Um em cada três brasileiros faria plástica se fosse gratuita, diz pesquisa
Levantamento do Datafolha mostra maior interesse feminino na plástica e especialistas alertam para "síndrome da feiura imaginária" e promessas milagrosas
Por Estadão Conteúdo
26/10/2026 | 18h30Adobe Stock
Uma pesquisa do Datafolha revelou que 31% dos brasileiros têm algum interesse em realizar cirurgias plásticas gratuitas, com as mulheres demonstrando maior interesse em comparação aos homens.
Os dados indicam que 88% das cirurgias estéticas de médio e grande porte realizadas no ano passado foram feitas por mulheres, levantando questões sobre a relação das pessoas com seus corpos e a influência das redes sociais na percepção da beleza.
Especialistas alertam para a importância de entender as motivações por trás do desejo de procedimentos estéticos, enfatizando a necessidade de uma avaliação profissional para alinhar expectativas e realidades, evitando assim riscos emocionais e físicos.
São Paulo - Imagine que você pudesse fazer uma cirurgia plástica gratuitamente. Qual seria o seu nível de interesse no procedimento? Essa pergunta foi apresentada a 2.086 brasileiros com 16 anos ou mais em uma pesquisa encomendada ao Datafolha pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Cerca de 19% dos entrevistados responderam "algum interesse" e 12% disseram ter "muito interesse".
As mulheres apareceram como as principais interessadas: 41% responderam ter "algum" ou "muito" interesse, contra 22% dos homens.
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O público feminino também é maioria no grupo daqueles que já realizaram cirurgias plásticas. Considerando apenas as cirurgias estéticas de médio e grande porte feitas no ano passado, 88% dos pacientes eram mulheres, segundo os cirurgiões plásticos consultados em outro braço do levantamento do Datafolha.
Os números geram questionamentos sobre a relação das pessoas com o próprio corpo. O incentivo à magreza nas redes sociais, por exemplo, pode favorecer percepções distorcidas.
Por isso, ante o desejo de realizar um procedimento estético, é necessário entender as motivações.
Autoestima ou frustração emocional?
É importante avaliar se a busca pelo procedimento parte de um desejo de resgatar a autoestima ou de uma tentativa de tratar frustrações emocionais, como em casos relacionados a transtornos de imagem, afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Arthur Kaufman, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Ele dá o exemplo da dismorfia corporal ou "síndrome da feiura imaginária". "São pessoas que enxergam defeitos nelas próprias que só elas enxergam. Elas gastam fortunas em dentista, cirurgião plástico, dermatologista, todo mundo que lida com algum tipo de estética. Não podem ver um espelho que ficam se medindo, se comparando. Aí já é um caso doente", comenta o psiquiatra.
Quanto mais vulnerável psicologicamente, maior a possibilidade de o paciente depositar esperanças exageradas na cirurgia plástica - e maior a importância de um profissional que saiba avaliar a situação e as expectativas.
Não existem soluções milagrosas. Promessa de milagre quase sempre é golpe.
Marcelo Sampaio, cirurgião plástico e presidente da SBCP
Ele defende que o cirurgião plástico é o médico adequado para alinhar as expectativas e a realidade e o profissional capaz de intervir caso haja alguma intercorrência no procedimento.
Do ponto de vista psiquiátrico, a chave para evitar escolhas arriscadas está na percepção de limite do próprio paciente.
O envelhecimento é inevitável, mas a decadência não. A autoconsciência é a principal ferramenta para que a pessoa não seja enganada por falsas promessas e busque o profissional correto quando decidir mudar algo no corpo.
Arthur Kaufman, professor do Departamento de Psiquiatria da USP
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