Hepatites virais ainda desafiam o Brasil; veja quem está mais exposto
Foto: Envato Elements
São Paulo - Uma ampla revisão de dados coletados na última década revela, embora o Brasil tenha políticas para eliminar as hepatites virais até 2030, grandes lacunas de conhecimento e disparidades regionais ainda dificultam o controle total das infecções.
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Entre os principais achados, a pesquisa mostrou que a hepatite A apresentou soroprevalência entre 33,3% e 67,8% na população geral. O estudo também confirmou a concentração histórica de casos de hepatite D na região Amazônica e reuniu evidências sobre a circulação da hepatite E em diferentes regiões brasileiras.
A pesquisa feita por profissionais do Eistein Hospital Israelita e publicada na PLOS ONE, uma das mais reconhecidas revistas científicas do mundo. O material reuniu uma análise 200 estudos abrangedo uma amostra de mais de 14,5 milhões de pessoas.
Além disso, o levantamento integra o projeto "Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas", desenvolvido pelo Einstein no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). A iniciativa busca gerar conhecimento capaz de subsidiar estratégias de cuidado e contribuir para o alcance da meta de eliminação das hepatites virais no país.
Como resultado, a análise mostrou que cada tipo de hepatite se comporta de forma diferente no território brasileiro:
Hepatite A
Embora a vacinação tenha ajudado a reduzir casos, o vírus ainda circula intensamente em grupos específicos. Enquanto na população geral a presença de anticorpos varia de 33% a 67%, entre a população carcerária esse índice sobe para 88,1%, evidenciando a falta de saneamento e higiene.
Hepatite B
O grande desafio para a hepatite B está na Amazônia Ocidental, que abrange os estados Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima, onde a doença é considerada frequente. A pesquisa mostra que, entre o povo indígena Yanomami, por exemplo, a exposição ao vírus chegou a ser identificada em 45,5% da população estudada.
Hepatite C
O levantamento aponta que esse tipo de hepatite é mais comum em pessoas que usam drogas (36,9%) ou que receberam transfusoes de sangue antes de 1994, época em que o controle do vírus no sangue doado era menos rigoroso, chegando a 47% de prevalência nesse grupo específico.
Hepatite D e E
O estudo elenca que a hepatite D está quase totalmente concentrada na região Amazônica, com prevalência de até 23,9% em algumas áreas. Já o contexto da hepatite E surpreendeu os pesquisadores: na região Sul, a presença de anticorpos relacionados à doença chegou a 59,4% em algumas cidades, o que pode estar ligado à criação de suínos na região.
Futuro
Apesar da enorme quantidade de dados, a pesquisa acendeu um sinal de alerta sobre as desigualdades na ciência brasileira. A maioria dos estudos foca na região Sudeste, enquanto regiões com muitos casos, como o Norte e o Nordeste, são menos estudadas pelos cientistas.
Outro problema grave é o esquecimento de fatores sociais: menos da metade dos estudos (44,5%) registrou a raça ou etnia dos participantes. Segundo os autores, sem saber quem são as pessoas mais atingidas socialmente, é muito mais difícil criar políticas de saúde que sejam realmente justas e eficientes.
O estudo conclui que, para o Brasil vencer as hepatites até 2030, precisa investir em pesquisas mais robustas fora dos grandes centros e olhar com mais atenção para as populações que vivem à margem do sistema de saúde
Para a coordenadora-Geral de Vigilância das Hepatites Virais do Ministério da Saúde (Dathi/SVSA/MS), Tiemi Arakawa, essa análise é uma ferramenta importante para orientar os rumos da vigilância e da assistência no SUS.
É com base em evidências desse porte que o SUS consegue direcionar esforços para onde a necessidade é real, trabalhando para garantir equidade e caminhando rumo à eliminação das hepatites virais como problemas de saúde pública.”
Sobre a pesquisa
Para entender o real tamanho do problema, os pesquisadores realizaram o que chamam de "revisão de escopo". De forma simples, isso significa que eles não fizeram novos exames em pessoas, mas revisaram e cruzaram informações de centenas de estudos já existentes para criar um mapa completo da situação no Brasil.
A equipe levantou informações em sete bases de dados internacionais sobre estudos publicados entre 2013 e 2024. Os dados foram então divididos em categorias e analisados pelos pesquisadores.
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