Remédio sem receita pode fazer mal: veja reações e quando procurar um médico
Uso de medicamentos sem prescrição pode levar a efeitos adversos. Saiba reconhecer os efeitos e quando procurar ajuda
Por Bianca Bibiano
01/11/2026 | 08h11Freepik
Em 2023, o Brasil registrou a venda de 1,21 bilhão de medicamentos isentos de prescrição, representando 21,04% do mercado, o que levanta preocupações sobre os riscos da automedicação e suas consequências para a saúde pública.
Especialistas alertam que o uso inadequado desses medicamentos pode resultar em efeitos adversos, intoxicações e mascaramento de sintomas, especialmente em grupos vulneráveis como idosos e pessoas com doenças crônicas.
A Anvisa iniciou um processo para regulamentar a venda de medicamentos em plataformas digitais, enfatizando a necessidade de orientar os consumidores sobre o uso responsável e os riscos associados à automedicação, que deve ser feita com cautela e sob supervisão profissional.
São Paulo - Analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios e descongestionantes estão entre os medicamentos sem receituário obrigatório mais acessíveis, que podem até ser comprados online, sem precisar falar com um farmacêutico. De acordo com o Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2025 foram vendidas 1,2 bilhão de embalagens desses tipo, registrando um faturamento de R$ 15,4 bilhões.
O uso de remédios por conta própria, contudo, pode provocar efeitos adversos, intoxicações, interações medicamentosas e mascarar sintomas de doenças, alertam médicos. E agora, com a ampliação das possibilidades de compra por canais digitais, é preciso reforçar alguns cuidados, principalmentre entre pessoas idosas, que tomam grande quantidade de remédios. Alguns são perigosos quando misturados, e até tomar um chá de erva requer atenção. Veja a seguir,
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O que é medicamento isento de prescrição?
Os Medicamentos Livres de Prescrição Médica (MIPs) são destinados a condições de menor gravidade e pode ser utilizados sem receita, desde que respeitadas as indicações e orientações de uso da bula. Isso não significa que sejam livre de efeitos adversos ou interações, afirma a gerente da farmácia do Hospital Sírio-Libanês, Débora de Carvalho.
Medicamentos, por definição, possuem riscos inerentes. A segurança depende de fatores como idade, condições de saúde pré-existentes, alergias e outros medicamentos em uso.
Débora de Carvalho, gerente da farmácia do Hospital Sírio-Libanês
Segundo ela, entre os erros mais comuns estão;
- autodiagnóstico incorreto,
- escolha inadequada do tratamento,
- utilização da via de administração errada,
- prolongamento desnecessário do uso.
“Frequentemente observamos pacientes que buscam assistência hospitalar devido a complicações decorrentes da automedicação com fármacos considerados ‘comuns’, como analgésicos e anti-inflamatórios”, complementa.
Quais são os riscos dos remédios sem receitas?
Os efeitos variam conforme o princípio ativo e as condições de saúde de quem utiliza o produto.
Anti-inflamatórios como ibuprofeno, naproxeno e cetoprofeno, por exemplo, estão associados a risco de lesão renal e sangramento gastrointestinal. Já o paracetamol pode causar lesão hepática quando utilizado acima da dose recomendada.
“A experiência anterior com um medicamento não significa que ele seja adequado para uma nova situação. Se a dor persiste ou retorna, é importante entender a causa antes de simplesmente repetir o tratamento”, afirma o médico internista Guilherme de Abreu Pereira, também do Sírio-Libanês.
Outro ponto de atenção são as interações com medicamentos de uso contínuo. Um remédio usado eventualmente pode interferir no efeito dessas terapias e aumentar o risco de reações adversas.
“Nenhum medicamento é isento de riscos. A automedicação pode fazer parte do autocuidado, mas deve ser feita com responsabilidade. É importante sempre buscar orientação de um médico ou farmacêutico para prevenir complicações”, diz Débora Carvalho.
