'Esporte cura', diz paratleta 50+ diagnosticada com condição sem tratamento
Cristina Vieira superou o isolamento provocado pelo HTLV-1 e encontrou na reabilitação esportiva novos caminhos para sua autonomia
Arquivo pessoal
Teresa Cristina Vieira, aos 50 anos, superou anos de isolamento como cadeirante ao se envolver com o esporte adaptado, o que transformou sua vida e a levou a competir em modalidades como tiro esportivo.
Diagnosticada com o vírus HTLV-1, Cris enfrentou limitações físicas que a mantiveram reclusa, mas a participação em uma trilha a motivou a buscar reabilitação esportiva e novas experiências sociais.
Atualmente, Cris se prepara para o Campeonato Brasileiro de tiro esportivo e destaca a importância do acesso ao esporte para a autonomia e inclusão de pessoas com deficiência, refletindo sobre a necessidade de iniciativas que garantam esses direitos na prática.
São Paulo - Aos 50 anos, Teresa Cristina Vieira, conhecida como Cris, vive uma rotina que, durante muitos anos, parecia distante. Cadeirante desde seu primeiro filho, ela passou um período dentro de casa por falta de segurança e também por “sentir vergonha” de circular em uma cadeira de rodas.
A mudança começou quando recebeu um convite para participar de uma trilha em Maricá, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esta experiência levou Cris ao esporte adaptado e, posteriormente, à reabilitação esportiva.
Leia também
Hoje, ela pratica tiro esportivo, já experimentou modalidades como esgrima e tênis de mesa, frequenta atividades na praia e se prepara para disputar o Campeonato Brasileiro da modalidade.
Em outubro, também viajará sozinha de ônibus para São Paulo para participar de um treinamento promovido pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).
Segundo Cris, sua trajetória ajuda a mostrar como o acesso ao esporte pode contribuir para a autonomia, a mobilidade e a participação social de pessoas com deficiência que praticam modalidades esportivas.
Hoje, 21 de setembro, é celebrado o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, instituído pela Lei nº 11.133/2005. A data foi escolhida por ser próxima ao início da primavera, simbolizando o renascer e a renovação das reivindicações por cidadania e inclusão plena.
Deficiência e os anos dentro de casa
Cris conta que nasceu com o HTLV-1, vírus que, de acordo com seu relato, começou a apresentar sintomas quando ela tinha 13 anos.
O Ministério da Saúde aponta que o HTLV-1 não tem cura nem vacina. O vírus pertence à mesma família do HIV e infecta células de defesa do organismo, mas não causa AIDS e apresenta características diferentes. Na maioria dos casos, a infecção permanece assintomática durante toda a vida.
Cerca de 5% a 10% das pessoas infectadas podem desenvolver doenças associadas ao vírus, geralmente após décadas. Entre elas estão a mielopatia associada ao HTLV-1, que pode provocar rigidez e fraqueza nas pernas, dificuldade para caminhar e alterações urinárias e intestinais, além da leucemia/linfoma de células T do adulto, um tipo de câncer. O vírus também pode estar relacionado a inflamações na pele, nos olhos e nos pulmões.
A transmissão ocorre principalmente por relações sexuais sem proteção, pelo aleitamento materno de mãe infectada para o bebê e pelo contato com sangue contaminado, como no compartilhamento de agulhas e seringas. O HTLV-1 não é transmitido por abraços, beijos, compartilhamento de copos ou talheres nem pelo uso do mesmo banheiro.
O diagnóstico é feito por exames de sangue específicos. Como não há tratamento capaz de eliminar o vírus do organismo, o acompanhamento médico busca controlar os sintomas e identificar precocemente possíveis doenças associadas.
A condição afetou a medula de Cris e, durante a primeira gestação, ela passou a usar cadeira de rodas. A atleta tem dois filhos, atualmente com 22 e 20 anos. Aos poucos, deixou de conseguir andar e interrompeu o tratamento de reabilitação. Durante anos, sua rotina ficou concentrada dentro de casa, entre os cuidados com os filhos, o marido e as tarefas domésticas.
Além das limitações físicas, havia o receio de sair de casa usando cadeira de rodas. "Eu já não conseguia mais andar, mas eu também não tinha segurança e tinha também vergonha de estar na rua com cadeira de rodas. Então, eu me limitei dentro da minha casa", conta.
Depois do convite para participar de uma trilha em Maricá, ela conheceu pessoas que praticavam corrida de rua e decidiu experimentar a atividade em um triciclo, sendo empurrada pelos filhos e pelo marido.
