Por que os ultraprocessados não têm mais o mesmo gosto? Entenda as mudanças
Foto: Envato Elements
Por Joyce Canele
redacao@viva.com.brNos últimos anos, consumidores brasileiros passaram a perceber que produtos ultraprocessados, como pão de forma, sorvetes, batatas fritas e sobremesas infantis, já não têm o mesmo sabor de antes. A mudança não é impressão, ela ocorre em todo o país e está ligada à reformulação silenciosa de alimentos industrializados, segundo pesquisa da The BMJ, uma das mais influentes e conceituadas publicações sobre medicina no mundo.
De acordo com o estudo, as diferenças se dão por motivos como redução de custos, estratégias de mercado e expansão do consumo de ultraprocessados, especialmente entre populações de menor renda.
Em um post no Instagram, o nutricionista Gustavo Fogaça afirma que, quem cresceu comendo pão de forma simples, sorvete de creme ou iogurte com fruta reconhece a diferença. Ingredientes básicos como leite, farinha, açúcar e gordura animal deram lugar a listas extensas de aditivos industriais.
Leia também: Consumo de ultraprocessados afeta mais a saúde das mulheres; entenda
A indústria alimentícia passou por uma reformulação profunda. Para ampliar margens de lucro e atender à demanda por praticidade, ingredientes naturais foram substituídos por compostos industriais mais baratos.
Gorduras hidrogenadas substituíram manteiga e gordura animal, enquanto xaropes de glicose e frutose tomaram o lugar do açúcar tradicional. Aromas artificiais passaram a imitar sabores que antes vinham de ingredientes reais.
O resultado é um alimento mais estável nas prateleiras, mas menos complexo no paladar. O gosto fica mais uniforme, mais doce ou mais salgado, porém menos autêntico. É por isso que muitos consumidores dizem que doces, sorvetes e lanches 'não têm mais gosto de nada' ou lembram versões artificiais do sabor original.
Leia também: Comer muito doce pode afetar sua saúde mental; veja por quê
Essa transformação não é exclusiva do Brasil, mas aqui ganhou força com a consolidação de um modelo alimentar baseado em ultraprocessados. Esses produtos priorizam durabilidade, padronização e baixo custo, muitas vezes em detrimento do sabor e da qualidade nutricional.
Transformação do sabor
Produtos populares ilustram essa mudança:
O pão de forma, antes levava poucos ingredientes, hoje inclui gordura vegetal hidrogenada, amido modificado, emulsificantes, conservantes e corantes.
O sorvete de creme, antes feito basicamente de leite e creme, passou a conter xaropes, estabilizantes e aromatizantes artificiais.
A batata frita de redes de fast food deixou de ser preparada com gordura animal e passou a usar misturas de óleos vegetais, além de aditivos químicos.
Leia também: O que é índice glicêmico e como os alimentos liberam açúcar no corpo
Até sobremesas infantis, como leites fermentados saborizados, ganharam conservantes, corantes e aromas artificiais.
Ver essa foto no Instagram
Essas alterações explicam não apenas a mudança de sabor, mas também a crescente distância entre o alimento industrializado e sua versão original.
Quem consome mais ultraprocessados?
O padrão de consumo segue uma lógica global. Países ricos, como Estados Unidos e Reino Unido, lideram o consumo absoluto desses produtos, medido em quilos por pessoa. Nessas nações, a dieta baseada em ultraprocessados já está plenamente estabelecida.
Segundo reportagem do VIVA, o crescimento mais acelerado, no entanto, ocorre em países em desenvolvimento. Em Uganda, as vendas desses alimentos aumentaram 60% em poucos anos.
A mesma tendência é observada na América Latina e no Caribe, incluindo o Brasil. A principal explicação está no preço.
Leia também: Apenas 11% dos brasileiros cuidam da saúde em preparação para envelhecimento
Ultraprocessados se tornaram mais baratos e acessíveis do que alimentos frescos e minimamente processados, especialmente para famílias de menor renda.
Impactos além do paladar
O avanço dos ultraprocessados tem reflexos diretos na saúde. O consumo frequente desses produtos está associado ao aumento da obesidade, a problemas intestinais, desequilíbrios hormonais e maior risco de doenças crônicas.
No Brasil, até 20% dos casos de câncer podem estar relacionados a hábitos alimentares inadequados, segundo o Instituto Nacional do Câncer.
Carnes processadas estão classificadas como carcinógenos do grupo 1. Já ultraprocessados concentram açúcares, gorduras de baixa qualidade e aditivos químicos. Enlatados podem conter bisfenol A, substância associada a alterações hormonais, segundo matéria publicada no portal VIVA.
Leia também: Alimentação no domicílio reduz a inflação neste ano, mas em 2026 pode mudar
Mudanças alimentares
O nutricionista aponta que pequenas escolhas fazem diferença, como:
- Cozinhar mais em casa;
- Priorizar alimentos naturais e minimamente processados;
- Escolher produtores locais;
- Evitar óleos vegetais refinados; e
- Ler rótulos com atenção.
Leia também: Com preços em queda, mercado de ultraprocessados avança sem travas em 2026
São estratégias possíveis, para evitar ultraprocessados, e voltar a sentir o sabor dos alimentos.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
