Alexandre Kalache
Colunista VIVA
02/10/2026 | 09h34
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Gerontólogo e professor, é presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brazil) e co-diretor do Age Friendly Institute. Ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra
Amigo do idoso, amigo de todos: as bases das cidades amigas da pessoa idosa
O ex-diretor da OMS conta como nasceu o projeto de cidades amigas das pessoas idosas, há 20 anos. Na rede global das CAPI há 1750 listadas
Envato
O projeto de cidades amigas dos idosos, iniciado há 20 anos, enfrenta desafios como a falta de monitoramento e a necessidade de garantir que as iniciativas não sejam apenas estratégias políticas temporárias. A ausência de um embasamento teórico e a falta de escuta ativa das pessoas idosas comprometem a eficácia das políticas implementadas.
Atualmente, existem mais de 1.750 cidades registradas na rede global de Cidades Amigas da Pessoa Idosa, mas a simples adesão não é suficiente; é crucial realizar diagnósticos que permitam medir o progresso e garantir a sustentabilidade das iniciativas. A maioria dos projetos tende a beneficiar cidades mais ricas, deixando de lado as necessidades de áreas menos favorecidas.
Medidas para transformar as cidades em ambientes mais amigáveis incluem a implementação do Marco Político do Envelhecimento Ativo, que orienta ações em diversas áreas, como saúde, transporte e moradia. O autor expressa a intenção de desenvolver projetos que atendam também as favelas, buscando garantir que as vozes dos idosos sejam ouvidas e respeitadas em todas as comunidades.
Rio de Janeiro - Vinte anos atrás nascia o projeto de cidades amigas dos idosos. Se me perguntam quais, a meu ver, são os grandes impedimentos para assegurar mudanças tangíveis e duradouras nas cidades que se lançam como mais amigáveis das pessoas idosas eu diria:
- Falta de mecanismos que garantam que o projeto não seja efêmero, um mero joguete político à cata de votos;
- Falta de monitoramento: os governos do dia prometem intervenções que logo são esquecidas;
- Falta de um embasamento teórico, muitos dos projetos são como balões inflados que logo murcham;
- Rigor acadêmico que garanta diagnósticos e monitoramento rigorosos;
- Ausência de mecanismos de escuta que empoderem e ouçam as aspirações e desejos das pessoas idosas locais;
- Envolvimento efetivo da sociedade civil;
- Percepção de que a amigabilidade deve ser intergeracional.
Se amigável a pessoas idosas, as cidades serão amigáveis a todos. O jovem de hoje será o idoso de amanhã"
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Do projeto de Atenção Primária mais amigável às pessoas idosas, iniciado em 2001, meu interesse no amadurecimento e na aplicação do conceito “age friendly” só fez crescer.
Realizamos projetos para empresas (incluindo bancos), hospitais, transporte, universidades, equipamentos de cultura, entre outros. Sempre resguardando o princípio fundamental: "nada para nós sem nós", o protagonismo das pessoas idosas.
Quantas são as cidades amigas da pessoa idosa?
Na rede global das Cidades Amigas da Pessoa Idosa há mais de 1750 listadas. Milhares mais por todo o mundo adaptaram o Guia da Oraganização Mundial da Saúde – calcula-se que mais de 5000.
Mas aqui a grande advertência: não basta registrar-se. É indispensável fazer um diagnóstico de base contra o qual progressos sejam mensurados.
É preciso que as condições para sustentabilidade sejam identificadas. Que os programas decorrentes não sejam efêmeros. Pior, que não sejam joguetes de um governo populista do dia. É preciso transformá-los em políticas de Estado. Infelizmente, uma boa parte dos projetos existentes não oferece tais garantias. E muitos são explorados por interesses politiqueiros. Em pouco tempo, desvanecem.
Como o projeto começou
Enquanto diretor do Departamento de Envelhecimento e curso de Vida da Organização Mundial da Saúde era esperado de mim preparar a OMS de modo a que a Organização tivesse algo substancial a apresentar na II Assembleia Mundial do Envelhecimento, das Nações Unidas, AME-ONU, em Madri, abril 2002.
