Como ficam os investimentos com juros travados em 13,75%
Com interrupção do ciclo de cortes iniciado em março, perspectiva é de crédito ainda restrito para os próximos meses, de acordo com economistas
Por Broadcast e Fabiana Holtz
05/11/2026 | 16h59Envato
A manutenção da Selic em 13,75% pelo Copom indica que cortes nos juros não devem ocorrer em breve, o que impacta negativamente o acesso ao crédito e a tomada de investimentos no Brasil.
Economistas projetam que a Selic permanecerá elevada, com expectativas de cortes apenas ao longo de 2027, dependendo da política fiscal do novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Com juros altos, especialistas recomendam priorizar a quitação de dívidas caras antes de investir, enquanto a renda fixa se mantém como a melhor opção para investidores, especialmente em um cenário de incertezas econômicas.
São Paulo - Com a manutenção da Selic em 13,75% anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), economistas e analistas do mercado consideram que novos cortes devem demorar um pouco para aparecer no horizonte. Porém, o que significa essa puxada de freio nos juros para o tomada de crédito e sobre investimentos?
Depois de oito meses consecutivos de cortes na Selic, as expectativas para 2027 apontam para um juro ainda restritivo, pelo menos nos primeiros meses. Há quem trabalhe com cortes ao longo de 2027, como Daycoval e Capital Economics. O Barclays, por exemplo, vê a Selic em 12,25% ao fim de 2027.
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Segundo os especialistas do mercado, essa pausa deve ser mantida até que se tenha mais claro qual será a política fiscal no novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para quem tem dinheiro investido, a perspectiva de juros ainda elevados por mais tempo é positiva. Isso porque a renda fixa continua oferecendo uma remuneração bastante atrativa, com alternativas de baixo risco.
Pierre Oberson de Souza, professor de Finanças da FGV/EAESP
A manutenção da Selic não implica em grandes mudanças no cenário de investimentos, na avaliação de Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing. "Primeiro porque o cenário político e ainda eleitoral pesa mais na movimentação do mercado financeiro. E isso, claro, movimenta câmbio, taxas de juros, percepção do Banco Central em relação aos destinos da economia", afirma.
Para o cotidiano da população de renda média e mais baixa, comenta Marcos Crivelaro, professor de Finanças da Fundação Vanzolini, o peso do juro alto se reflete principalmente nas prestações do carro, nos financiamentos, no cartão de crédito e nas compras parceladas.
As famílias acabam comprometendo uma parte maior do orçamento com juros e têm menos dinheiro disponível para consumir. Isso também afeta o comércio, a indústria e a geração de empregos.
Marcos Crivelaro, professor de Finanças da Fundação Vanzolini
É uma situação em que poupar está interessante, mas tomar dinheiro emprestado continua muito caro, resume o professor Crivelaro.
Crédito mais caro e restrito
O outro lado da moeda é que a Selic no atual patamar também significa que tomar crédito segue mais caro. "Por isso, antes de pensar em investir, quem tem dívidas com juros elevados, como cartão de crédito e cheque especial, deve priorizar sua quitação. Os juros dessas dívidas costumam ser muito superiores ao rendimento de qualquer aplicação financeira conservadora", afirma Souza, da FGV/EAESP.
O acesso ao crédito, concorda Gabriel Eisner, consultor financeiro e sócio da Mhydas Planejamento Financeiro, deve continuar desafiador.
Os bancos já sinalizam taxas superiores a 14% para novos financiamentos, em um cenário de inadimplência crescente e maior seletividade na concessão de recursos.
Gabriel Eisner, consultor financeiro e sócio da Mhydas
De fato, com o crédito mais caro e restrito, empresas e consumidores devem enfrentar mais dificuldades para seguir ou iniciar novos projetos.
Tesouro Selic, CDBs e Reserva de emergência
Para as famílias de renda média e baixa, a dica de Souza, com os juros no atual patamar é priorizar investimentos simples e seguros, como o Tesouro Selic e os CDBs de bancos sólidos, que remuneram pelo menos 100% do CDI, observando sempre as condições de liquidez e a proteção do FGC.
O Tesouro Selic segue como uma excelente opção para quem busca segurança e liquidez, ressaltam Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, e Crivelaro, da Fundação Vanzolini. Já os CDBs podem oferecer retornos ainda maiores, especialmente quando remuneram acima de 100% do CDI, desde que o investidor avalie o risco do banco emissor, acrescenta o analista.
Ambos continuam interessantes, inclusive para quem consegue investir pequenas quantias. Dica importante: não esqueça de verificar as condições para retirada do CDB para garantir que você não perderá dinheiro no caso de um saque emergencial.
Para quem consegue poupar, o momento continua favorável para construir uma reserva de emergência e aproveitar a boa remuneração da renda fixa, conclui Pierre de Souza. O cuidado é não comprometer recursos que podem ser necessários no curto prazo em investimentos de longo vencimento ou com restrições de resgate.
Renda fixa segue fortalecida
A manutenção da Selic reforça que a renda fixa continuará sendo a melhor alternativa para boa parte dos investidores da classe C, diz Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos. Principalmente pela combinação de rentabilidade, segurança e previsibilidade.
Para os próximos meses, acredito que a renda fixa seguirá como protagonista, já que a inflação persistente e as incertezas fiscais dificultam uma retomada rápida dos cortes da Selic.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos
Poupança
Mesmo com a Selic ainda elevada por tanto tempo, a poupança continua sendo uma das alternativas menos interessantes, observa Lima, porque entrega uma rentabilidade inferior à de outras aplicações conservadoras.
A poupança não deixa de ser útil neste momento, diz Crivelaro, da Fundação Vanzolini, mas nem sempre é a melhor escolha para fazer o dinheiro crescer.
Felipe Sant'Anna, da Axia, lembra que o mercado não está satisfeito, o câmbio está em tendência de alta e não é momento para correr nenhum tipo de risco. "No máximo, um título do Tesouro, um pré-fixado ou indexado à inflação para que o investidor possa se proteger", acrescenta.
Cenário externo segue adverso
Na avaliação de Luis Cezário, economista-chefe da Asset 1, o Copom estaria distante de considerar a necessidade de voltar a subir a Selic. Segundo ele, o cenário externo se tornou mais adverso, com choques de oferta, como petróleo em patamar elevado, El Niño e o fim da jornada 6x1. Por outro lado, ressalta Cezário, a maior preocupação do comitê com a atividade sugere que a possibilidade de alta dos juros não está na mesa.
Para o economista-chefe do Santander, Marco Antonio Caruso, o Copom não caracterizou a decisão como encerramento do ciclo nem sinalizou manutenção prolongada dos juros. Para ele, a deterioração do cenário inflacionário desde setembro foi relevante e em seu comunicado o Copom reforçou riscos vindos de petróleo, clima, câmbio e expectativas, incluindo potenciais efeitos de segunda ordem dos choques de oferta.
Afinal de contas, os juros altos beneficiam quem consegue poupar, mas penalizam quem precisa tomar crédito. Para o pequeno investidor, a combinação de segurança, liquidez e boa rentabilidade continua sendo o caminho mais adequado.
Independentemente do cenário, o mais importante para quem está começando a investir, aconselham os especialistas, é priorizar liquidez e segurança antes de buscar rentabilidades maiores.
(Com Eduardo Laguna, Juliana Machado, Antonio Perez e Arícia Martins)
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