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No ringue contra o Parkinson: aulas de boxe transformam a vida de pacientes

Paula Bulka Durães/VIVA

O treino funcional de alta intensidade preenche uma lacuna que os remédios não conseguem cobrir - Paula Bulka Durães/VIVA
O treino funcional de alta intensidade preenche uma lacuna que os remédios não conseguem cobrir
Por Paula Bulka Durães

10/08/2026 | 16h00 ● Atualizado | 16h26

Belém - Na Amazônia, o som ritmado de luvas colidindo contra sacos de pancada dita o tom em uma arena vibrante. Os comandos são rápidos e diretos: "Jab, cross, hook, uppercut!".

Para quem observa brevemente, o treino preparatório pouco se distancia daquele realizado por boxeadores profissionais. No entanto, os praticantes são, em grande parte, homens e mulheres com mais de 50 anos, alguns com os fios grisalhos já bem aparentes, com passos que outrora hesitaram e mãos que, antes de calçarem as luvas, tremiam.

A arena, equipada com todos os instrumentos de uma academia tradicional, está ligada aos corredores do Hospital Cynthia Charone, em Belém (PA). No complexo hospitalar, o boxe de não contato tornou-se um dos pilares do Programa Multidimensional para Parkinson (PMP), que se propõe a devolver dignidade, força física e autonomia a centenas de pacientes no Norte do País.

A iniciativa foi trazida dos Estados Unidos, em 2018, pela médica oftalmologista Cynthia Charone, após conhecer o método e receber certificação no país norte-americano para aplicá-lo na Amazônia.

O hospital paraense, que inicialmente tratava cataratas e outras condições oftalmológicas, tornou-se com o tempo referência em atendimento geriátrico e gerontológico no cenário nacional e internacional.

Por que o boxe funciona contra o Parkinson?

Pacientes idosas realizam exercícios de alongamento no chão sobre colchonetes.
Pacientes realizam exercícios de alongamento no chão sobre colchonetes. - Paula Bulka Durães/VIVA

A doença de Parkinson é frequentemente associada apenas ao tremor involuntário, mas a rigidez muscular, a lentidão de movimentos e a instabilidade de postura criam barreiras invisíveis que isolam os pacientes do convívio social.

O constrangimento de tremer, salivar em público ou andar de forma lenta gera um processo de retração emocional profundo. Antonio Carlos dos Santos, de 65 anos, paraense nascido no interior, foi diagnosticado com Parkinson em 2017, após enfrentar dificuldades de mobilidade, que inicialmente confundiu com problemas de coluna.

Com o diagnóstico, ele enfrentou a exclusão de atividades cotidianas, como dirigir. "Mexe um pouco com o nosso ego", desabafa. "Há situações na feira que, se você estiver muito devagar, eles empurram a gente. Gritam 'sai da frente'. A gente não caminha mais com velocidade, temos o próprio ritmo."

Em 2021, Santos conseguiu uma vaga no programa do Grupo Cynthia Charone pelo SUS, que estimulou o corpo, a mente e as trocas sociais entre os atletas, criando um senso de comunidade. "Eu não sei como estaria agora se não tivesse encontrado esse grupo", conta.

O circuito, para mim, é como se fosse um remédio da vida. Um remédio de que a gente precisa. Você acredita nas pessoas, que você não vai piorar, que vai estar sempre disposto a lutar contra a doença."

A prática do esporte vai muito além da recreação. O treino funcional de alta intensidade preenche uma lacuna que os remédios, sozinhos, não conseguem cobrir.

A medicação tradicional ajuda a controlar os tremores e a rigidez, mas não é capaz de corrigir a instabilidade postural, que é a principal causa de quedas graves na velhice.

"A intervenção que melhora o desequilíbrio é o exercício mesmo, que não melhora com remédio", afirma a médica geriatra Niele Silva de Moraes, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção Pará (SBGG-PA).

Para contrapor a lentidão motora e cognitiva provocada pela doença, os professores exigem que os alunos falem alto os nomes dos golpes. "Diz o nome do golpe para poder mandar informação para o cérebro", orienta Adriana de Paula, professora de educação física e coordenadora do PMP, durante os treinos intensivos.

Temos a cereja do bolo, que é o boxe. O boxe dá senso de pertencimento para os pacientes, dá ânimo,  emoção maior para que eles possam ter adesão às atividades.Eles deixam de se sentir pacientes e passam a se sentir realmente atletas, boxeadores."