Inspirado em iniciativas feitas em alguns países, particularmente, o Canadá, realizamos um estudo multicêntrico, envolvendo 12 países, que pudesse criar um modelo “Age Friendly” de Atenção Primária.
Os resultados foram apresentados na AME-ONU com grande repercussão. Os achados resultaram de estudos qualitativos envolvendo usuários e prestadores multidisciplinares de serviços em países tão diversos como Líbano, Quênia, Canadá, Costa Rica, Espanha, Malásia e Cingapura.
Na prática, o estudo produziu um guia de como fazer com que um centro de saúde pudesse melhor atender às necessidades de pacientes idosos, apresentando sugestões em três áreas: administração; treinamento dos profissionais e monitoramento através da ausculta contínua das aspirações dos usuários.
Foi essa a forma que o departamento que então eu dirigia encontrou para sensibilizar a própria Organização para voltar sua atenção para o rápido envelhecimento populacional que se antevia na virada do século. Não foi uma tarefa fácil, face ao peso da tradição histórica da OMS ter suas ações voltadas para doenças infecciosas e saúde materno-infantil.
A porta estava semiaberta. Mas meu objetivo era ir além de equipamentos de saúde, por maior que seja seu papel em promover saúde e responder às necessidades sanitárias da população.
A pergunta fundamental
Foi a essa época que fiquei sabendo que em 2007 a ONU iria declarar que pela primeira vez na história a população urbana globalmente ultrapassaria a população rural. Minha conclusão foi óbvia: envelheceremos rapidamente e cada vez mais as pessoas irão envelhecer em cidades. Estariam elas preparadas? Claramente a resposta simples e direta era não.
Fui aos poucos – e com cautela – preparando o terreno que culminasse em um projeto de âmbito global voltado para preparar melhor as cidades para o envelhecimento implacável que caracterizaria o Século XXI. Cautela era necessária pois as primeiras vezes que levantei a questão internamente a reação foi “isso não é para a OMS, cabe a Habitat ou outras agências”. Confesso que me fiz de desentendido e continuei, na calada, a perseguir meus objetivos.
Uma experiência em Copabacana
A ocasião surgiu no final de 2004 quando a Associação Internacional de Geriatria e Gerontologia (IAGG) convidou-me para fazer a conferência de abertura de seu XVIII Congresso Internacional, que ocorreria em junho de 2005, no Rio de Janeiro. Ao longo do final de 2004 e início de 2005 realizei estudos qualitativos, com o indispensável e generoso suporte de amigos e amigas gerontólogos: grupos focais e entrevistas em profundidade com pessoas idosas moradores do bairro em que nasci e me criei, Copacabana, já o mais envelhecido da América Latina.
Os resultados serviram-me de base para minha palestra de abertura do Congresso. Serviu também aos objetivos de seus organizadores que queriam que eu trouxesse uma ideia "nova”, que chamasse atenção da mídia para o congresso em si e para o envelhecimento populacional, tema ainda muito pouco abordado.
Deu certo. No início da palestra eu pedi para que os participantes – milhares – fechassem os olhos e pensassem em uma palavra ou ideia associada a.... Copacabana.
Previsivelmente pensaram em praia, festivais, esportes, mulheres bonitas, jovens musculosos. Incitados por mim (quem mais pensou de modo similar?) tive o auditório todo de mãos levantadas. Pedi que as baixassem e perguntei: alguém pensou em ‘pessoas idosas’? Ninguém.
Foi então que apresentei alguns dos resultados de nosso estudo informal e improvisado, resumidos em:
- Quem são os melhores amigos dos idosos de Copacabana - os porteiros;
- Quem são os inimigos - o transporte público (ônibus)
- Qual a maior preocupação - segurança (já então!)
