Canetas emagrecedoras: especialistas defendem acesso via SUS e planos
Especialistas explicaram que a incorporação dos tratamentos nas redes pública e privada deve considerar os benefícios clínicos
Por Estadão Conteúdo
28/10/2026 | 08h00Adobe Stock
A introdução de medicamentos modernos para tratar a obesidade no Brasil está transformando a abordagem da doença, mas o acesso a esses tratamentos ainda é limitado, pois não estão disponíveis na rede pública nem na saúde suplementar.
Especialistas destacam que os novos medicamentos, como os agonistas do receptor de GLP-1, não apenas promovem a perda de peso, mas também melhoram condições de saúde associadas à obesidade, como doenças cardiovasculares e hepáticas.
A discussão sobre a incorporação desses medicamentos envolve a avaliação de sua segurança, efetividade e custo, além da necessidade de um acompanhamento clínico adequado, com a proposta de um programa de cuidados mais abrangente para os pacientes.
São Paulo - A chegada de medicamentos mais modernos e eficazes para tratar a obesidade tem mudado a abordagem da doença, com resultados que vão além da perda de peso. No entanto, mesmo com os avanços, o acesso às chamadas canetas para obesidade ainda é um desafio no Brasil, já que elas não são oferecidas pela rede pública nem pela saúde suplementar.
Durante o Summit Saúde, promovido pelo Estadão nesta terça-feira 27, em São Paulo, especialistas explicaram que a incorporação dos tratamentos nas redes pública e privada deve considerar os benefícios clínicos, os custos para os sistemas de saúde e a necessidade de acompanhamento dos pacientes a longo prazo.
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Bruno Geloneze, professor livre-docente em Endocrinologia pela Unicamp, e Márcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade da Disciplina de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), participaram do debate e destacaram que os medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como aqueles à base de semaglutida e tirzepatida, marcam uma mudança importante no tratamento da obesidade e do diabetes.
Banalização das canetas
Para Geloneze, os novos medicamentos representam uma revolução diante da disparada dos índices de obesidade entre a população brasileira e das limitações dos tratamentos disponíveis até então. “O mais importante é que são seguros, não causam os problemas do passado e podem ser usados continuamente”, afirmou.
Ele aproveitou para fazer uma ressalva em relação à popularização do termo “canetas emagrecedoras”, já que a expressão pode reforçar a percepção errônea de que a obesidade é resultado da falta de força de vontade ou uma mera questão estética.
Essa banalização também pode favorecer o uso inadequado dos medicamentos, sem priorizar os pacientes que mais podem se beneficiar deles, alertaram os especialistas ao longo do painel, que contou com a moderação da editora do Pulsa, Thaís Manarini.
O médico Helton Freitas, presidente da Seguros Unimed, por sua vez, chamou a atenção para a necessidade de avaliar a sustentabilidade financeira para a saúde suplementar e estabelecer critérios para a indicação das canetas no setor privado.
Tratamento vai além da perda de peso
Um dos diferenciais dos novos medicamentos, segundo Mancini, é a possibilidade de melhorar condições de saúde associadas à obesidade, e não apenas reduzir o peso corporal. O médico citou estudos que apontam benefícios relacionados à insuficiência cardíaca, à fibrose hepática e à redução de eventos cardiovasculares, como enfartes, além de diminuição da mortalidade em alguns grupos de pacientes. “Não é só perda de peso, é melhora de doenças. É isso que justifica que elas possam ser incorporadas ao SUS”, afirmou.
Atualmente, segundo ele, a rede pública oferece alternativas como acompanhamento nutricional, cirurgia bariátrica (que pode demorar um tempo longo para acontecer) e práticas integrativas, como tai chi chuan (mas sem muitas evidências de benefícios, segundo o médico).
Mancini também apontou a dificuldade de reconhecer a obesidade como uma doença crônica. Para ele, ainda se considera que o problema pode ser resolvido apenas com mudanças no estilo de vida, sem levar suficientemente em conta a complexidade do tratamento.
Já Freitas ressaltou que a abordagem precisa envolver diferentes áreas, como atividade física, psicologia comportamental, endocrinologia e atenção primária. Para ele, o medicamento deve estar inserido em um programa de cuidados mais amplo, com indicação clínica bem definida.
Custo e acesso
O impacto financeiro é um dos principais obstáculos à ampliação do acesso. Freitas afirmou que a avaliação de novas terapias deve considerar três critérios: segurança, efetividade e custo. Embora a redução de preços possa favorecer o acesso, ele ressaltou que a incorporação precisa ser acompanhada de critérios que definam quais pacientes devem receber os medicamentos.
Já Mancini destacou que, ao fazer a conta do impacto financeiro da incorporação dessas medicações, é importante considerar os gastos relacionados às doenças associadas à obesidade, visto que a condição está ligada a mais de 200 problemas de saúde.
Outro ponto discutido foi a adesão ao tratamento. Geloneze observou que, mesmo quando medicamentos injetáveis são fornecidos gratuitamente, mais da metade dos pacientes pode abandonar o uso, segundo dado apresentado durante o painel. Para ele, a chegada de comprimidos com resultados semelhantes e custo menor pode ampliar as possibilidades de um tratamento efetivo contra a obesidade.
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