venezuelano.
A ação, anunciada publicamente pelo governo americano, ocorreu em meio ao agravamento da crise política e institucional no país sul-americano e foi justificada por Washington como parte de medidas de segurança internacional e combate a ameaças consideradas estratégicas.
Leia também: Lula diz que ataque contra Venezuela ultrapassa linha inaceitável
O episódio recoloca a Venezuela na longa lista de países que, ao longo de mais de um século, foram alvo de intervenções militares, operações encobertas ou ações diretas dos EUA em diferentes regiões do mundo.
Ao longo de mais de dois séculos, em diferentes momentos e sob justificativas que variaram da proteção de interesses comerciais ao combate ao terrorismo, os Estados Unidos recorreram a intervenções militares, operações de inteligência e pressões políticas fora de seu território.
Leia também: Venezuela convoca 'forças especiais e políticas' e pede prova de vida de Maduro
Entre o século 19 e os anos recentes, essas iniciativas ocorreram na América Latina, Oriente Médio, África, Ásia e Europa, moldando governos, conflitos armados e a presença militar americana em escala global.
As intervenções dos Estados Unidos no exterior começaram ainda no fim do século 18, com operações navais no Norte da África e no Caribe, segundo o artigo divulgado pelo Congress.Gov.
Ao longo do século 19, desembarques de tropas e conflitos armados acompanharam a expansão territorial americana, como na guerra contra o México, que resultou na incorporação de vastas áreas ao território dos EUA.
Leia também: Veja repercussão internacional sobre ataque dos EUA contra a Venezuela
No século 20, a atuação passou a combinar força militar direta e ações indiretas, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial.
A Guerra Fria consolidou a lógica de intervenções destinadas a conter a influência soviética, enquanto o pós-11 de Setembro marcou uma nova fase, com operações de grande escala justificadas pelo combate ao terrorismo internacional.
Oriente Médio
O Oriente Médio tornou-se uma das regiões mais afetadas pelas intervenções americanas. A partir da década de 1950, os Estados Unidos passaram a atuar de forma direta e indireta em países estratégicos, como o Irã, onde a derrubada do governo de Mohammed Mossadegh, em 1953, alterou o equilíbrio político interno.
Leia também: SUS já absorve impactos da situação da Venezuela, afirma Padilha
Décadas depois, o Iraque concentrou uma das maiores operações militares americanas desde a Guerra do Vietnã. Após a invasão de 2003, o país permaneceu sob forte presença militar dos EUA por mais de uma década, com picos superiores a 150 mil soldados.
Mesmo após a retirada formal, forças americanas continuaram a operar no território iraquiano em missões de apoio e combate a grupos extremistas.
Leia também: Trump divulga foto de Maduro com vendas e algemado, a bordo de navio
O Afeganistão seguiu trajetória semelhante. A intervenção iniciada em 2001 resultou em quase 20 anos de presença militar, encerrada apenas em 2021, com a retirada final das tropas e o retorno do Talibã, grupo terrorista, ao poder.
África
No continente africano, as intervenções americanas assumiram formatos variados. Em alguns casos, envolveram ações diretas, como na Somália, marcada por operações militares desde os anos 1990.
Em outros, a atuação ocorreu por meio de treinamento, assessoria e apoio logístico a forças locais, como no Chifre da África e na África Central.
Relatórios oficiais registram presença militar em países como Djibuti, Etiópia, Quênia e Uganda, além de operações de evacuação e apoio diplomático em situações de crise, como no Sudão. Especialistas que estudam o Sul Global apontam que intervenções externas podem agravar conflitos quando desconsideram contextos locais. Além disso, analistas do Journal Of The Global South destacam que, em períodos de maior investimento dos Estados Unidos em armamento e ações militares, houve redução ou redirecionamento de recursos destinados a programas de ajuda internacional, como os da USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional), o que gerou instabilidade e preocupação em países africanos.
Leia também: Governaremos Venezuela até transição segura, adequada e criteriosa, diz Trump
Em 2011, tropas americanas participaram da intervenção aérea na Líbia, integrada a uma coalizão internacional, com foco em ataques a alvos estratégicos e apoio logístico à Otan.
Europa
Na Europa, a atuação dos Estados Unidos esteve historicamente ligada à Otan. Durante a Guerra Fria, bases e contingentes militares foram mantidos em países como Alemanha, Itália e Reino Unido.