Lutar fortalece a mente e o corpo

Homens idosos praticam boxe de não contato diante de sacos de pancada na academia.
Pacientes com luvas de boxe treinam golpes em sacos de pancada. - Paula Bulka Durães/VIVA

No PMP, a prática do boxe não é apenas uma atividade recreativa; ela é respaldada por rigorosos preceitos gerontológicos. O treino funcional do programa é multicomponente.

De acordo com a geriatra, há uma relação intrínseca entre o emocional e o motor no Parkinson. Sintomas de estresse, ansiedade ou depressão intensificam de forma imediata os tremores e as crises de congelamento muscular, conhecidas como freezing.

Ao oferecer um ambiente focado na socialização, o programa reduz os níveis de estresse dos pacientes, o que estabiliza a parte motora.

A depressão é uma das comorbidades mais severas do Parkinson, que muitas vezes precede os sintomas motores. Para Jorgeane Matos de Loureiro, 56, diagnosticada aos 49 anos enquanto trabalhava no sistema penitenciário do Estado, a notícia inicial foi como uma sentença de morte: "Eu não aceitei".

"Chorei muito, rasguei a receita. Comecei a ter depressão, já vinha pensando em tirar a minha vida, desistir." Após uma severa crise emocional, elaa foi acolhida pelo grupo, também como paciente do SUS. Inicialmente, escondeu da família a doença e para onde ia.

O programa prevê acompanhamento psicológico gratuito e a inclusão no circuito de atividades. Hoje, com o Parkinson estabilizado, Jorgeane não hesita ao escolher sua atividade favorita no PMP. "É o boxe. Eu acho que é onde a gente extravasa tudo aquilo que está sentindo. Põe para fora mesmo. Se sente forte."

Graças a Deus, o Grupo Charone foi tudo na minha vida. Agora, eu só sinto vontade de viver. Viver intensamente."

De acordo com a coordenadora Adriana de Paula, a verdadeira reabilitação se d´´a quando a pessoa com Parkinson volta a enxergar o futuro.

"Eles mudam a mentalidade de ficar pensando na doença neurodegenerativa, progressiva, e trazem a vida para o agora. Eu falo para eles: 'eu preciso acreditar em você, mas você também precisa acreditar em você'. O melhor legado que posso deixar para os meus pacientes é: eu não desisto de você, então você não pode desistir de você."

Cuidado integral

Mulheres idosas de saias coloridas fazem exercícios em arena de boxe para Parkinson
Mulheres de saias coloridas fazem exercícios em arena de boxe para Parkinson. - Paula Bulka Durães/VIVA

No modelo concebido pelo Grupo Cynthia Charone, pacientes do SUS, de convênios médicos e particulares treinam lado a lado, com os mesmos equipamentos, e recebem a mesma qualidade de atendimento.

"São realidades distintas convivendo plenamente. As diretrizes do SUS de igualdade e equidade são vividas na prática", explica a médica oftalmologista e empresária Cynthia Charone.

O PMP integra mais de 10 especialidades que atuam de forma transdisciplinar. Ao ingressar, o paciente passa por uma avaliação primária que identifica seu estado funcional e estabelece as prioridades clínicas. O tratamento contínuo envolve:

  • Terapia ocupacional;
  • Fonoaudiologia;
  • Psicologia;
  • Fisioterapia;
  • Educação física;
  • Nutrição;
  • Artes.

"O boxe é maravilhoso, mas sozinho era incompleto. A gente precisava treinar como fecha um botão, como abre um botão, como falar", afirma Charone.

A médica conta que a missão de atender pelo SUS nasceu após enfrentar a dificuldade de ver seu próprio pai sofrer uma isquemia e ser salvo pela rede pública.

Aquilo que eu não pude fazer pelo meu pai, eu pude fazer pelas outras pessoas. Encontrei o meu propósito: ajudar as pessoas a não morrerem, a não serem abandonadas e a viverem dentro de suas limitações."

A abordagem gerou reconhecimentos internacionais significativos, incluindo prêmios no Japão (2019) e na França (2022), além de uma menção honrosa da ONU/OMS na Década do Envelhecimento Saudável como um serviço de cuidado integrado pioneiro e único na América Latina.

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