O cérebro é composto por dois órgãos? Neurologistas explicam nova pesquisa
Especialistas esclarecem o contexto da pesquisa que deu origem às publicações nas redes sociais sobre o cérebro ser composto por órgãos separados
Por Bianca Bibiano
23/09/2026 | 16h11Envato
Uma pesquisa da Universidade Stanford revelou que o cérebro é formado por duas linhagens celulares distintas, mas especialistas afirmam que isso não altera a visão do cérebro como um órgão único, destacando a importância da descoberta para entender o desenvolvimento celular.
O estudo identificou que as linhagens celulares, que se originam em diferentes partes do embrião de rato, mantêm suas características mesmo sob estímulos variados, sugerindo que a especialização celular ocorre muito precocemente no desenvolvimento.
Embora não haja aplicação clínica imediata, a pesquisa abre caminho para o avanço em terapias regenerativas e no entendimento de doenças que afetam o tronco cerebral, como a Esclerose Lateral Amiotrófica e certos tipos de câncer.
São Paulo - Uma pesquisa liderada por estudiosos da Universidade Stanford e publicada no periódico Nature Science repercutiu nas redes sociais acompanhada da afirmação de que o cérebro seria composto por dois órgãos distintos.
Especialistas ouvidos pelo VIVA, no entanto, esclarecem que o estudo não muda a visão do cérebro como um órgão único, embora demonstre uma descoberta inédita: ele é formado por duas partes com trajetórias de desenvolvimento celular distintas.
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O neurocirurgião Marcelo Valadares, médico e coordenador da pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein, explica que o fato de haver diferentes populações de células na origem de um órgão não é novidade na medicina.
O cérebro continua sendo um órgão com porções integradas, pois o fato de ter mais de uma população distinta de célula precursora não transforma o cérebro ou qualquer órgão em mais de um órgão."
Marcelo Valadares, neurocirurgião
Valadares complementa que a verdadeira contribuição do estudo está em demonstrar quão precocemente ocorre a diferenciação dessas células precursoras no desenvolvimento cerebral.
Ele compara o processo a "tijolos de formação do órgão que vêm de fábricas diferentes" e lembra que estruturas como o coração, a glândula suprarrenal e o olho humano também se formam a partir de populações embrionárias distintas.
Linhagens celulares e metodologia do estudo
A neurologista Luciana Barbosa, que atua no Hospital Sírio-Libanês, pondera que a discussão sobre a origem e especialização das células cerebrais vem desde a década de 1950.
Hipóteses prévias dividiam-se entre células idênticas que se especializavam pelo ambiente ou células que já nasciam predispostas, algo observado anteriormente em embriões de animais como ratos, sapos e peixes-zebra.
A novidade da pesquisa da Universidade Stanford (nos Estados Unidos) foi testar células de ratos in vitro, submetendo-as a estímulos variados. Com isso, os estudiosos identificaram duas linhagens celulares distintas no sexto ou sétimo dia do embrião do rato:
- Primeira linhagem: Origina o rombencéfalo, responsável por funções vitais como respiração, deglutição, mastigação e controles cardíaco e de pressão arterial.
- Segunda linhagem: Contribui para a formação do prosencéfalo e do mesencéfalo, ligados a funções cognitivas e motoras.
Mesmo sob diferentes estímulos externos, as linhagens mantiveram suas características sem se transformar uma na outra. "Isso reforça a hipótese de que determinadas características das células que formarão diferentes regiões do cérebro já estejam estabelecidas muito precocemente no desenvolvimento embrionário", aponta Barbosa.
A neurologista ressalta ainda que o estudo foi realizado em ratos e, portanto, esses resultados não podem ser automaticamente extrapolados para o cérebro humano.
O principal achado é que, mesmo quando submetidas a diferentes estímulos, essas linhagens mantiveram suas características e uma não se transformou na outra."
Luciana Barbosa, neurologista
Impactos para pesquisas futuras
Apesar de não haver aplicação clínica imediata, os especialistas apontam que conseguir cultivar essas células in vitro e compreender suas origens permite avançar no estudo de doenças e no desenvolvimento de terapias regenerativas.
Isso é particularmente relevante para enfermidades que afetam o tronco cerebral, como a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), a amiotrofia espinhal e certos tipos de câncer.
"Se conseguimos reproduzir essas células em laboratório com funções específicas, podemos conhecer melhor como elas funcionam, selecionar as células adequadas e colocá-las em um ambiente que permita seu desenvolvimento. A partir daí, é possível avançar nos estudos laboratoriais e, depois de diversas etapas de pesquisa, eventualmente chegar a aplicações clínicas", conclui Luciana Barbosa.
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