Dirlene Silva
Colunista VIVA
05/11/2026 | 10h43
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Economista, LinkedIn Top Voices e autora do livro “Do lixo a Paris: minha jornada de filha da Lixeira a referência em Educação Financeira”.
Empreendedorismo feminino e consciência negra são sobre representatividade
Consciência negra e longevidade se encontram na discussão sobre quem tem oportunidades para começar, permanecer e prosperar nos negócios
Envato
A discussão sobre empreendedorismo feminino e a representatividade de mulheres negras acima dos 50 anos destaca a necessidade de reconhecer as barreiras sociais que limitam suas oportunidades no mercado de trabalho. Essa reflexão é especialmente pertinente no mês da Consciência Negra, que busca ampliar a conversa sobre diversidade e inclusão.
Mulheres negras mais velhas enfrentam desafios interseccionais, como racismo, preconceito etário e barreiras de gênero, que dificultam seu acesso a recursos e oportunidades de negócios. A experiência acumulada ao longo da vida pode ser um ativo valioso, mas muitas vezes não é suficiente para superar esses obstáculos.
Para apoiar essas empreendedoras, é fundamental criar redes de apoio e garantir acesso a crédito, formação e espaços de decisão. O reconhecimento e a valorização de seus conhecimentos e experiências são passos essenciais para promover uma economia mais inclusiva e justa.
Porto Alegre - Quando você imagina uma pessoa começando um negócio, qual imagem vem
à sua cabeça? Uma mulher negra com mais de 50 anos aparece nessa cena? Essa pergunta ajuda a perceber como nossas referências podem limitar o que reconhecemos como possível.
Falamos sobre viver mais, permanecer no mercado de trabalho e construir novos caminhos profissionais. Mas precisamos perguntar: quem encontra apoio para fazer isso?
Novembro é mês da Consciência Negra e do Empreendedorismo Feminino, então eu convido você a ampliar essa conversa. Aqui no VIVA falamos de longevidade, e a conexão é direta: envelhecemos em uma sociedade diversa, com oportunidades e desigualdades que se
acumulam ao longo da vida.
Eu sou uma mulher negra, passei dos 50 e empreendo. Depois de décadas de experiência no mundo corporativo, construí meu negócio na educação e na inteligência financeira. Reconheço o valor dos conhecimentos e das relações que trouxe comigo.
Experiência, por si só, não elimina preconceitos nem garante que as portas estarão abertas. Por isso, falar de empreendedorismo na maturidade exige olhar para o conjunto: idade, raça e gênero.
Quem pode se imaginar nesse lugar?
A representatividade começa com uma possibilidade de identificação. Ao encontrar alguém com uma aparência ou ainda, uma história próxima da nossa ocupando um espaço de decisão, liderando uma empresa ou iniciando um projeto, podemos pensar: “Esse lugar também pode ser para mim”.
A representatividade também pode ajudar a questionar mensagens ouvidas durante a vida: que determinado ambiente não lhe pertence, que sua aparência não corresponde ao perfil esperado ou que já passou da idade de começar.
Mas para ser efetiva, a representatividade precisa vir acompanhada de condições para participar.
Aparecer em uma campanha sobre diversidade é diferente de ter acesso a crédito, formação, clientes e espaços de decisão. É preciso poder entrar, ser ouvida e encontrar condições para permanecer.
Um novo negócio e uma vida de experiência
Há quem empreenda depois dos 50 para realizar um desejo antigo. Há quem procure mais autonomia, queira transformar um conhecimento em serviço ou encontre uma oportunidade de complementar a renda. Há também quem comece porque perdeu o emprego e não conseguiu uma recolocação. Essas situações pedem cuidados diferentes.
Não podemos tratar toda abertura de negócio como uma história de liberdade e realização. Às vezes, o empreendimento nasce da urgência de pagar as contas.
Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer o repertório de quem chega a essa etapa da vida. Anos de trabalho, capacidade de resolver problemas, conhecimento sobre pessoas e relações de confiança podem contribuir muito para um negócio. O desafio é transformar essa experiência em uma atividade que encontre clientes, tenha organização e remunere adequadamente quem trabalha.
Gostar do que faz é importante. Conseguir viver desse trabalho também é.
Consciência negra também passa pela economia
Falar de consciência negra é reconhecer contribuições, enfrentar o racismo e discutir como as oportunidades são distribuídas. Isso inclui observar quem consegue financiar uma ideia, negociar com fornecedores e chegar aos espaços onde os negócios acontecem.
Quando acrescentamos a idade a essa reflexão, surge outra pergunta: estamos valorizando a experiência das pessoas negras mais velhas ou reproduzindo a ideia de que inovação e novos começos pertencem apenas aos jovens?
Uma mulher negra com mais de 50 anos possui três marcadores sociais que se interseccionam.
Ela pode encontrar tanto o racismo quanto o preconceito relacionado à idade, além das barreiras de gênero. Ignorar essa combinação empobrece a discussão sobre empreendedorismo e longevidade. As trajetórias são diferentes. O apoio oferecido também precisa considerar essas diferenças.
Cuidar do negócio e da pessoa que empreende
Eu me considero a economista de pessoas e, defendo que o planejamento de um negócio precisa conversar com o planejamento da vida.
Antes de investir, vale perguntar: quanto preciso para começar? Quem compraria meu produto ou serviço? Posso testar a ideia em uma escala menor? Por quanto tempo consigo manter minhas despesas se o negócio ainda não gerar renda?
Depois dos 50, também merece atenção o papel do dinheiro acumulado ao longo dos anos. Uma reserva pode ter levado décadas para ser construída e cumprir uma função importante na segurança futura. Usá-la em um empreendimento exige avaliar o que pode ser colocado em risco e o que precisa continuar protegido. Separar o dinheiro pessoal do dinheiro da empresa, calcular custos e definir uma remuneração para o próprio trabalho são cuidados que ajudam a sustentar essa nova etapa.
Também precisamos incluir a saúde e o tempo nessa conta. O negócio permite descanso? Cabe na rotina de quem cuida de familiares? A forma de trabalhar poderá ser ajustada ao longo dos anos? Longevidade financeira envolve essas escolhas. O dinheiro serve para nos
servir, inclusive quando decidimos empreender.
Ninguém precisa construir tudo sozinho
Redes de apoio e contatos profissionais podem aproximar quem empreende de clientes, parceiros, fornecedores e oportunidades de aprendizado.
Para quem passou a vida em ambientes com poucas pessoas parecidas consigo, como é o meu caso, encontrar uma rede de acolhimento e troca pode fazer diferença. Há conhecimentos que circulam em uma conversa, indicações que abrem portas e parcerias que tornam um projeto viável. Essa responsabilidade também pertence às empresas e instituições.
Quem está sendo convidada para os encontros de negócios? Quem recebe indicações? De quem compramos? Que empreendedoras reconhecemos como especialistas? A inclusão ganha força nessas decisões cotidianas.
Viver mais deve ampliar nossas possibilidades de participação, inclusive para começar algo novo.
Neste mês da Consciência Negra e do Empreendedorismo Feminino, meu convite é olhar para as mulheres negras maduras que estão criando, trabalhando e movimentando a economia.
Conheça seus negócios, contrate seus serviços. Reconhecer seus conhecimentos são formas concretas de participar da mudança que queremos no mundo. Eu defendo que economia é, sobretudo, pessoas. E uma sociedade que valoriza a longevidade precisa reconhecer o que as pessoas têm a oferecer em todas as idades.
Até o próximo artigo!
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