A ideia estava lançada em nível internacional. Não dei conta de quantos, de todos os continentes se acercaram após a sessão inaugural do congresso querendo saber mais sobre a metodologia, se poderiam utilizá-la, como fazer... e eu recolhendo seus cartões (não, ainda não havia WhatsApp...só e-mails).
Entre os mais interessados estava a delegação do Canadá. Nos meses seguintes, estive em Ottawa um par de vezes e consolidei amizade com a diretora da Agência de Saúde do Governo Federal (PHAC) Margaret Gills. E dela consegui os dois elementos essenciais para seguir adiante: recursos financeiros para realizar no Canadá uma reunião que aprimorasse a metodologia de ‘como fazer que uma cidade pudesse vir a ser mais ‘amigável’ às pessoas idosas – o Protocolo de Vancouver. E o secondment, uma pessoa experiente cedida pela OMS que pudesse me ajudar, em Genebra, a implementar um estudo multicêntrico em cidades voluntárias, a Dr Louise Plouffe, diretora executiva no PHAC para políticas para o envelhecimento.
Busquei os cartõezinhos colecionados no Congresso do Rio, contatei vários dos que tinham manifestado interesse e rapidamente chegamos ao alvo: 35 cidades mundo afora. Os estudos foram feitos em paralelo ao longo de 2006. Os resultados foram sendo enviados a Genebra e analisados por nossa pequena equipe com a ajuda de outros voluntários, especialmente da Austrália e de Cingapura – além do Brasil, é claro, em particular de Laura Machado, protagonista do estudo inicial de Copacabana. Em outubro de 2007 tínhamos pronto o Guia da OMS para a implementação de projetos que pudessem tornar cidades mais "age friendly”.
As bases do marco político do envelhecimento
Importante dizer que havia um arcabouço acadêmico para a conceitualização do projeto e da ideia: o Marco Político do Envelhecimento Ativo (MPEA), que havíamos lançado na Assembleia da ONU em 2002. Sem o Marco, estaríamos navegando à deriva.
O MPEA é definido com o processo de otimizar as oportunidades para Saúde; aprendizagem ao longo da Vida; direito a participação e; segurança/proteção de modo a envelhecer dignamente, com saúde e habilidades que assegurem trabalho para os queiram ou necessitem trabalhar, com bem-estar, com direitos assegurados, sentindo-se seguros e protegidos.
O MPEA norteia os oito temas estruturantes de uma cidade mais amigável às pessoas idosas:
- Acesso a serviços de Saúde e bem-estar social
- Espaços públicos accessíveis; ou seja, entornos físicos e sociais amigáveis
- Educação permanente
- Cidadania; participação plena na sociedade;
- Transporte;
- Moradia;
- Cuidado e segurança no viver;
- Trabalho para os que queiram ou necessitem
Aspectos transversais foram adotados, como questões de gênero, de classe socioeconômica, informação e comunicação, assim como participação social. Todas essas dimensões mudam de uma cidade para outra tornando indispensável que a voz da pessoa idosa seja sempre escutada e respeitada, de baixo para cima.
No entanto, a imensa maioria dos projetos mundo afora contempla sobretudo as cidades mais ricas, nos países mais ricos.
Seguirei perseguindo meu grande sonho – e sonhos não envelhecem: um projeto pioneiro de ‘favelas mais amigáveis com as pessoas que nelas envelhecem”.
As tentativas que fiz não se concretizaram por motivos vários. Mas jamais ficarei satisfeito ao ver tantas e tantas cidades, até estados ou países que se filiam ao movimento sem um processo rigoroso que assegure continuidade e aprimoramento das condições de vida da população alvo.
Até aglomerados de municípios em torno de um curral eleitoral são criados por interesses populistas e efêmeros – como , em 2018, o lançamento do ‘Brasil Amigo do Idoso” do governo federal, que resultou apenas em oportunidades para “fotos com o ministro em Brasília”, mais de mil prefeitos e do que nada restou.
Que a experiência jamais se repita, não é de fogos de artifício e eventos com autoridades que criaremos sociedades que criem oportunidades para cidadãos de todas as idades.
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