Efeitos adversos de medicamento sem prescrição
Sinais de alerta indicam quando é hora de procurar atendimento atendimento médico após usar um remédio sem receita:
- Dor ou febre que não passam merecem avaliação
- Sonolência intensa
- Queda da pressão
- Aceleração dos batimentos cardíacos
“Quem se automedicou deve procurar ajuda se a dor ou a febre persistirem, pois esses sintomas podem indicar um quadro mais grave”, orienta Pereira.
Em caso de suspeita de intoxicação, é importante informar à equipe de saúde qual medicamento foi utilizado, a dose, a frequência, o tempo de uso, o horário da última dose e os sintomas apresentados.
Cuidado ao misturar remédio com ervas
Suplementos, fitoterápicos e até alguns chás também devem ser informados ao profissional de saúde. “Muitos pacientes não consideram produtos vendidos sem receita como medicamentos, o que pode mascarar interações perigosas com medicamentos de uso contínuo”, explica Débora Carvalho.
Essa percepção também contribui para o uso sem orientação de fitoterápicos, muitas vezes vistos como inofensivos. O ginkgo biloba, por exemplo, pode aumentar o risco de sangramento quando associado a anticoagulantes, antiagregantes ou anti-inflamatórios.
A erva-de-São-João também requer cuidado, pois pode interagir com alguns antidepressivos e provocar reações graves.
Posso usar descongestionante nasal direto?
Entre os medicamentos usados para aliviar sintomas do dia a dia, os descongestionantes nasais merecem atenção especial. Produtos à base de nafazolina e oximetazolina aliviam rapidamente o nariz entupido, mas, quando usados por muito tempo ou de forma inadequada, podem provocar o famoso "efeito rebote".
“O uso inadequado pode levar à chamada rinite medicamentosa. A pessoa deixa de usar o remédio e o nariz volta a escorrer, com muita coriza. Ela acaba criando uma dependência do produto para conseguir respirar melhor”, diz Pereira.
O cuidado deve ser ainda maior entre pessoas com hipertensão ou doenças cardiovasculares, que podem estar mais sujeitas aos efeitos desses medicamentos.
A dor passa, mas qual a causa?
Outro risco da automedicação é mascarar sintomas e atrasar o diagnóstico. O alívio da dor ou da febre pode ser necessário, mas a persistência do quadro ou a necessidade de recorrer repetidamente ao medicamento merece atenção.
O uso contínuo de medicamentos para dor precisa ser avaliado por um médico, principalmente quando o sintoma persiste.
Guilherme Pereira, médico internista do Sírio-Libanês
Nesses casos, aumentar a dose ou prolongar o tratamento por conta própria pode adiar a identificação da causa do problema.
Informe tudo o que tomou
Com o envelhecimento, mudanças no funcionamento dos rins e do fígado também podem alterar a forma como o organismo absorve e elimina os medicamentos. “Os idosos estão mais expostos às interações medicamentosas porque, muitas vezes, fazem uso de vários remédios ao mesmo tempo”, explica Pereira.
Por isso, os especialistas recomendam informar ao médico ou farmacêutico tudo o que é utilizado, mesmo produtos comprados sem receita ou usados apenas ocasionalmente. "Quando o paciente não informa tudo o que utiliza, mesmo que seja ocasionalmente, o profissional não consegue avaliar o tratamento de forma completa, o que aumenta o risco de interações e reações adversas”, afirma Débora de Carvalho.
Onde guardar medicamentos?
A segurança também depende da forma como o medicamento é armazenado. Os produtos devem ser guardados em local seco, fresco e protegido da luz, sempre de acordo com as orientações da bula.
Banheiro, cozinha e carro não são locais adequados, já que a umidade e o calor podem comprometer a qualidade do medicamento. Também é importante mantê-los fora do alcance de crianças e animais e, sempre que possível, na embalagem original, junto com a bula.
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