Planejamento alivia desgaste de cuidadores de pacientes com Alzheimer
Envato
São Paulo, 23/02/2026 - Estratégias práticas, como planejamento das tarefas diárias e organização da rotina, são mais eficazes para reduzir o estresse e a sobrecarga emocional de cuidadores de pessoas com Alzheimer do que abordagens baseadas apenas em suporte emocional.
A constatação é de um estudo conduzido por pesquisadores da UniCesumar, em parceria com o Instituto Nacional de Cardiologia, a Universidade da Força Aérea e a Universidade Estadual de Maringá, que analisou o perfil e as estratégias de enfrentamento adotadas por 126 cuidadores no Brasil.
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Publicado na revista científica Dementia & Neuropsychologia, o estudo avaliou majoritariamente mulheres, que representam 93,6% da amostra, e identificou que cuidadores que adotam estratégias ativas de resolução de problemas apresentam níveis significativamente menores de estresse e desgaste. Em contrapartida, respostas baseadas em negação, evitação ou culpa estão associadas a maior esgotamento físico e emocional.
O trabalho chama atenção para o impacto social e econômico do cuidado informal, sobretudo em um cenário de crescimento acelerado dos casos de demência no País.
Segundo o Relatório Nacional sobre Demência 2024, cerca de dois milhões de brasileiros vivem com algum tipo de doença desse tipo, e a responsabilidade pelo cuidado recai majoritariamente sobre familiares, em especial mulheres, que frequentemente precisam conciliar trabalho, vida doméstica e cuidados intensivos.
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Quando o emocional atrapalha
Os resultados mostram que cuidadores que adotam estratégias ativas de enfrentamento, como planejamento de tarefas e organização da rotina, apresentam níveis significativamente menores de estresse e sobrecarga. Em contrapartida, estratégias baseadas apenas em emoções, como evitar a situação, negar dificuldades ou se culpar, estão associadas a maior esgotamento.
Embora emoções e religiosidade sejam dimensões importantes da vida do cuidador, quando utilizadas como única estratégia, elas elevam a vulnerabilidade emocional", afirma Daniel Vicentini de Oliveira, professor orientador da UniCesumar.
Outro achado relevante foi a correlação entre a busca por suporte social e maior sobrecarga. "No Brasil, o suporte social disponível ainda é insuficiente ou pouco resolutivo. Muitas vezes, não reduz de forma efetiva o peso emocional e prático do cuidado", explica Vicentini.
Perfil dos cuidadores e atendidos
Entre os participantes, mais de 80% tinham acima de 40 anos, sendo 20% com 60 anos ou mais. A maioria atuava em jornadas prolongadas: 53,2% dedicavam cerca de 12 horas diárias ao cuidado e 65,9% moravam com o idoso. Em 78,6% dos casos, o cuidado era realizado de maneira informal, sem contratação profissional.
Os idosos atendidos eram, em sua maioria, mulheres (80,2%), com mais de 80 anos (60,3%), usuárias de mais de dois medicamentos (88,1%) e diagnosticadas com Alzheimer há menos de quatro anos (51,6%). Os dados corroboram outras pesquisas que mostram que as mulheres, em especial da família, são as principais cuidadoras em casos de doenças degenerativas.
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Sobrecarga intensa
Os principais achados indicam que a maioria dos cuidadores apresenta sobrecarga intensa, associada à natureza progressiva do Alzheimer. Com o avanço da doença, há perda de habilidades cognitivas e funcionais, o que aumenta a dependência e exige mais tempo e esforço de quem cuida.
Esses pacientes frequentemente necessitam de assistência constante em atividades como alimentação, higiene pessoal, mobilidade e manejo de medicamentos, o que leva muitos cuidadores a permanecerem disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana.
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Não podemos esquecer que, cuidar de uma pessoa com Alzheimer pode ser emocionalmente desgastante. Os cuidadores muitas vezes testemunham a deterioração da saúde mental e emocional do paciente, o que pode ser angustiante", pondera o relatório da pesquisa.
O estudo também verificou maior frequência de sobrecarga intensa entre cuidadores que dedicam mais de 12 horas diárias ao cuidado.
Morar com o idoso amplia a exposição às demandas e pode gerar sensação contínua de responsabilidade, elevando a probabilidade de esgotamento, diz o estudo. A presença de outras doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e problemas cardíacos, também aumenta a complexidade do cuidado.
Desafio de saúde pública
A pesquisa destaca que a sobrecarga do cuidador ultrapassa o âmbito individual e se configura como um desafio de saúde pública. Com o aumento dos casos de demência, crescem também os gastos domiciliares, as internações hospitalares e a necessidade de políticas públicas voltadas ao apoio familiar.
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Izabela Marques, coautora do estudo e acadêmica da UniCesumar, afirma que "não se trata apenas de oferecer apoio, mas de preparar essas pessoas para lidar de forma estruturada com os desafios cotidianos".
Segundo ela, ensinar estratégias ativas, como planejamento prático, organização da rotina e busca qualificada por informações, reduz a sensação de impotência e aumenta a percepção de controle do cuidador.
"Essas ações impactam diretamente na saúde mental e na qualidade do cuidado prestado ao paciente, ajudando a reduzir complicações clínicas, internações e a necessidade de institucionalização precoce", complementa.
O estudo reforça que investir em treinamento e em estratégias ativas de enfrentamento melhora a qualidade do cuidado e reduz custos indiretos para famílias e para o sistema de saúde, como conclui Izabela Marques:
Cuidar de alguém com Alzheimer não é apenas uma tarefa prática, é um processo emocional profundo, que exige preparo, informação e suporte contínuo. Se queremos cuidar melhor de quem vive com Alzheimer, precisamos, antes de tudo, cuidar de quem está ao lado todos os dias."
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