Foi nesse ambiente que conheceu profissionais envolvidos com a reabilitação esportiva de cadeirantes. "Daí a minha vida mudou totalmente", afirma.
Do triciclo ao tiro esportivo
A entrada no esporte adaptado fez com que Cris ampliasse gradualmente sua rotina. Ela passou a praticar corrida de rua com a própria cadeira e começou a frequentar projetos voltados para pessoas com deficiência nas praias do Rio de Janeiro.
Ela também iniciou a reabilitação esportiva em um centro ligado à Marinha, onde teve contato com diferentes modalidades. "As outras duas modalidades, a esgrima e o tênis de mesa, eu passei, mas não fiquei. Aí eu me encontrei no tiro esportivo, onde eu estou competindo", relata.
A modalidade passou a ocupar um espaço central na rotina. Cris está se preparando para disputar o Campeonato Brasileiro e também participará de um camp de tiro esportivo em São Paulo.
"Antes eu nunca iria a uma situação dessas, indo para São Paulo à noite sozinha. Hoje, meu esposo me leva à rodoviária, eu entro no ônibus, chego lá, já encontro o pessoal e me desenrolo. Minha vida mudou demais. O esporte agregou muito à minha vida", afirma.
Autonomia veio com a prática esportiva
Para Cris, uma das principais transformações proporcionadas pelo esporte foi a possibilidade de voltar a circular sozinha pela cidade. Também afirma que a prática esportiva representa uma possibilidade de reconstruir a relação com o próprio corpo.
Esporte cura. Cura o seu corpo, cura a sua mente, cura a sua alma. É libertador.
Cristina Vieira, paratleta 50+
A autonomia também apareceu em experiências que antes pareciam improváveis. Cris conta que já saltou de parapente e praticou rapel, mas uma das experiências mais marcantes ocorreu na água. Depois de cerca de 30 anos sem nadar no mar, ela voltou a entrar na água já como cadeirante.
"Foi uma sensação única. Não tenho nem palavras para expressar aquele momento", lembra.
Inclusão depende de acesso ao esporte
O caso de Cris também se relaciona a uma questão mais ampla sobre os direitos das pessoas com deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão estabelece direitos relacionados à participação social e prevê o acesso à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer.
Porém, a participação depende de condições como acessibilidade, equipamentos adequados, profissionais preparados e oferta de atividades que considerem diferentes tipos de deficiência.
Para a Associação Desportiva para Deficientes (ADD), o esporte pode fazer parte desse processo desde a iniciação esportiva até o alto rendimento. A entidade trabalha com modalidades como atletismo, basquete em cadeira de rodas, bocha paralímpica e vôlei sentado, além de manter a equipe de basquete em cadeira de rodas ADD Magic Hands.
Segundo Eliane Miada, fundadora e presidente do Conselho da ADD, a transformação provocada pelo esporte também pode alcançar a forma como a pessoa com deficiência passa a ocupar outros espaços.
"Quando um aluno entra aqui na ADD, a transformação não fica só dentro da quadra. Ele passa a se enxergar de um jeito diferente. Ganha coragem para ocupar o espaço dele, para enfrentar as dificuldades de cabeça erguida", afirma.
Para ela, a mudança também pode ser percebida pelas famílias. "O olhar dos pais muda quando eles percebem que o filho pode ocupar espaços que, muitas vezes, nem imaginavam", diz.
O contato com outras pessoas com deficiência também se tornou parte importante da experiência de Cris. Em campeonatos e treinamentos, ela encontra participantes de diferentes Estados e com diferentes tipos de deficiência.
"As pessoas pensam assim: 'Nossa, tanta gente'. E vê a gente ali participando, sendo a gente mesmo, sabe? Da maneira que a gente é e da maneira que a gente pode ser", relata.
Para Eliane, da ADD, ampliar essas oportunidades exige que os direitos previstos na legislação sejam acompanhados de iniciativas concretas. "Ter uma lei forte ajuda demais, dá a direção. Mas a lei precisa ganhar vida. Precisa virar oportunidade no bairro, na escola, no clube", afirma.
Se a gente quer um futuro mais justo, tem que continuar acreditando e apostando no esporte adaptado, na educação e no protagonismo de cada pessoa com deficiência.
Eliane Miada, presidente do Conselho da Associação Desportiva para Deficientes
É entre o direito e a oportunidade que histórias como a de Cris ganham força. O esporte não apagou barreiras, mas abriu caminhos para circular, conviver e participar. "Eu estou me sentindo livre. Eu posso fazer o que eu quero, eu posso estar onde eu quiser estar", conclui Cris.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora
