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'Feminicídio não existe'? Autora da lei e uma sobrevivente do crime contestam

Tema ganhou corpo no debate político nessas eleições após a deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL) afirmar que "feminicídio não existe"

Bárbara Ferreira

Por Bárbara Ferreira

29/10/2026 | 11h43 ● Atualizado | 12h26

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O Brasil teve 4 vítimas de feminicídio por dia no ano passado - Pexels
O Brasil teve 4 vítimas de feminicídio por dia no ano passado
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Gabrielli Ricardo foi atacada pelo ex-companheiro em uma tentativa de feminicídio na frente da filha. O caso destaca a gravidade da violência doméstica, com Gabrielli tendo registrado 18 ocorrências anteriores contra o agressor.

A Lei do Feminicídio hoje classifica o feminicídio como um crime autônomo, com penas mais severas. A nova legislação, aprovada em 2024, estabelece penas de 20 a 40 anos para o crime, aumentando a proteção legal para as vítimas.

Apesar do avanço legal, a deputada estadual Eduarda Campopiano questionou a existência do feminicídio, gerando controvérsia no debate político.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Gabrielli Ricardo voltava para casa com a filha de sete anos, depois de um dia de pescaria, quando o pai da criança pediu para buscá-la. Os dois se separaram quando a menina tinha três meses, época em que a nutricionista fez o primeiro boletim de ocorrência por violência doméstica contra o ex-companheiro. Ao todo, foram 18 ocorrências na polícia.

Naquele dia, Gabrielli foi esfaqueada com um canivete, na frente da filha. No chão, recebeu chutes e pontapés do ex-companheiro e da namorada dele - que também foi agredida meses depois. A criança tentou parar o pai, sem sucesso. Ao se levantar, ensanguentada, a vítima se dirigiu primeiro para um hospital e depois para a delegacia.

Foi muito difícil, minha filha presenciou. Não consegui me defender. Estou viva porque realmente não era minha hora. 
Gabrielli Ricardo, sobrevivente de tentativa de feminicídio

Lei do feminicídio

O caso aconteceu em 2025, quando o Brasil registrou 4 vítimas de feminicídio por dia, o maior número na década. Mesmo com os dados de dezembro ainda incompletos, segundo balanço do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), foram 1.470 casos no ano.

Segundo o Código Penal, feminicídio é um crime contra a mulher "por razões da condição de sexo feminino", que envolve violência doméstica e familiar, e menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

A senadora Margareth Buzetti (PSD-MT) é a criadora do projeto de lei que tornou Feminicídio um crime autônomo
A senadora Margareth Buzetti (PP-MT) é a criadora do projeto de lei que tornou feminicídio um crime autônomo - Pedro França / Agência Senado

Em 2024, com a aprovação da Lei nº 14.994, o feminicídio tornou-se um crime autônomo do homicídio. Com a "Lei do Feminicídio", a pena passou a ser de 20 a 40 anos de prisão, maior do que a pena de homicídio qualificado (12 a 30 anos de reclusão). A autoria do projeto de lei foi da então senadora Margareth Buzetti (PP-MT).

O texto diz que para tentativas de feminicídio aplica-se a pena do crime consumado mas reduzida, dependendo de quão próximo o autor esteve de matar. A pena pode aumentar se a mulher estiver grávida ou o crime for cometido na frente de crianças, idosos, pessoas com deficiência ou filhos da vítima.

Quem disse que 'feminicídio não existe'?

Eduarda Campopiano (PL) oi a deputada mais votada de São Paulo, com mais de 1,9 milhão de votos
Eduarda Campopiano (PL) oi a deputada mais votada de São Paulo, com mais de 1,9 milhão de votos - Reprodução - Instagram @eduarda_campopiano

Apesar da segurança das mulheres ter ganhado espaço no discurso político, o feminicídio foi tema de debate das Eleições 2026 depois que a deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL) afirmar que "feminicídio não existe" e que a tipificação penal seria uma "armadilha semântica".

Ela foi a mais votada de São Paulo, com 1,9 milhão de votos. Conservadora, Campopiano se considera "a maior inimiga das feministas".

Margareth Buzetti, criadora do projeto de lei, rebate o argumento: "Homem também morre, mas não dentro de casa, cuidando de criança e lavando roupa. Ele morre por outras coisas". Buzetti considerou a fala de Campopiano um "retrocesso".

A lei é muito importante. Olha, eu nunca me achei uma pessoa feminista extremista. Quer mais conservadora do que eu? Mas não aceito isso, não posso aceitar. Como ser humano e como cidadã, não aceito.
Margareth Buzetti (PP), ex-senadora e autora do PL sobre feminicídio

Segundo a ex-senadora, o crime precisou ser autônomo para que advogados não conseguissem desqualificar o feminicídio.

A equipe da senadora fez um levantamento dos últimos dois anos de condenações por feminicídio consumado, em publicações de Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e jornais. Foram condenados por esta lei:

  • 136 feminicídios consumados
  • 43 tentativas de feminicídio

Mulheres na política

A cientista política Simone Boró explica um fenômeno político: nem todo parlamentar de um grupo minoritário defende pautas desse grupo. Eduarda Campopiano é exemplo disso, uma mulher jovem, de 23 anos, ocupando um espaço historicamente dominado por homens mais velhos. Mesmo que a eleição dela aumente a presença feminina na Assembleia Legislativa, ela rejeita as pautas identitárias de gênero. 

"Essa desconexão mostra que a presença física de uma minoria em espaços de poder não se traduz automaticamente em uma agenda política de ampliação de direitos para esse mesmo grupo", aponta Simone Boró. A pesquisadora atua no Centro de Estudos e Opinião Pública (CESOP) da Unicamp e do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições (NIPE) do Cebrap.

"Eduarda Campopiano usa sua posição como mulher e jovem para combater de forma substantiva as agendas propostas pelo próprio movimento feminista. Normaliza discursos excludentes, utilizando o fato de ela ser uma mulher jovem para tentar blindar ou validar ideias que agridem os direitos das próprias mulheres", afirma.

O VIVA entrou em contato com a assessoria da deputada Eduarda Campopiano solicitando posicionamento, mas não obteve resposta até o momento. O espaço segue aberto para manifestação da parlamentar.

Como obter mais informações e ajuda

Gabrielli fez 18 boletins de ocorrência relatando as agressões e ameaças que sofria do ex-companheiro, mas só se sentiu ouvida quando esteve no Ministério Público (MP) após sobreviver à tentativa de feminicídio. O MP tem uma área especializada para violência doméstica.

Lá, ela é acompanhada por assistentes sociais e psicólogas, no programa Bem Querer Mulher. Gabrielli considera as profissionais do Bem Querer Mulher sua rede de apoio, e depois de se estabilizar emocionalmente, decidiu contar sua história em rodas de conversa com mulheres para inspirá-las a buscar ajuda.

Por não ter informação suficiente, acaba que a gente volta para casa e espera a próxima. Na maioria das vezes, não tem estrutura financeira, não tem nada. Falta justamente essa questão da informação".
Gabrielli Ricardo, sobrevivente

A sobrevivente mantém seu endereço em segredo, e continua recebendo ameaças do ex, que está solto. 

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