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Ex-taquígrafa da Câmara dos Deputados vira escritora após aposentadoria

Arquivo pessoal

Geane Nascimento, de 60 anos, trabalhou por 36 anos na Câmara dos Deputados - Arquivo pessoal
Geane Nascimento, de 60 anos, trabalhou por 36 anos na Câmara dos Deputados
Por Alexandre Barreto

18/03/2026 | 15h21

São Paulo - “A vida me quer vivendo”, resume Geane Nascimento, de 60 anos, ao falar da própria trajetória. Ex-taquígrafa, trabalhou por 36 anos na Câmara dos Deputados, acompanhando discursos presidenciais e momentos marcantes da democracia. Após se aposentar, em 2024, decidiu seguir novos caminhos: além do amor pelo samba, passou a se dedicar também à própria escrita.

Eu passei a vida escrevendo o protagonismo dos parlamentares. Chegou a hora de escrever o meu protagonismo, do protagonismo do meu povo, atravessado pelos saberes e pelas coisas que me forjaram”, afirma em entrevista ao VIVA.

Carioca e mãe de dois filhos, ela mora atualmente em Brasília. É formada em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), onde iniciou o curso em 1985, e, em 1989, começou a atuar como servidora pública.

“Durante quatro anos da minha vida, eu comia e dormia pouquíssimo, como acredito que muitos de nós, pessoas negras, fazem, porque não temos as mesmas oportunidades que uma pessoa branca. Sabemos que, para nós, tudo é mais difícil e, para conquistar algo, furar algumas bolhas, temos que nos esforçar muito mais. E comigo não foi diferente”, relata.

Geane Nascimento diz que o interesse pela taquigrafia surgiu ainda na juventude
Geane Nascimento diz que o interesse pela taquigrafia surgiu ainda na juventude - Arquivo pessoal

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Já mãe de seu primeiro filho, ela fazia estágio em tempo integral e estudava para concurso, até que veio a aprovação. Geane diz que o interesse pela taquigrafia surgiu ainda na juventude, quando viu alguém estudando a técnica e se interessou pelos símbolos utilizados.

“Achei interessante, comecei a praticar e me apaixonei. Quando soube da possibilidade da carreira, que era promissora, me dediquei a fundo”, disse.

Antes mesmo de concluir a graduação em psicologia na UnB, ela já havia ingressado na área. Primeiro atuou no Judiciário e, depois, conquistou uma vaga por concurso na Câmara dos Deputados.

“Eu comecei no tribunal quando ainda era estudante do ensino secundário e depois que me formei em psicologia na UnB continuei exercendo a profissão de taquígrafa, já concursada pela Câmara”, diz.

"A palavra final é a do taquígrafo"

Para quem não conhece a profissão, o trabalho do taquígrafo pode parecer invisível, embora seja essencial para o funcionamento das instituições. No Congresso Nacional, esses profissionais registram com precisão tudo o que é dito em plenário e em determinadas comissões, produzindo documentos oficiais que integram os anais do Parlamento.

“O taquígrafo transforma a linguagem falada na linguagem escrita. Taquí significa velocidade e grafia é escrita. A gente escreve não em letras, mas em fonemas. Por isso conseguimos acompanhar uma pessoa falando em média entre 100 e 120 palavras por minuto”, explica Geane.

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Esse registro tem valor institucional e jurídico. As falas anotadas pelos taquígrafos servem como referência para parlamentares, pesquisadores e cidadãos que consultam os debates públicos.

Vivemos em uma época de fake news. A presença do taquígrafo no plenário tem fé pública. O que é dito e anotado pela taquigrafia pode ser usado como recurso pelos próprios parlamentares. A palavra final é a palavra do taquígrafo".

Além da rapidez na escrita, o trabalho exige formação sólida e constante atualização. Geane explica que é necessário ter amplo domínio da língua portuguesa, cultura geral e, no caso da Câmara, conhecer o regimento interno e diversas especificidades. Também destaca a importância de saber línguas estrangeiras e acompanhar as mudanças tecnológicas.

Geane Nascimento, no dia 1º de fevereiro de 2023, dia da posse dos deputados da atual legislatura
Geane Nascimento, no dia 1º de fevereiro de 2023, dia da posse dos deputados da atual legislatura - Arquivo pessoal

A posição do taquígrafo no plenário oferece uma perspectiva privilegiada da política brasileira. “O taquígrafo fica abaixo da mesa da presidência, tanto da Câmara quanto do Senado. A história acontece aos nossos olhos e é registrada pelas nossas mãos”, conta Geane.

