Sem INSS e sem reserva: o drama invisível de 40 milhões de trabalhadores
Pesquisa Abrapp mostra que instabilidade de renda impede criação de reservas financeiras. Entidade propõe micropensões para evitar colapso no futuro
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Uma pesquisa revela que, apesar de 97% dos trabalhadores informais e de aplicativos reconhecerem a importância de uma reserva financeira, a maioria não contribui para o INSS, resultando em vulnerabilidade financeira em caso de imprevistos.
Entre os trabalhadores de aplicativos, 91% enfrentam dificuldades financeiras mensais, enquanto 81% dos informais temem perder investimentos, evidenciando barreiras significativas para a poupança e planejamento a longo prazo.
A Abrapp propõe a regulamentação de micropensões para oferecer contribuições flexíveis, além de destacar a necessidade urgente de inclusão previdenciária, com simulações mostrando que a inclusão de trabalhadores informais pode injetar bilhões na economia.
São Paulo - Embora 97% dos trabalhadores informais e de aplicativos reconheçam a necessidade de construir uma reserva financeira, a maioria expressiva vive totalmente desprotegida. Isso é o que revela a pesquisa nacional conduzida pelo Instituto Ibero-Brasileiro de Relacionamento com o Cliente (IBRC) para a Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp).
O levantamento aponta que 68% dos trabalhadores plataformizados, ou seja de aplicativos, e 59% dos informais sem carteira assinada não contribuem para o INSS. A preocupação com a velhice atinge 77% dos informais e 70% dos plataformizados, mas a urgência das despesas do dia a dia sobrepõe-se ao planejamento de longo prazo para nove em cada dez entrevistados de ambos os grupos.
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Realizado entre julho e setembro de 2026 com 2.809 brasileiros, o estudo projeta seus resultados para um universo estimado de 40 milhões de pessoas nessa situação. A pesquisa possui nível de confiança de 95% e margem de erro de 1,85 ponto porcentual.
Obstáculos para poupar
As barreiras que impedem essa parcela da população de poupar diferem de acordo com a modalidade de trabalho:
Trabalhadores plataformizados: 91% enfrentam dificuldades para assumir compromissos financeiros mensais e recorrentes; 81% apontam a alta variação de renda entre os meses como o principal impeditivo.
Trabalhadores informais: 81% têm receio de perder o dinheiro aplicado em investimentos; 64% encontram dificuldades para compreender produtos financeiros ou previdenciários; 58% preferem manter os recursos com liquidez imediata para eventuais emergências.
A consequência dessa vulnerabilidade é imediata. Em caso de doença ou incapacidade de trabalhar, 82% dos informais e 77% dos plataformizados preveem que enfrentariam severas crises financeiras.
“Os dados mostram que a preocupação com o futuro existe, mas há obstáculos concretos para transformá-la em proteção. A ausência de contribuição ao INSS, somada à renda variável, reforça a importância de compreender essa realidade no debate previdenciário”, avalia Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp.
Micropensões
Para enfrentar o problema, a Abrapp defende a regulamentação das micropensões. O modelo sugere contribuições flexíveis e adaptáveis à oscilação de renda do trabalhador, atuando de forma complementar sem substituir a cobertura do INSS.
A urgência da pauta se reflete nas contas públicas. Dados do Relatório da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) indicam que as receitas do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), somadas às renúncias fiscais, totalizam R$ 808 bilhões, valor insuficiente para cobrir as despesas de R$ 1,027 trilhão, exigindo um aporte do Tesouro de cerca de R$ 218,8 bilhões.
Simulações da Abrapp mostram o potencial da inclusão desses trabalhadores no sistema, considerando um aporte médio hipotético de R$ 200 mensais:
- 5 milhões de trabalhadores: injeção de R$ 12 bilhões por ano.
- 10 milhões de trabalhadores: injeção de R$ 24 bilhões por ano.
- 20 milhões de trabalhadores: injeção de R$ 48 bilhões por ano.
Ampliar a cobertura previdenciária é uma agenda de inclusão social e sustentabilidade econômica. Precisamos olhar para os milhões de brasileiros desprotegidos e criar mecanismos para incorporá-los.
Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp
Atualmente, os planos instituídos de previdência complementar somam R$ 30 bilhões e contam com 913 mil participantes ativos. Como parte da estratégia para democratizar o acesso ao planejamento de longo prazo, a entidade disponibiliza o portal Previdência para Todos, onde os trabalhadores podem utilizar um simulador interativo para planejar suas reservas financeiras.
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