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'Novelinhas de fruta' feitas com IA: o que são e como impactam o cérebro?

Reprodução / Instagram @the.cineia

Com histórias dramáticas e personagens humanóides, vídeos levantam debate sobre desinformação - Reprodução / Instagram @the.cineia
Com histórias dramáticas e personagens humanóides, vídeos levantam debate sobre desinformação
Por Bárbara Ferreira

09/05/2026 | 18h00

São Paulo - As “novelinhas de fruta” dominaram a audiência nas últimas semanas, acumulando milhões de visualizações em diferentes páginas do Instagram e do TikTok. São histórias criadas por meio de inteligência artificial, mas os roteiros são feitos por pessoas.

As frutas adquirem características humanóides e vivem histórias de traição, dificuldades financeiras, festas, relacionamentos, e outros aspectos do dia a dia comum.

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Em uma delas, um Caju idoso tem seu pedido de aposentadoria negado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e chega a passar mal na sala de espera. Como é padrão dos roteiros das novelas de frutas, há uma reviravolta no final: ele finalmente é aprovado. A cena simula uma agência do INSS, inclusive com o logotipo oficial em cartazes e documentos expostos na animação. 

A emoção exagerada - vista em cenas de desmaio, desespero e lágrimas, típicas das novelas de frutas - é o que prende a atenção de quem assiste, segundo o psiquiatra e psicogeriatra Gustavo OmenaPara ele, o ser humano presta mais atenção ao que desperta emoção imediata: indignação, curiosidade, medo ou sensação de recompensa.  

Isso põe em funcionamento a atividade da dopamina do cérebro, que está ligada ao prazer e à expectativa. Ou seja, quando o cérebro percebe as reviravoltas, vingança, certo e errado, ou o desfecho da história, entra em estado de busca constante por resolução, o que gera estímulo, explica o médico.

Os cortes rápidos impedem a queda do foco, a utilização de personagens exagerados facilita identificação, e os roteiros simples reduzem o esforço cognitivo. Quanto menor o esforço mental necessário para compreender algo, maior a chance de o cérebro continuar consumindo”. 

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Como são produzidas as novelinhas de frutas?

Renato Asse, fundador da Comunidade Sem Codar, acredita que essa é a maior revolução na forma de produzir conteúdo na internet desde o YouTube. "Com inteligência artificial (IA), é possível se comunicar na internet e ganhar dinheiro sem mostrar o rosto".

Esse tipo de conteúdo é chamado de “dark” pelo especialista, indicando que é um conteúdo sem a imagem de uma pessoa

Novelinhas de frutas feitas com IA viralizaram nas redes sociais
Novelinhas usam temas reais e cotidianos em seus roteiros - Reprodução / Instagram @the.cineia

Asse afirma que fazer uma história de fruta funciona como um storyboard no cinema, uma sequência de desenhos do que viria a ser o filme. Em uma plataforma de vídeos com IA, basta descrever como será a cena inicial e a cena final que a própria IA entende o contexto e monta o clipe.

Leva cerca de dois minutos para produzir cada trecho de 10 segundos de vídeo, que pode ter áudio. A história é montada como um compilado dessas cenas. “Nenhuma cena dessas novelas tem mais de cinco ou, no máximo, 10 segundos. Porque o máximo da IA, hoje, são vídeos de 10 segundos”, explica o especialista.

A plataforma que cria esse conteúdo custa cerca de R$ 90 por mês e pode produzir infinitos vídeos. “Você só disponibiliza a ideia: ‘no episódio de hoje o Limão vai trair a Moranguinho com o Milho’, por exemplo. Com a ideia, a IA vai construir todas as cenas, todas as imagens. A partir de cada imagem ele gera os vídeos, depois os costura e você tem o vídeo final”, resume.

Para Asser, a parte da IA é simples, o mais complicado seria criar histórias que ganhem o público e gerem engajamento. 

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Como o ser humano é influenciado?

Segundo o médico Gustavo Omena, o cérebro humano aprende por repetição e familiaridade. Ou seja, quanto mais vezes temos contato com uma ideia, maior a tendência do cérebro de considerá-la familiar. É assim que nos formamos enquanto indívudos, e como se criam crenças, preconceitos, medos e até a sensação de normalidade.  

"O cérebro costuma confundir familiaridade com verdade. Por isso, quando uma pessoa passa horas consumindo o mesmo tipo de narrativa, ela começa a alterar sua percepção do mundo”, explicou.

Além da atenção repetida, o cérebro humano tende a preferir conteúdos que apenas reforçam o que já se acredita, o chamado “viés de confirmação”. Assim funciona também o algoritmo das redes sociais, sempre percebendo o que mais agrada cada espectador e entregando mais daquilo.

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Informação e desinformação

Ao mesmo tempo em que as novelinhas desse tipo criam histórias de cotidiano e reality show, outras usam o modelo para repassar desinformação, violência e narrativas sexualizadas. Em paralelo, empresas e órgãos públicos oficiais também estão utilizando as frutas para passar informações verdadeiras, o que pode aumentar a confusão na autoria dos conteúdos.

Para Omena, quando uma fake news aparece em uma embalagem que envolve narrativa emocional, personagem, música, injustiça e sensação de verdade,  ela ativa a identificação e a empatia do público, “deixando de parecer uma informação e passando a parecer experiência”.

É muito mais fácil questionar um dado do que questionar uma emoção que acabou de ser sentida”.

Segundo o psicogeriatra, tudo o que consumimos digitalmente treina o cérebro para entender e enxergar o mundo. Enquanto esses conteúdos são criados para “parecer íntimos,  familiares e afetivos”, o cérebro dos idosos frequentemente interpreta vídeos da internet como companhia, diz, e completa:

"Uma narrativa em forma de historinha emocional pode ser mais marcante do que uma informação verdadeira baseada em dados, porque o cérebro humano não memoriza apenas fatos, mas experiências emocionais”.

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