Entre os muitos episódios que testemunhou ao longo da carreira, um dos que mais a marcou foi o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, que mobilizou intensamente a equipe de taquigrafia.

“Trabalhávamos diuturnamente. Fazíamos escalas de seis horas de trabalho e praticamente oito horas depois já tínhamos que retornar. Vivenciar aquela mudança dentro da democracia foi muito importante”, relata.

"A minha voz não é só minha"

A aposentadoria de Geane veio em 2024, embora a possibilidade já existisse desde o ano anterior. Em 2023, ela foi convidada pela bancada negra da Casa para participar da curadoria de uma exposição sobre o Dia da Consciência Negra.

“Eu e mais dois colegas assinamos a curadoria da exposição e eu gostei muito de me ver em outro protagonismo, podendo falar sobre a questão da racialidade, que é algo que muito me interessa”, diz.

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A experiência reforçou seu interesse em ampliar o debate público sobre o tema e também contribuiu para a decisão de iniciar novos projetos.

Ao longo de mais de três décadas de carreira, Geane refletiu sobre o lugar ocupado por pessoas negras em espaços institucionais como o Congresso Nacional. Para ela, ocupar esse espaço sempre representou uma responsabilidade coletiva.

Eu praticamente era a única pessoa negra retinta no meu departamento de taquigrafia. Existem algumas pessoas negras de pele mais clara, mas ainda são poucas”, relata.

“Eu sei que não estou sozinha. Cheguei lá porque muitos vieram antes de mim abrindo caminho. E eu sei que sirvo de inspiração para muitas meninas e muitas pessoas negras que vêm depois”, complementa.

A consciência desse papel também influenciou sua decisão de escrever sobre uma população que, segundo ela, muitas vezes é silenciada.

Eu gosto de dizer que eu sou porque nós somos. A minha voz não é só minha. Ela é a voz de um coletivo”, afirma.

"Sigo vivendo e escrevendo"

Nascida em Madureira, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, Geane cresceu em um ambiente profundamente ligado ao carnaval e à escola de samba Portela. “Eu nasci no hospital da Portela. O meu avô [Natal Nascimento] deu 19 campeonatos dos 22 que a escola tem, durante a gestão dele como presidente.”

A ligação com o Carnaval permanece até hoje e funciona como um momento de reconexão com as próprias raízes. “Eu digo que o meu ano só começa depois do carnaval. É quando eu encontro minha família e ritualizo tudo o que aquilo simboliza.”

Geane Nascimento
Geane Nascimento cresceu em um ambiente ligado a escola de samba Portela - Arquivo pessoal

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A nova fase como escritora surgiu após um episódio marcante dentro do plenário da Câmara, quando ouviu discursos que a impactaram profundamente. “Eu tive uma catarse dentro do plenário. Comecei a tremer, a chorar, porque aquele discurso de ódio atravessou o meu corpo.”

“Ali eu entendi que tinha passado a vida escrevendo o protagonismo dos parlamentares e que já era hora de escrever sobre o meu próprio protagonismo e sobre o protagonismo do meu povo”, complementa.

Geane ainda não publicou livros, mas já trabalha em projetos literários que devem abordar política, cultura, racialidade e experiências pessoais. Aos 60 anos, iniciando uma nova fase profissional, ela acredita que a aposentadoria pode ser um momento de reinvenção.

A primeira coisa que eu indico é parar, silenciar e se ouvir. Muitas vezes a gente fica tão preso à rotina que perde a conexão consigo mesmo.”

Segundo ela, todas as pessoas carregam potencialidades que podem se manifestar em diferentes momentos da vida. “Todos nós temos multipotencialidades. Nascemos com uma carga de genialidade fantástica, mas muitas vezes acreditamos que não podemos ir adiante.”

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Para quem teme começar algo novo mais tarde, ela deixa um conselho simples, mas eficaz: “Se uma pessoa conquista, outras também podem conquistar. Os 50 ou 60 anos não é o fim de nada. Muitas vezes é só o começo de uma nova carreira.”

Depois de anos registrando discursos que ajudaram a compor a memória política do País, Geane Nascimento se inspira em grandes nomes como Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Lélia Gonzaga, Grada Kilomba, Bell Hooks e agora se dedica a contar a própria história e a refletir sobre os caminhos que a trouxeram até aqui.

A vida me quer vivendo. E eu sigo vivendo, escrevendo e deixando um legado para quem vem depois”, finaliza a futura escritora.

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