INSS tem alta de 438% nos afastamentos por vício em apostas em dois anos
Estudo do Ministério do Trabalho aponta alta de 67 para 361 beneficiários entre 2023 e 2025; homens de 30 a 39 anos lideram os casos
Rafael Carvalho/INSS
O número de trabalhadores que receberam benefícios por incapacidade temporária devido a transtorno do jogo aumentou 438,8% entre 2023 e 2025, conforme estudo do Ministério do Trabalho e Emprego, refletindo um crescimento preocupante na incidência dessa condição entre os trabalhadores brasileiros.
Em 2025, 361 pessoas foram beneficiadas, com a maioria dos casos concentrados em homens e na faixa etária de 30 a 39 anos, sendo os setores de serviços, indústria e comércio os mais afetados.
Em resposta ao aumento dos casos, o presidente Lula assinou uma medida provisória que encerra as plataformas de apostas no Brasil, enquanto especialistas pedem por mais restrições e apoio à saúde mental dos trabalhadores afetados por esse vício.
São Paulo - O número de trabalhadores que receberam benefício por incapacidade temporária do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por transtorno do jogo, também conhecido como ludopatia, aumentou cerca de 438,8% entre 2023 e 2025. Os dados são de um estudo do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), divulgado nesta quarta-feira, 28, e elaborado pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho (SEET).
Segundo o levantamento, 67 pessoas receberam o benefício em 2023. Em 2024, foram 157 beneficiários. Já em 2025, o número chegou a 361. A análise considera casos identificados pelo código CID F63.0, referente ao jogo patológico, como diagnóstico principal ou secundário.
O estudo abrange diferentes modalidades de jogos, com casos mais recentemente associados às apostas eletrônicas, conhecidas como bets.
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou, em 25 de setembro, a MP 1.394/2026, que determina o encerramento das plataformas de apostas autorizadas no Brasil.
Uma pesquisa do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), publicado em agosto deste ano, estimou que as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025.
No entanto, os dados da plataforma não permitem afirmar que a expansão das plataformas tenha causado diretamente o aumento dos afastamentos.
Perfil dos trabalhadores afastados pelo INSS
Entre os trabalhadores com vínculos empregatícios ativos que receberam o benefício entre 2023 e 2025, 71% eram homens e 29% eram mulheres.
A faixa etária de 30 a 39 anos concentrou a maior parcela dos casos, com 44,1%. Em seguida, aparecem os trabalhadores de 40 a 49 anos, que representaram 22,8%, e os de 25 a 29 anos, com 17,1%.
Os serviços concentraram 54% dos trabalhadores com vínculos ativos afastados por transtorno do jogo. A indústria respondeu por 23% dos casos, enquanto o comércio representou 20%. Outras atividades corresponderam a 2,8%.
De acordo com Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do MTE, os dados reforçam a necessidade de medidas de restrição aos jogos eletrônicos para proteger a saúde mental da população, especialmente de trabalhadores que enfrentam endividamento relacionado às apostas.
Os poucos dados disponíveis são bastante claros em relação ao vício que os jogos eletrônicos criam. Precisamos afastar essa ameaça da vida de crianças, adolescentes e adultos em todas as regiões do País.
Paula Montagner, subsecretária do MTE
Transtorno do jogo pode afetar a vida profissional
O benefício por incapacidade temporária é destinado ao segurado que fica impossibilitado de exercer suas atividades profissionais por determinado período, desde que cumpra os requisitos previdenciários. Nos casos relacionados ao transtorno do jogo, os afastamentos indicam que os prejuízos podem comprometer também a rotina de trabalho.
“Nem toda pessoa que aposta desenvolve um transtorno, e esse cuidado é importante para evitar diagnósticos precipitados. O alerta aparece quando existe perda de controle, repetição apesar das consequências e comprometimento significativo da vida", afirma a psicóloga Êdela Aparecida Nicoletti.
Entre os sinais de alerta estão a dificuldade de controlar as apostas, a tentativa de recuperar dinheiro perdido com novos jogos e a continuidade do comportamento mesmo diante de problemas financeiros, familiares ou profissionais.
"Quanto antes esses sinais são reconhecidos, maiores são as possibilidades de procurar ajuda e construir alternativas ao comportamento”, acrescenta Êdela.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o transtorno do jogo entre os transtornos decorrentes de comportamentos aditivos. A frequência das apostas, isoladamente, não determina um diagnóstico, que depende de avaliação profissional.
Como as plataformas deixaram de operar em 6 de outubro, a especialista destaca que os dados sobre afastamentos se referem ao período anterior à proibição e ainda não permitem avaliar os efeitos da nova política sobre a ocorrência do transtorno do jogo.
Além disso, o crescimento dos registros previdenciários ocorre em meio a uma ampliação da procura por assistência. Segundo o Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025.
Pessoas que identificam prejuízos relacionados às apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). O Sistema Único de Saúde (SUS) também oferece atendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares.
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