CONFIRA

Relação sexual não agrava hipoglicemia no diabetes tipo 1, diz estudo

Pesquisa internacional usou monitoramento contínuo de glicose para entender se há queda brusca de açúcar no sangue durante relação sexual

Bianca Bibiano

Por Bianca Bibiano

22/09/2026 | 09h00

Adobe Stock

Entrevistados registraram dados usando um tipo de monitoramento contínuo de glicose - Adobe Stock
Entrevistados registraram dados usando um tipo de monitoramento contínuo de glicose
Ouvir texto 2:27 1x

Uma pesquisa recente revelou que a atividade sexual não provoca picos de hipoglicemia em pessoas com diabetes tipo 1, desmistificando um temor comum entre os pacientes e melhorando sua qualidade de vida.

O estudo, que monitorou 12 adultos com diabetes tipo 1, constatou que, em 110 relações sexuais analisadas, não houve casos de hipoglicemia clinicamente significativa, embora as respostas glicêmicas variem entre os indivíduos.

Os pesquisadores destacaram a importância do monitoramento contínuo de glicose e a necessidade de discutir abertamente o impacto da atividade sexual na saúde dos diabéticos, sugerindo que todos os pacientes deveriam ter acesso a essa tecnologia.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Para quem vive com diabetes tipo 1, qualquer esforço capaz de gastar energia pode acender um alerta sobre o risco de hipoglicemia, que causa a queda brusca de açúcar no sangue. Esse medo é especialmente comum no momento da relação sexual, afetando a qualidade de vida e o bem-estar de muitos pacientes.

No entanto, uma nova pesquisa usando sistema de monitoramento contínuo de glicose (MCG) aponta que a relação sexual não produz picos de hipoglicemia e não agrava o problema em pessoas com diabetes tipo 1. O trabalho, liderado pela pesquisadora Dominica Orłowska, da Universidade Médica de Varsóvia, na Polônia, será apresentado na próxima semana na Reunião Anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), em Milão, Itália.

Sexo causa hipoglicemia?

Estudos anteriores já indicavam que cerca de um terço dos jovens adultos com diabetes tipo 1 relatavam receio de sofrer hipoglicemia durante o ato sexual. Contudo, esses dados eram baseados apenas em questionários e relatos pessoais. A nova investigação destaca-se por ser a primeira a medir os níveis de glicemia de forma objetiva e contínua nesse contexto.

Para avaliar esse impacto, os pesquisadores acompanharam 12 adultos com a condição (sete mulheres e cinco homens), com idade mediana de 36 anos, ao longo de três meses.

Metade dos participantes utilizava múltiplas injeções diárias de insulina e a outra metade fazia uso de bomba de insulina, modelos mais recentes nos quais a insulina é injetada ao longo do dia. Todos os participantes usaram um sistema de monitoramento contínuo de glicose e registraram os momentos de relação sexual no aplicativo do dispositivo.

Ao analisar os dados de 110 relações sexuais, coletados entre duas horas antes e seis horas depois de cada evento, os cientistas constataram que não houve nenhum caso de hipoglicemia clinicamente significativa.

Como a glicose reage durante a atividade sexual?

O estudo revelou que as respostas da glicemia durante o sexo variam conforme o indivíduo e o momento da atividade:

  • Em 58% dos eventos (64 ocasiões), a glicose média caiu de 180 mg/dL para 132 mg/dL após a relação.
  • Nos outros 42% dos eventos (46 ocasiões), a glicose subiu de 122 mg/dL para 164 mg/dL.
  • Ambos os padrões (aumento e queda) foram observados em um mesmo participante em momentos diferentes.

Outro achado importante envolveu o horário da relação: aquelas ocorridas no período noturno (das 20h às 06h) apresentaram uma redução estatisticamente significativa nos níveis de glicose (de 165 para 147 mg/dL), enquanto as relações diurnas não provocaram alterações relevantes na média.

Além disso, pessoas com IMC a partir de 25 (considerado sobrepeso) apresentaram uma queda mais acentuada da glicemia do que aquelas com IMC abaixo de 25.

O desafio do tabu e o papel da tecnologia

Diferente dos exercícios físicos convencionais, que podem ser planejados com ajuste prévio nas doses de insulina ou consumo de carboidratos, a atividade sexual costuma ser espontânea.

"O exercício pode ser planejado, você pode reduzir a dose de insulina, comer antes, definir um modo de atividade na sua bomba. No entanto, a atividade sexual geralmente é espontânea e costuma ocorrer à noite, que já é a janela de maior risco para hipoglicemia grave", explicou Dominica Orłowska em nota à imprensa.

Ninguém fala sobre isso: os pacientes discutem exercícios com seus endocrinologistas, mas quase ninguém pergunta sobre sexo, de modo que o medo nunca é abordado."
Dominica Orłowska, pesquisadora

A pesquisadora ressalta que romper esse tabu é fundamental para evitar que o medo faça os pacientes esquivarem-se da intimidade. Os autores destacaram ainda que os resultados reforçam a importância do acesso à tecnologia na gestão da doença:

“Em um mundo ideal, todas as pessoas com diabetes tipo 1 deveriam usar monitoramento contínuo de glicose. Aquelas que não usam podem não ter ideia se estão apresentando hipoglicemia durante o sexo, ou, na verdade, em qualquer outra situação.”

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.