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Fila do INSS é desafio em ano eleitoral e nova gestão corre contra o tempo

Antonio Cruz/Agência Brasil

Após atingir 3,1 milhões de requerimentos em fevereiro de 2026, o volume recuou para 2,6 milhões em abril - Antonio Cruz/Agência Brasil
Após atingir 3,1 milhões de requerimentos em fevereiro de 2026, o volume recuou para 2,6 milhões em abril
Por Paula Bulka Durães

04/05/2026 | 11h54

São Paulo - Aposentadoria é tema sensível em ano de campanha eleitoral. O tamanho da fila para pessoas conseguirem seus benefícios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) deve agitar o debate nas Eleições 2026. Afinal, a fila do INSS ultrapassou a marca de 3 milhões de pedidos em 2025, um aumento de quase 200% em relação ao ano anterior. Após atingir 3,1 milhões de requerimentos em fevereiro de 2026, o volume recuou para 2,6 milhões em abril, segundo dados do Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS). 

Para tentar reverter o cenário em ano eleitoral, o governo federal promoveu mudanças na cúpula da autarquia: Gilberto Waller Júnior foi exonerado da presidência em abril, e, em seu lugar, assumiu Ana Cristina Viana Silveira, servidora de carreira desde 2003. Ela chega com a missão imediata de simplificar processos e acelerar a concessão de benefícios.

Leia também: Nova presidente do INSS reduziu fila de processos em 61%

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Com a troca de comando, surge a pressão por resultados de curtíssimo prazo. Em entrevista ao Voz do Brasil, no começo de abril, a presidente se disse preparada para promover uma redução expressiva. “Eu conheço os fluxos de trabalho. Com esse olhar, a gente vai conseguir otimizar, trazer mais rapidez”.

Para o especialista em Direito Previdenciário Washington Barbosa, membro da comissão técnica da CPMI do INSS, Silveira enfrentará um desafio contra o relógio. "Nós estamos falando de menos de seis meses até as eleições", pondera.

Na avaliação do diretor do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), Alexandre Triches, uma redução drástica — como cortar a fila pela metade até outubro, mês do primeiro turno — é irreal. "Eu acho inviável essa redução. Ela não vai ocorrer em patamares tão elevados."

Embora ambos os especialistas elogiem o perfil técnico de Ana Silveira, Triches alerta que o INSS é complexo e "envolve interesses políticos pesados e uma estrutura gigantesca".

Na campanha eleitoral de 2022 e no início do mandato em 2023, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, prometeu zerar a fila do INSS, que na época se concentrava cerca de um milhão de pedidos. 

Segundo o diretor, a falta de investimento profundo em inovação limita o alcance das medidas. "A promessa de governo que de fato foi feita, e certamente vai ser cobrada nas eleições, vai ficar inconclusa", diz.

Depoimento de quem está na fila

Para a trabalhadora de serviços gerais Sandra Mary Guimarães, de 51 anos, a fila não é apenas um debate político ou uma estatística orçamentária.

Afastada por artrose, ela enviou seus atestados pelo Atestmed — sistema digital de perícia incentivado pelo governo —, mas teve a documentação rejeitada, obrigada a agendar uma perícia presencial para semanas depois.

Leia também: Para reduzir fila, INSS proíbe segurado de fazer pedidos duplicados

Quando o médico estendeu o afastamento, o ciclo de rejeição digital e espera se repetiu. Ao todo, foram 154 dias na fila, lidando com dores intensas e sem receber salário. "O INSS não paga. Eu voltei a trabalhar mesmo com restrições pela minha necessidade financeira", relata Sandra.

É humilhante. Eu estava inteira travada, sem conseguir andar direito, e a perita colocou no laudo que eu marchava normalmente."

Tempo de concessão é gargalo 

Além do volume absoluto de pedidos, o Ministério da Previdência enfrenta outro gargalo: o Tempo Médio de Concessão (TMC). Por lei, o prazo limite deveria ser de 45 dias, mas atingiu 68 dias em fevereiro, fechando março em 54.

O professor da FGV Ebape, Kaizô Beltrão, ressalta que o dado fica mais grave ao analisar os recortes regionais. "O Distrito Federal levava 24 dias em 2024; em 2025, levou 33 dias. O Amapá, que levava 90 dias em 2024, passou a levar 101 dias", exemplifica.

Leia também: INSS lança programa para redução da fila de espera de aposentadoria

Na tentativa de conter essas distorções, o governo instituiu uma fila única nacional em janeiro de 2026. "É como entrar no supermercado com cinco caixas. Você pode pegar um caixa bom ou um ruim, mas se a fila for única, isso não importa. A fila termina quando a pessoa recebe o benefício", analisa o professor.

Em março de 2026, mesmo com as baixas na fila, o INSS registrou 796.798 benefícios indeferidos, uma taxa de rejeição de 47%. Os principais fatores de negativa são, segundo a autarquia:

  • Não comprovação de incapacidade durante a perícia médica;
  • Não enquadramento nos critérios de deficiência ou limite de renda para o BPC/LOAS;
  • Falta de tempo de contribuição ou idade mínima pós-Reforma da Previdência.

Digitalização deu visibilidade a fila

Washington Barbosa relembra que a fila sempre existiu, mas de forma física e degradante nas portas das agências. "A fila não parecia tão grande porque o governo só distribuía a quantidade de senhas que dava conta de atender, escondendo a demanda real."

Com a implementação do INSS Digital a partir de 2017 e a criação do aplicativo "Meu INSS", a demanda de milhões de brasileiros ficou ainda mais evidente. "A fila virou eletrônica e todos puderam dar entrada nos pedidos. Esse foi o primeiro boom, que apenas tirou a fila debaixo do tapete", diz.

"A promessa era reduzir custos, o que ocorreu com a diminuição de servidores e o fechamento de agências. O problema é que o atendimento automatizado e eficiente não foi implementado", critica o diretor do IBDP, Alexandre Triches.

Em nota técnica recente, o INSS acusou a Dataprev de apresentar quedas constantes entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2026, gerando um prejuízo superior a R$ 233 milhões por impossibilitar o trabalho dos servidores.

No início de gestão, a nova presidente do INSS prometeu o aprimoramento tecnológico, com reuniões semanais com a Dataprev e uma atualização do aplicativo Meu INSS, tornando-o mais intuitivo ao aposentado.

Leia também: INSS responsabiliza Dataprev por travar fila e gerar rombo de R$ 233 mi

Para o professor da FGV Ebape, a exclusão digital afeta diretamente a população mais vulnerável. "A maior parte desse pessoal não é alfabetizada na internet", pontua Kaizô Beltrão.

Ele cita, inclusive, falhas excludentes do sistema: devido à sua ascendência asiática, o reconhecimento facial do aplicativo exigia absurdamente que ele "abrisse mais os olhos" para validar o acesso.

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