Nos anos 1990, os EUA participaram de operações militares nos Bálcãs, incluindo bombardeios e missões de estabilização na antiga Iugoslávia.
A partir de 2022, a guerra na Ucrânia levou a um novo reforço da presença americana no continente. Tropas adicionais, equipamentos e estruturas de comando foram deslocados para o Leste Europeu, especialmente para países que fazem fronteira com a Rússia, em uma estratégia de dissuasão e apoio aos aliados da Otan.
Ásia e Pacífico
A Ásia também figura entre as regiões mais impactadas. No século 19, intervenções forçaram a abertura de portos no Japão e garantiram presença militar em cidades chinesas. No século 20, guerras na Coreia e no Vietnã mobilizaram centenas de milhares de soldados americanos.
Leia também: Guterres, da ONU, se diz 'alarmado' com ação dos EUA na Venezuela
Atualmente, os Estados Unidos mantêm bases e contingentes na Coreia do Sul, no Japão e em ilhas do Pacífico, além de operações navais frequentes no Indo-Pacífico, região considerada central para a estratégia de contenção da influência chinesa.
América Latina
A América Latina concentra um dos históricos mais extensos de intervenções dos Estados Unidos. Desde o início do século 20, tropas americanas ocuparam países do Caribe e da América Central, como Haiti, Nicarágua e República Dominicana, em operações que duraram anos.
Durante a Guerra Fria, a atuação passou a incluir apoio direto ou indireto a golpes de Estado e mudanças de regime. Em 1954, a derrubada do presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz, contou com participação decisiva da CIA.
No Brasil, o golpe militar de 1964 teve respaldo político e logístico de Washington. Chile, Argentina, Uruguai e El Salvador também registraram interferência americana em contextos de crise política e repressão interna.
Leia também: Crise na Venezuela: Ministério da Saúde reforça estrutura em Roraima
Mesmo após o fim da Guerra Fria, a presença militar e política dos EUA continuou a se manifestar na região por meio de operações antidrogas, missões humanitárias e pressão diplomática.
Venezuela
Nos anos recentes, a Venezuela passou a integrar o grupo de países sob forte pressão dos Estados Unidos. Sanções econômicas, ações diplomáticas e operações de inteligência marcaram a relação entre Washington e Caracas.
Em meio à escalada de tensões, episódios envolvendo ações diretas contra lideranças do governo venezuelano reforçaram a percepção de uma nova etapa de intervenção, ainda que sem a presença formal de tropas em solo venezuelano.
Leia também: Após ataque, Ministério da Saúde vai enviar material de diálise para a Venezuela
De acordo com a reportagem publicada em Viva, o caso se insere em um padrão mais amplo de atuação americana na América Latina, caracterizado pela combinação de medidas econômicas, políticas e operacionais para influenciar cenários internos considerados estratégicos por Washington.
Da ocupação de ilhas no Caribe no século 19 às movimentações militares no Leste Europeu e à pressão sobre governos latino-americanos no século 21, as intervenções dos EUA revelam uma política externa marcada pela disposição de atuar além de suas fronteiras, muitas vezes trazendo consequências negativas, como extração de recursos naturais, instabilidade política, subdesenvolvimento econômico e conflitos sociais.
Leia também: Juiz marca para 17 de março nova audiência de Maduro em tribunal dos EUA
Confira a seguir a lista das intervenções dos EUA
| ANO | PAÍS | |
| 2026 | Venezuela | |
| 2023 | Sudão, Coreia do Sul, Holanda, Dinamarca e Letônia | |
| 2022 | Romênia, Polônia, Alemanha, Somália, Tonga, Itália, Haiti, Honduras, Guatemala, Colômbia, República Dominicana e Coreia do Sul | |
| 2021 | Afeganistão, Iraque, Haiti e Europa | |
| 2020 | Kuwait, África, Afeganistão, Iraque, Europa, Honduras, Guatemala e Panamá | |
| 2011 | Líbia | |
| 2001 - 2021 | Afeganistão | |
| 2003 | Iraque | |
| 1999 | Sérvia | |
| 1990 - 1991 | Kuwait / Iraque | |
| 1989 | Panamá | |
| 1983 | Granada | |
| 1964 | Brasil | |
| 1954 | Guatemala | |
| 1953 | Irã | |
| 1898 | Cuba |
Leia também: ‘Jack Ryan’: série foi profética ao falar sobre ataque dos EUA à Venezuela?
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
